Não perca “O Homem do Castelo Alto”

 

 

 

Terminamos de ver as quatro temporadas de “O Homem do Castelo Alto” no Amazon Prime. A sensação é um misto de ressaca, vazio e pasmo. Me admira muito que a série baseada no livro de Phillip K. Dick (e produzida por Ridley Scott e Isa Dick Hackett – filha de Phillip) não seja uma das mais queridas, badaladas e bem faladas produções, algo que, certamente, ela mereceria com sobras. Phillip é dos maiores autores de ficção científica do século passado, tendo escrito, além de “Castelo”, “Do Androids Dream Of Electric Sheeps?”, que seria transformado em “Blade Runner”, em 1982. Dick morreu quatro meses antes do filme ser lançado, vítima de derrame, aos 64 anos. Ele escreveu “Castelo Alto” com … 35 anos, o que torna tudo mais fantástico.

 

 


A série, bastante inspirada no livro, fala do seguinte: e se a Segunda Guerra Mundial tivesse terminado com a vitória do Eixo? Como seria o mundo? A trama leva o espectador até o ano de 1961, para uma realidade em que há o Reich Nazista, potência que surgiu da antiga Alemanha, responsável por conquistar grande parte do mundo, incluindo a totalidade da Europa, grande parte da América do Sul, da África e da América do Norte, onde, a leste das Montanhas Rochosas, está o Grande Reich Americano. O resto do mundo ficou nas mãos do Império Japonês, incluindo aí a parte a oeste das Rochosas, agora chamada de Estados Japoneses do Pacífico. A cadeia de montanhas e algumas cidades adjacentes é conhecida como Zona Neutra, um espaço entre as duas potências mundiais, que se tornaram antagônicas e vivem uma espécie de Guerra Fria, na qual o Reich é bem mais avançado que o Japão.

 

Em meio a este cenário, surgem dois personagens que vão levar a trama adiante: Juliana Crain (Alexa Davalos), que vive na San Franscisco sob governo japonês e o Obergruppenfüher John Smith (Rufus Sewell), que comanda a SS na cidade de Nova York, capital do Reich Americano após a destruição de Washington em 1946, após bombardeio atômico imposto pelos nazistas. Tanto japoneses quanto alemães tratam os americanos como raça inferior, especialmente negros e outras minorias raciais e sociais. A exceção se dá por conta da elite financeira e militar, que ainda goza de privilégios porque se aliou aos invasores, especialmente os alemães. E Smith, ex-militar do Exército Americano, fez carreira como oficial da SS e persegue uma resistência informal nas ruas e cidades do Reich Americano, que é um estado satélite do Reich, ainda comandado por Adolf Hitler e seus assessores principais: Himmler, Goering, Doenitz, todos vivos e bem.

 

Com esta configuração, tem início uma história que vai girar em torno da vida deste mundo hipotético, que levará Juliana para a Resistência e vai confirmar a ascensão política de Smith. Os que lutam contra a opressão ditatorial dos dois lados dos antigos Estados Unidos são motivados por uma misteriosa figura, apelidada de Homem do Castelo Alto, que ninguém conhece, mas que atua pela Resistência, distribuindo filmes históricos, nos quais há imagens em que os Aliados venceram a guerra, derrotando alemães e japoneses. A origem destes filmes é o que vai conduzir Juliana à Resistência e deixar o espectador com a pulga atrás da orelha, afinal de contas, como é possível existirem tais imagens? Os Aliados ganharam a guerra? Ou perderam? Como faz? Outra figura-chave para entender e amar a série é o Ministro do Comércio dos Estados do Pacífico, Tagomi (Cary-Hiroyuki Tagawa), que é um pacifista, adepto do I Ching, uma “crendice” segundo os seus pares. Além de Tagomi, há o Inspetor-Chefe Takeshi Kido (Joel de la Fuente), um duríssimo policial que atua com violência contra as minorias em San Franscisco.

 

As temporadas mostram uma evolução sensacional, levando a história do plano do drama de guerra para o âmbito da ficção científica com gentileza e propriedade. A questão dos filmes é bem resolvida e, a partir disso, tudo ganha novos ares, enquanto as tramas e subtramas envolvendo os personagens vão acontecendo natuuralmente. No meio do caminho, os roteiros dos episódios capricham na exposição da brutalidade japonesa e da loucura nazista, mostrando como o mundo seria cruel e desumano se os governos fascistas do Eixo tivessem sobrevivido. O “sonho americano” se torna povoado por imagens e tradições alemães, mostrando uma prosperidade material que se choca com as normas sociais, por exemplo, de eliminação das imperfeições genéticas de qualquer tipo, especialmente de doenças congênitas, algo que irá perturbar a vida de um personagem desde o início da série e o transformará para sempre. É o máximo de spoiler possível.

 

Se você tem acesso ao Amazon Prime, não deixe de ver “O Homem do Castelo Alto”. E procure no Spotify pela playlist “Resistance Radio”, na qual vários standards da canção americana são refeitos por artistas contemporâneos.

 

Em tempo: num mundo em que as minorias foram erradicadas ou são cruelmente perseguidas, a cultura que se produziu é uniforme e sem graça. O jazz, o blues, o rock, por exemplo, são músicas proibidas, tanto no Reich quanto nos Estados do Pacífico.

 

Em tempo 2 – Em 1994 foi lançada uma produção da HBO Films chamada “Nação do Medo” (Fatherland) inspirada no mesmo livro, trazendo Rutger Hauer como um oficial da SS que investiga provas sobre a existência dos campos de concentração durante a Segunda Guerra em meio a um Reich Nazista que comanda toda a Europa.

 

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

2 comentários em “Não perca “O Homem do Castelo Alto”

  • 26 de maio de 2020 em 18:51
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    Maravilhoso, CEL!!!
    Ótima indicação!

    Um grande abraço

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    • 27 de maio de 2020 em 10:16
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      Valeu, Thiago! Abração.

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