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Boards Of Canada se muda para o presente

 

 

 

 

Boards Of Canada – Inferno
70′, 18 faixas
(Warp)

5 out of 5 stars (5 / 5)

 

 

 

 

 

O Boards of Canada passou a carreira inteira escondido no interior da Escócia, nos fazendo sentir saudades de uma infância que nem sempre foi nossa. Desde 1998, com o clássico Music Has the Right to Children, o som dos irmãos Michael Sandison e Marcus Eoin parecia uma fita cassete esquecida numa caixa perdida, cheia de melodias que lembravam comerciais de TV antigos, vinhetas de programas há muito fora do ar, jingles velhos e documentários escolares que ninguém assiste. Era uma nostalgia tépida, prazerosa, um olhar para um futuro bonito que nos prometeram no século passado, mas que acabou abandonado em favor da realidade que temos hoje. Só que em abril de 2026, esse mundo de nuvens desbotadas sumiu. O novo álbum da banda, batizado direto e retamente como Inferno, quebra esse voto de silêncio para dar uma resposta barulhenta e urgente à crise do clima e às guerras políticas dos nossos dias. Estávamos precisando.

 

Eu comecei a ouvir o Boards of Canada há uns quinze anos. Era o auge da minha descoberta da música eletrônica, percebendo nela um vetor para uma série de informações e vivências que a música acústica convencional não consegue oferecer. E o BoC ainda tem essa camada de revisitar um futuro que nunca aconteceu, o que, para mim, como pessoa e historiador, é o assunto mais importante possível. Porém, o que a dupla sempre prometeu, esse escrutínio do vai e vem do tempo, é deixado de lado dessa vez. Marcus e Michael são pensadores, mas também são criaturas que experimentam a nossa contemporaneidade. Sendo assim, Inferno é uma surpreendente — mas necessária — guinada temporal que eles conduzem. Em vez de ir e vir, agora, de fato, o Boards of Canada está aqui, agora. E este disco é uma investigação especialmente aguçada do presente. Há tempos, numa das raras entrevistas concedidas pela dupla, eles disseram que têm opiniões bastante firmes e que seriam consideradas radicais em assuntos referentes a política, ecologia e sociedade.

 

O ambiente aberto e luminoso dos primeiros trabalhos deu lugar a um clima claustrofóbico e sufocante. A introdução do álbum, imitando a abertura de um programa educativo dos anos 1970, mantém a identidade sonora do Boards of Canada, mas logo na sequência notamos que muita coisa vem diferente. Prophecy At 1420 MHz, o primeiro single do disco, traz um canto religioso rústico que surge no meio de samples de guitarras pesadas e uma perfumaria eletrônica enevoada, enquanto uma voz modificada por vários efeitos diz ser o próprio Deus. Essa colagem de discursos de igreja e transmissões de rádio americanas reforça a preocupação da dupla com o estado de coisas atual, imerso na religiosidade emburrecida como forma de alcançar uma falsa sensação de paz e alívio diante das agruras que a sociedade vivencia hoje, muito por conta do sistema, da crueza das relações, da objetificação de tudo e todos e da scrollização da vida. Aqui temos crítica séria, não há espaço para ironias ou gracinhas. A barra pesa.

 

Essa noção cresce quando reparamos nos ruídos de fundo que a dupla espalhou pelo álbum adentro. Há uma voz de computador soletrando códigos incompreensíveis em Age Of Capricorn, o barulho irritante de moscas zumbindo em Acts Of Magic, e o ritmo arrastado de The Word Becomes Flesh, onde a narração do crescimento de um bebê na barriga da mãe ganha um tom sinistro, como se algo indesejado estivesse nascendo. Tem o trip hop com vocalizações hare-krishna de Naraka, a assustadora caminhada noturna que é Arena Americanada, que lembra trilhas de filmes de John Carpenter. Tem os ruídos de fundo de aparelhos eletrônicos sendo subjugados por um instrumental sinistro em Memory Death… É verdade que o Boards of Canada ainda deixa o ouvinte respirar em alguns momentos, trazendo aquela velha brisa de verão e psicodelia familiares, mas o desconforto sempre volta a tempo de não deixar o ouvinte relaxar. No terço final do disco, faixas como The Process parecem documentar uma revolta popular, mas o instrumental coloca o ouvinte distante dela, como se não pudesse entender exatamente o que está acontecendo. Há ruídos de rádio, comunicação, vozes indistintas, algo absolutamente genial. E tem uma sinfonia para dançar em gravidade zero chamada You Retreat In Time And Space, que engata na belíssima I Saw Through Platonia, cujo pulsar de um coração dita o ritmo de fundo, até que não sobre mais nada.

 

Inferno é um disco sobre o fim do mundo. Não quer dizer que seja o fim dos tempos, mas pode ser o documento sonoro de um fim de ciclo, de era, de algo que realmente precisa acabar, se reinventar, renovar para poder seguir em frente. Houve tempo em que esse desejo era considerado utopia. Agora, sem dúvida, é pura necessidade. Como esses escoceses conseguiram encapsular esse sentimento e tudo que está à volta em forma de música, permanece um mistério para mim. E uma genialidade.

 

Ouça primeiro: o disco todo, na versão continous mix.

 

 

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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