Stone Temple Pilots: Purple faz 25 anos

 

Existiu o grunge. E existiu o pós-grunge. Certo? É uma questão de – fácil – metodologia historiográfica. Podemos recortar o período inicial de várias formas, mas talvez seja mais prudente olhar o ano de 1991 como um bom marco inicial em termos de sucesso. E podemos estabelecer 1994 como o final do grunge, quando, além da morte de Kurt Cobain, o estilo já se dispersara em várias manifestações mais ou menos ruins. Se pensarmos assim, o Stone Temple Pilots entra na fase final do flanelão de Seattle, mesmo sendo de San Diego, Califórnia, não exatamente um lugar conhecido por suas chuvas renitentes ou pela falta de opções de diversão para o pessoal mais jovem. Tudo bem, a gente releva e vê o STP surgindo nas paradas de sucesso com “Plush”, faixa do seu primeiro álbum, “Core”, lançado em 1992, na esteira do sucesso de gente como Alice In Chains e Pearl Jam.

 

Gosto de olhar para a trajetória da banda como olho para a carreira do Smashing Pumpkins. Ambos os grupos são de outras partes dos Estados Unidos – no caso dos Pumpkins, Chicago – e construíram trajetórias temporais que fazem interseção com o grunge, mas, de fato, nunca chegaram a ser consideras como participantes estéticas do estilo. Tudo bem que o STP quis engambelar sua audiência com “Core”, um disco pensado e criado como se fosse inserido no contexto das bandas de Seattle, mas, se o álbum deu ao grupo alguns hits – além de “Plush”, “Sex Type Thing” e “Creep” chegaram a fazer bonito nas paradas, trouxe para os rapazes uma aura de copidésquis da coisa toda.

 

Os rapazes eram Scott Weiland, Dean DeLeo, Robert DeLeo e Eric Kretz e já existiam como banda desde 1985. Já eram cascudos quando soltaram “Core” e fizeram bastante sucesso na MTV, chegando a gravar um “Unplugged” logo após o lançamento do disco, algo raro, mas justificável pelos oito milhões de cópias vendidas na estreia. Só que o quarteto não queria repetir a fórmula no sucessor de “Core” se veio com um disco bem diferente, especialmente pela inserção de várias pitadas de psicodelia sessentista, além da busca de uma saída para não ser visto mais como uma banda grunge. “Purple” foi o nome deste segundo trabalho, lançado na esteira do sucesso conseguido com a estreia. Agora, 25 anos depois, o disco ganha uma edição tripla, cheia de faixas-bônus e uma apresentação ao vivo da banda na época. Em 1994, “não ser grunge” era ser inglês e adepto do britpop. O resto era visto como variação ou derivação. Talvez por isso, tenha sido necessário o passar do tempo para comprovar que, de fato, “Purple” não é um disco que tenha qualquer parentesco com Seattle e suas bandas.

 

O primeiro hit foi “Big Empty”, que saiu primeiro como single, antecipando o que estava por vir. Em seguida, a clássica “Interstate Love Song”, que invadiu as paradas de sucesso, pois talvez guardasse certa identidade vocal com o registro de Eddie Vedder (do Pearl Jam) e exibisse certos comichões de guitarras que poderiam ser classificadas de decalcadas do grunge. Ainda que alguém dissesse isso, a levada da canção, mais rápida que o normal dos grunges, sem resvalar para flertes como o hardcore – uma marca registrada do Nirvana, por exemplo – mostrava que, além de tudo, Weiland, Kretz e os irmãos DeLeo tinham tino para a artesania pop. Há outros detalhes preciosos no álbum, como o discreto arranjo de cordas em “Kitchenware & Candybars”, uma épica faixa de encerramento que vara os oito minutos de duração, ou os efeitos de guitarra em “Silvergun Superman”, que introduzem a canção e revelam um Weiland com capacidade vocal muito além do que parecia. Isso também fica evidente em “Unglued”, outra faixa que tem uma levada mais aerodinâmica, cheia de anda-e-para guitarresco, mas com senso “dançante” na construção do arranjo. Não por acaso, o Stone Temple Pilots faria aparição num tributo ao Led Zeppelin, “Encomium”, lançado em 1995, fazendo uma boa versão de “Dancing Days”. Os caras sabiam o que estavam fazendo.

 

A versão “Super Deluxe” de “Purple” já está disponível nos streamings da vida. Ela é excelente para reouvir – e reavaliar – o disco e entender muito de seu processo criativo, uma vez que há um CD especial só com versões alternativas e sobras de estúdio. Merece destaque a versão que a banda faz de “She Knows Me Too Well”, dos Beach Boys, a título de esquenta no estúdio e, sobretudo, a inclusão da própria “Dancing Days”, neste volume de extras. O outro disco extra é a apresentação do STP num tal de Veterans Coliseum Memorial, em New Haven, no estado americano de Connecticut, em agosto de 1994, ou seja, na ponta dos cascos e cheia de gás. A sequência que traz os dois maiores sucessos – “Interstate Love Song” e “Plush” – mostra como o grupo era bom ao vivo e uma interessantíssima cover de “Andy Warhol”, de David Bowie, na base do voz-violão-percussão, mostra a versatilidade que os caras tinham.

 

Quando a banda lançou o sucessor, “Tiny Music…Songs From The Vatican Gift Shop”, em 1996, já havia encontrado uma marca sonora muito mais ampla que qualquer banda que tenha surgido em Seattle. Este é um disco superlativo dos anos 1990, conectado com o rock mais clássico setentista e com uma boa dose de personalidade. Tal fato pode também ser observado no disco solo que Weiland lançaria em 1998, o excelente “12-Bar Blues”, que tem até um tango, a linda “Lady, Your Roof Brings Me Down”, incluída na trilha sonora de “Grandes Expectativas”, recriação cinematográfica do romance de Charles Dickens.

 

O STP continuou sua carreira com Weiland – um cara com personalidade muito difícil e constantes problemas com drogas – até onde pode. Digno de nota e excelência é o último disco que o grupo fez em 2010, homônimo, com algumas faixas que reeditam o frescor dos primeiros tempos e reafirmam o STP como uma banda grande dos anos 1990. Muita gente acha que os caras eram coadjuvantes, mas relançamentos ampliados como este “Purple” anabolizado servem para isso. Ouçam sem medo e com amor no coração.

 

1+

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *