Violator, 30

 

 

 

Quem estava no planeta naquele março de 1990, não esquece. O lançamento do sétimo disco do Depeche Mode foi um inesperado acontecimento, um álbum que dividiu águas e borrou fronteiras entre música eletrônica e rock alternativo, estilos que ainda se mostravam distintos e incomunicáveis, segundo a opinião de muita gente boa. “Música eletrônica é música comercial” era o vaticínio de quem achava que entendia de algo. Fora os guetos da house music, a música sintética servia como ferramenta no estúdio – via sampling e instrumentos eletrônicos – ou era sinônimo de bobagem. Nada a ver com a era de ouro do estilo, nos anos 1970, quando ajudou a moldar os contornos do pop e do próprio rock. “Violator” veio para antecipar uma novíssima cena eletrônica que se organizava na Inglaterra e, ao fazer isso, atualizava a própria imagem/carreira do Depeche Mode, como um grupo que era capaz de transitar no mainstream e saracotear nos submundos. Não era pouca coisa.

 

O primeiro sinal – aqui no Brasil – da excelência de “Violator” chegou através do clipe de “Enjoy The Silence”, que logo galgou as paradas da MTV local. Um olhar mais atento mostraria que o processo de evolução do Depeche começou antes, na verdade, com o lançamento de seu quinto disco, “Black Celebration”, de 1986, no qual a banda abriu mão das cores pop e de uma leveza estilística para adentrar em terrenos mais pesados, especialmente nas letras de Martin L. Gore e da interseção delas com as performances do vocalista Dave Gahan. O disco seguinte, “Music For The Masses”, lançado em 1987, levou esta postura misteriosa e austera adiante, mas com a benesse de contar com três hits dourados: “Strangelove”, “Behind the Wheel” e “Never Let Me Down Again”, que arremessaram a banda para o topo das paradas na Inglaterra e abriu o caminho nos Estados Unidos. Em 1989, o duplo ao vivo “101” viria coroar a ótima fase da banda, celebrando uma turnê mundial e a adoção de uma imagem – em colaboração com o fotógrafo/cineasta Anton Corbijn – que define a banda até hoje.

 

Com este terreno pronto, “Violator” veio coroar esta fase e marcar o Depeche Mode para sempre. Até hoje é um trabalho que o grupo não igualou e a excelência da produção e das canções é digna de receber o termo “obra- prima”. Além da própria banda estar em ótima fase, a colaboração com o produtor Flood é indissociável do sucesso do álbum. O polimento sonoro é notável, a simbiose entre instrumentos acústicos e sintéticos, a possibilidade de trabalho mais espontâneo – o grupo quase não fez pré- produção do álbum – e as próprias canções, mostram que “Violator” não era qualquer disco. São quatro singles – de um total de nove canções. “World In My Eyes”, “Personal Jesus”, “Enjoy The Silence” e “Policy Of Trust”, cada um perfeito à sua maneira.

 

“World In My Eyes” é a faixa de abertura. Sua batida é algo ainda atual, mixando percussão eletrônica que parece respiração, percussão que parece percussão e a voz de Dave Gahan, que paira sobre guitarras e teclados indecifráveis. A letra abre um espaço para algo próximo do amor com “Let me show you the world in my eyes”. O clima é de crescente e mistério, com a certeza de que algo irá surpreender o ouvinte em algum momento. “Personal Jesus” já é um outro tipo de faixa, com tônica hedonista, iconoclasta e irreverente, misturando preces, perversão, tudo de humano que há em cada um de nós. O arranjo é quase de um blues, mas caso ele fosse tocado por um grupo de robôs.

 

“Enjoy The Silence” é uma das mais perfeitas canções gravadas em seu tempo, sem exagero. O diálogo entre teclado e guitarra é admirável, os múltiplos sons sintéticos, que surgem de todos os lados, servem para, ao mesmo tempo, pontuas melodia, criar novos climas e abrir portas que o ouvinte nem notara. Os vocais de apoio de Gore, em contraste com o registro mais grave de Gahan, além das programações de Alan Wilder e Andrew Fletcher, arremessam a banda numa nova dimensão de produção e execução. “Policy Of Trust” é outro momento iluminado. Baterias eletrônicas e reais, teclados, baixos e guitarras, todos brincando de esconde-esconde, capturando timbres e soando em harmonia. A letra abre com algo semelhante a uma acusação: “You have something to hide” e sentencia mais à frente: “It’s too late to change events, it’s time to face the consequences for delivering the proof…in the policy of trust”. Ecos de Kraftwerk estão sob a argamassa sonora irrepreensível.

 

“Violator” serviu como um parâmetro alcançado pelo Depeche, como já dissemos acima. O álbum seguinte, “Songs Of Faith And Devotion”, de 1992, avança pela mistura com o rock, mas, dessa vez, capta a influência que a banda recebeu dos sons alternativos americanos de então, de Jane’s Addiction ao pessoal grunge. Por mais que este seja um ótimo disco, subestimado até, o nível estabelecido pelo antecessor era altíssimo. É possível dizer que “Violator” e “Behavior”, álbum dos Pet Shop Boys lançado no mesmo ano de 1990, definiram caminhos para a música eletrônica no chamado mainstream, dando mais profundidade e possibilidades. Dois marcos, cada um a seu jeito.

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

One thought on “Violator, 30

  • 8 de maio de 2020 em 13:49
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    Uma boa companhia para este texto é o documentário “Spirits in the Forest”, de Anton Corbijn (o mesmo cara do filme sobre Ian Curtis, do Joy Division). O foco do doc não é tanto a Depeche Mode, mas seis fãs de lugares muito distintos (inclui um brasileiro que vive em Berlim). Destaque para o colombiano que atraiu atenção com suas versões de música do DM com baixa tecnologia e a participação da filha e do filho. Confiram como ficou “Enjoy the Silence”: https://www.youtube.com/watch?v=a6J1fFpN3S0. O filme de Corbijn é parte da programação atual do Canal BIS.

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