Vanguart – Entrevista

 

Se há um grupo no cenário musical brasileiro que pode reivindicar Bob Dylan como influência, este é o Vanguart. Formado em 2002 na improvável Cuiabá, a banda liderada por Helio Flanders mantém uma carreira respeitabilíssima, especialmente se levarmos em conta a dificuldade de manter-se relevante e atuante num cenário que não trata seus artistas independentes com dignidade. Sendo assim, a banda lança agora – está disponível a partir de hoje nas plataformas digitais – o seu tributo ao mestre: “Vanguart Sings Bob Dylan”.

 

O álbum traz 16 faixas – você lê a resenha aqui – e mostra um grupo dedicado a reverenciar seu ídolo sem abrir mão de suas possibilidades. Não há emulações dos originais, mas revisões, releituras e isso faz a graça do álbum.

 

Conversei com Fernanda Kostchak (violinos), Reginaldo Lincoln (baixo, voz) e Hélio Flanders (voz, violão, guitarra) sobre o lançamento, a carreira de Dylan, preferências e a coragem de evocar um artista tão importante e vinculado à contestação num tempo obscuro como o atual.

 

– Como surgiu a ideia de fazer um tributo ao Dylan?

Reginaldo Lincoln: A gente sempre tocou Bob Dylan ao longo dos anos, a gente já fez shows em homenagem a ele, ele sempre influenciou a gente, principalmente no começo. Nós fizemos um programa de TV ano passado, no Canal Bis, tocando Bob Dylan e a gente recebeu um convite da nossa gravadora (Deck). O nosso produtor, Rafael Ramos, viu e disse: cara, a gente tem que gravar esse disco, tá pronto. Vai ser muito importante fazer isso, como homenagem, como forma de reapresentar o Dylan pra uma geração nova. Muito importante isso.

 

– Qual o critério que vocês tiveram para escolher as canções?

Reginaldo Lincoln: O critério foi pegar algumas canções que a gente já tocava nos shows, além de algumas queridinhas que, mesmo que não fossem hits, algumas eram muito emblemáticas pra gente, até para definir o Dylan como influência dentro do Vanguart mesmo. A gente pegou algumas canções depois como forma de pesquisa e gravou algumas coisas não tão conhecidas, mas que faziam sentido dentro do álbum. Foi um processo abrangente, desde as canções famosas do Dylan, que, inclusive algumas ficaram de fora, até coisas bem desconhecidas, que a gente gosta muito, mas o importante era que fizessem sentido dentro do álbum.

 

– Dado o momento atual do país, reavivar canções como “Blowin’ In The Wind” e “Like A Rolling Stone” é necessário. Vocês pensaram nesta questão, a de homenagear um artista com forte carga de contestação em sua obra e o nosso momento atual?

Hélio Flanders: A gente não pensou objetivamente nisso, mas quando a gente vai gravar Bob Dylan, nem precisa pensar porque toda essa carga vem naturalmente. O Bob Dylan fala sobre a vida de um modo plural, então ele vai falar sobre a política – inclusive, algo que ele sempre negou – ele dizia que não era um cantor de protesto, mas eu acho que era uma resistência dele em assumir isso, porque ele mais que isso. Ele cantou sobre os males modernos de ser humano no século 20. Quando a gente vai cantar Dylan, é inevitável pensar em política, parece que “Blowin In The Wind” foi escrita semana passada, sobre o Brasil, sobre a Rússia, sobre Trump, Bolsonaro, poderia caber em qualquer um. Mesmo que não seja consciente, quando a gente tá cantando sobre Dylan, a gente tá cantando sobre isso e concorda com absolutamente tudo que ele diz.

 

 

– O som a banda se modificou ao longo dos anos, este tributo é uma espécie de retorno a uma origem folk do início de carreira?

Reginaldo Lincoln: O Bob Dylan, de certa maneira, é responsável pela existência do Vanguart. Quando o Hélio começou a banda, sozinho no quarto, com quinze anos, era Bob Dylan que era a referência máxima de tocar violão e gaita, compor e cantar. Eu acho que, de certa maneira, a gente volta a este início, mas também reaviva algumas coisas que o próprio Vanguart já fez em termos de banda. Rearranjos, a inclusão do violino da Fernanda, tudo isso acaba fazendo com que a gente cresça mais e evolua mais. A nossa ideia sempre foi trazer coisas novas, nesse disco tem muita coisa nova, que vai acabar influenciando os próximos trabalhos autorais do Vanguart.

 

– Qual o disco preferido do Dylan pra vocês? Há unanimidade entre a banda?

Reginaldo Lincoln: Eu gosto do “The Freewheelin’ Bob Dylan”. Acho que é um disco super simples, voz e violão, sensacional.

Hélio Flanders: Eu gosto do “Blood On The Tracks” e do “Time Out Of Mind”.

Fernanda Kostchak: Pra mim é o “Desire”, sem dúvida alguma. É um disco muito simbólico, tem “Hurricane”, que é uma música importante, grande, onde o violino aparece como um instrumento principal e não como participação. Isso quebrou muitos paradigmas pro uso do instrumento. Pra mim, sem isso, eu não teria conseguido construir uma linguagem, uma presença na banda, justo porque o violino não soa como instrumento convidado.

 

– O repertório do disco vai trazer 15 canções gravadas originalmente por Dylan até 1975 e depois salta para “Make You Feel My Love”, de 1997. Quando valorizaremos a produção oitentista do Dylan?

Hélio Flanders: Eu gosto dos discos dos anos 1980 do Dylan, especialmente o “Infidels”, mas eu acho que, como esse foi o primeiro álbum, a gente acabou focando nos discos mais clássicos do Dylan, até 1975 e o “Time Out Of Mind” (1997), que tem uma inspiração fora da curva. Eu acho que essas músicas oitentistas do Dylan vão ficar pro “Vanguart Sings Bob Dylan Volume 7” (risos)

 

 

– Ao ouvir as faixas, dá pra notar que vocês não se limitaram a reproduzir os arranjos originais, pelo contrário. Lembrou o que vocês fizeram com “O Mar”, de Dorival Caymmi há alguns anos. Vocês gostam de brincar com esses clássicos “sagrados”?

Reginaldo Lincoln: A gente gosta muito de tocar canções que nos influenciam e de tocá- las da nossa maneira. Até porque a gente não consegue tocar do jeito original, a gente é meio ruim nisso (risos). A gente acaba trazendo uma personalidade, até por conta disso. Algumas canções a gente gosta muito no arranjo original e ele funcionava bem com a gente tocando, então resolvemos deixar ele prevalecer. Em outras a gente foi fazendo um arranjo mais nosso mesmo. Isso é de canção pra canção, a gente tem vários momentos no álbum em que a gente é mais Dylan, noutros é mais Vanguart. Nós nos divertimos muito, foi uma experiência e tanto.

 

– Como você avalia a evolução do grupo em termos musicais? O que vocês ouvem agora que não ouviam antes?

Fernanda Kostchak: Eu acho que não tem fórmula pra isso…Essa coisa de inovação, de ir mais profundo nos lugares que a gente já passeou…A gente mantém a nossa essência, mas vai fazer as coisas de uma maneira diferente, buscando uma profundidade cada vez maior. Eu acho que agora eu ouço mais bandas atuais. Eu tinha uma coisa de olhar para trás, a minha escuta atual tá mais voltada para o nosso momento, independente de gênero, tou ouvindo coisas mais atuais.

Reginaldo Lincoln: A gente sempre foi muito variado mesmo, gostou de muita coisa. Hoje em dia a gente respeita muito mais estilos como o funk, que seriam tidos como “boa música”, mas a gente entende a importância cultural e social que eles têm. E valoriza muito. A gente já até tocou algumas coisas, tenta não julgar o outro de forma errada.

Fernanda Kostchak: E entender a música desses artistas como um reflexo da música atual, quando ela sai desse lugar só de estética, de apreciação, pra ser uma obra com funções múltiplas – social, política – expandindo a maneira de se usufruir da música que é feita hoje.

Hélio Flanders: Há dez anos eu só ouvia The Smiths, Beatles e Tom Waits. Hoje eu só ouço John Lennon, Roy Orbison e Frank Sinatra.

 

 

– Vocês farão o show deste disco, apenas com o repertório dele?

Hélio Flanders: Esse show do Dylan é focado especialmente na palavra dele. As letras traduzidas passam no telão, neste momento isso é muito importante – depois do Prêmio Nobel de Literatura, que ele recebeu – então, é um show focado na trajetória e na palavra. Por mais que as pessoas falem inglês, um show de mais de uma hora fica um pouco cansativo, então as letras passam, você consegue ler a história de “Hurricane” inteira, consegue entender a complexidade de “Tangled Up In Blue”, eu acho que esse show é muito focado na poesia dele.

Reginaldo Lincoln: Mas basicamente focado no repertório do disco, que é o que a gente quer mostrar ao vivo.

 

 

– Qual sua gravação preferida no álbum?

Reginaldo Lincoln: esse disco é muito especial, várias canções importantes e queridinhas, mas eu fico com “You’re A Big Girl Now”, acho que a gente conseguiu imprimir uma dinâmica muito especial.

Fernanda Kostchak: Eu tenho um negócio louco com “Blowin In The Wind” porque a gente pode ver o Vanguart fazendo os vocais de uma maneira próximo do que a gente faz na parte instrumental, muito entregue, orgânica mesmo. Quando começa a tocar a nossa gravação, dá um arrepio assim “Caramba, é nóis!”.

Hélio Flanders: Eu gosto muito de “Simple Twist Of Fate”, acho que a gente conseguiu uma nuance bem bonita, muito delicada, ela vai no chão e volta. Eu acho que as canções mais delicadas são as mais bonitas deste álbum.

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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