“Sob Rock” é John Mayer modelo 1985, no estado.

 

 

John Mayer – Sob Rock

Gênero: Rock

Duração: 38:27 min.
Faixas: 10
Produção: John Mayer e Don Was
Gravadora: Columbia/Sony

4 out of 5 stars (4 / 5)

 

 

Pense que você é o John Mayer. Aos 43 anos, talentoso, rico, bonitão, com uma carreira solidificada em sete discos que variam de legal a ótimo. Nesta altura do campeonato, o que impede você de fazer o que quiser num estúdio? Nada ou quase nada, certo? Dá pra correr um certo risco, dá pra ousar, dá pra brincar e se divertir, né? Então, dito e feito. Mayer, que completa 20 anos de carreira neste ano, lança este ótimo “Sob Rock”, um disco em que brinca nos lagos de sintetizadores dos anos 1980. Em que tangencia trabalhos de gente como Toto, Glenn Frey, Fleetwood Mac em sua versão 1983, ou seja, é um álbum em que Mayer aproveita a recente anuência ao rótulo AOR – Adult Oriented Rock – para lançar um disco em que se entrega a uma estética oitentista que era chamada de mainstream, comercial na época e que, ao longo dos anos 1990 e 2000, envelheceu mal, ficou datada musicalmente mas que, de uns dez anos pra cá, vem sendo revalorizada e revista por artistas alternativos mil. Mayer talvez seja o primeiro integrante da Série A da música mundial a abraçar com açúcar e com afeto essa estética. E se sai muito bem.

 

Como o cara sabe o que faz e tem risco quase zero de produzir um disco ruim, dá pra caprichar bastante nesta empreitada revisionista. Por exemplo, na produção, ao lado do próprio Mayer, está um sobrevivente dos 1980, Don Was. A sonoridade que “Sob Rock” ostenta é fiel ao que era feito então, muito graças à pilotagem sem turbulência que Was proporciona. Além dele, estão presentes alguns titãs daqueles tempos. O tecladista Greg Phillinganes, por exemplo. O percussionista Lenny Castro e o baixista Pino Palladino também estão por aqui. Tudo isso e mais detalhes legais como a própria capa do álbum, que ostenta selo “The Nice Price”, que remete à época de ouro da compra de discos, no boom do CD, além de trazer uma foto de Mayer que, na programação visual e no resultado, lembram um hipotético disco solo de ex-integrante dos Eagles ou algo no gênero. Ou seja, o espírito oitentista está presente, com força.

 

Mas tem aquele detalhe que a gente sempre ressalta por aqui. Não adianta toda essa intenção estética, todo esse trelelê revisionista e toda essa estratégia se não houver boas canções. Neste quesito, doa a quem doer, John Mayer é um discreto ourives. Ele tem, ao longo de seus álbuns, pelo menos, umas duas ou três canções muito boas em cada um deles. Em “Sob Rock”, assim como em outros discos do passado, caso de “Continuum” (2006) ou em “Born And Raised” (2012), a média é bem maior, sem falar que o homem também tem muito jeito para fazer arranjos e elaborar ótimos solos. Ao lado dessa galera mais cascuda no estúdio, tais habilidades foram potencializadas e o resultado é muito bacana, especialmente para quem já vem de longe, como este que vos escreve. É legal ver esses timbres reavivados e reempacotados. O primeiro single, “New Light”, por exemplo, já tem quase 500 milhões de audições no Spotify, e ostenta, orgulhoso, uma levada que é puro soft-rock angeleno de 1983, com teclados lindos (cortesia de Mr Phillinganes) e uma cozinha que lembra uma versão light do Fleetwood Mac de “Mirage”. Em algum ponto do refrão, a bateria emula o tom aberto de caixa que Prince And The Revolution costumavam usar “back in the day”.

 

A primeira faixa, “Last Train Home”, que também foi single já tem quase 20 milhões de streamings, é típica canção que um Eric Clapton da vida faria e lançaria lá por 1984. Aliás, muito do que se ouve em “Sob Rock” poderia estar no subestimadíssimo “August Sun”, que Clapton lançou em 1985, com produção de Phil Collins. Ao longo das faixas do álbum, vamos percebendo que Mayer tem mais canções em midtempo ou um pouco mais aceleradas, mas também tem algumas baladas derramadas. “Shouldn’t Matter But It Does”, por exemplo, é bonita mas meio cansativa. “I Guess I Just Feel Like” é mais interessante, lembrando um misto de Bryan Adams com Don Henley e “All I Want Is To Be With You” tem cara de balada bonjoviniana fase ‘New Jersey”, o que nos leva a concluir que as faixas mais bacanas por aqui são as que pisam fundo no decalque sonoro daqueles tempos. “Carry Me Away”, “Til The Right One Comes” e “Wild Blue”, compõem uma espécie de trinca de ases dessa belezura rediviva.

 

“Sob Rock” é divertido e interessante. Para os velhuscos, é uma eficaz viagem no DeLorean para 1985 e para os novinhos, é o passaporte para um mundo novo, de referências e colorações que se perderam, mas que estão sempre voltando por aí. É uma viagem sem solavancos, quase um passeio num Epcot Center musical. Vá na fé.

 

Ouça primeiro: “Last Train Home”, “New Light”, “Wild Blue”

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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