Vanessa da Mata – Quando Deixamos Nossos Beijos na Esquina

Gênero: MPB, Pop
Duração: 38 min
Faixas: 11
Produção: Vanessa da Mata
Gravadora: Independente

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

Vanessa da Mata é uma das maiores compositoras da música pop nacional da atualidade. Seu estilo é uma bem amarrada fusão da MPB mais clássica, de Gal Costa e Bethânia, com um pop internacional bem feito no estúdio, algo que poderia ser de artistas como Jason Mraz ou o próprio Maroon 5 em início de carreira. São levadas de violão, batidas meio eletrônicas, uma certa leveza nos arranjos, que caem muito bem com as letras e melodias belas e intuitivas que Vanessa compõe como se fosse muito fácil. Além disso, ela é dona de um timbre vocal que oscila entre a dor intensa, a consciência total, a alegria sincera e uma inocência de uma personagem de um romance imaginário. Vanessa é uma espécie de precursora desta safra belíssima de cantoras que temos em atividade no país e está de volta com seu sétimo disco de material original, o ótimo “Quando Deixamos Nossos Beijos na Esquina”.

 

É o primeiro trabalho que ela produz sozinha, algo que fazia antes ao lado de bambas como Liminha. Também é o disco em que ela assina todas as faixas, sem qualquer versão ou cover de alguém, mostrando sua força como autora. As canções são universais, ainda que muito brasileiras e identificadas com uma imagem ideal do país, porém, enquanto em artistas similares – como Tribalistas, por exemplo – esta idealização acaba por colocar em xeque a autenticidade do discurso das letras, com Vanessa tudo perpassa sinceridade e fidelidade a esta imagem que mistura interior e urbanidade contemporânea. É tudo muito sutil, duvido que a cantora tenha parado algum instante para forjar esta identidade de modo pensado e projetado. Desde que surgiu em 2003, com o irresistível samba “Não Me Deixe Só”, Vanessa vem deixando sua marca. Não é diferente agora.

 

A força de “Quando Deixamos…” está nas canções. Há momentos absolutamente belos como na primeira faixa, a ótima “Só Você e Eu”, na qual seu romantismo peculiar já dá as caras no verso “amor, se for por seu carinho, se for por seus beijinhos, diga ao povo que fico e mudo tudo”, naquele clima de lindeza total. A faixa-título também tem seus momentos dourados, especialmente quando ela canta a memória dos sentimentos, algo que a gente faz às vezes sem nem se dar conta “passei naquela esquina outro dia, você ainda estava lá” e tudo se conecta com um amor maior, latu sensu em “Demais Pra Mim”, que tem um talhe clássico de balada setentista e versos como “do profano ao sagrado, entre Deus e aqui embaixo, paixão além do estado febril, que provocou”.

 

Esta descrição dos sentimentos vai além e adentra outros terrenos. Tem o amor de mãe em “O Mundo Para Felipe”, tem a crítica social elegante em “Nossa Geração”, que aborda todos os tiques e taques dessa gente de 30 e alguns anos em frases do quilate de “faça de conta, meu amor, que tudo pode ser sem medo” ou “se tivermos sorte seremos só eu e você” e o fecho magistral “nossa geração não se beija mais, nossa geração mata o diferente, padroniza flores, frutos e gente”. É coisa de mestra. Ainda tem espaço para a celebração da felicidade, da alegria de viver e de ser mulher, como em “Ajoelha e Reza”, na africaníssima “Tenha Dó de Mim”, com participação de Baco Exú do Blues e na dolente “Dance Um Reggae Comigo”, marcando o flerte constante de Vanessa com o ritmo jamaicano. E o fluente sambinha “Debaixo da Saia Dela”, que parece algo dos anos 1950 redescoberto hoje.

 

Vanessa da Mata é uma representante digna da MPB mais clássica e uma partidária de sua mescla com ritmos do mundo. É uma excelente cantora e segue gravando discos maravilhosos numa carreira sem pontos baixos. Ouça e ame.

 

Ouça primeiro: “Nossa Geração”

 

+2

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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