Soul Rebels – Poetry In Motion

 

 

Gênero: Hip Hop, jazz, R&B
Duração: 44 minutos
Faixas: 12
Produção: Soul Rebels
Gravadora: Mack Avenue/Lab 344

3 out of 5 stars (3 / 5)

 

“Poetry In Motion” não é um disco ruim, pelo contrário. Sua proposta é bem legal: misturar elementos de jazz e R&B clássicos, com as brass bands de Nova Orleans – de onde a banda é – e temperá-los com doses de hip hop. Exceto pela parte da música do sul dos Estados Unidos, a gente já viu muita gente misturando jazz e hip hop com resultados ótimos no passado. Só pra citar uma espécie de trindade desta fusão, Guru, A Tribe Called Quest e Digable Planets, numa raia que ainda tinha Madlib correndo por fora. Pois então, a ideia é velha, ainda que seja legal. E o jazz foi ressuscitado por uma novíssima turma recentemente, de Robert Glasper – que participa aqui – a Thundercat, passando por Kamasi Washington. Então, para que este octeto sobressaia com este disco, é preciso algo sensacional, certo?

 

Pois este não é o caso de “Poetry In Motion”, se estivermos falando de uma música mais séria em termos de valor estético. Mas, se a ideia dos sujeitos for criar apenas canções para levantar a galera num show ou para abastecer playlists descoladas de “influencers”, as doze faixas do disco têm, de modo geral, potencial para bastante coisa.  É bom que se diga, há algumas canções realmente legais por aqui, mas elas são minoria. Há uma certa linearidade na produção – a cargo do grupo – que deixa tudo muito ensolarado e com pinta de apresentação gratuita em algum evento. Este tipo de situação sempre mostra músicos competentes e que dominam seus instrumentos, oferecendo diversidade e entretenimento para suas plateias. Só que o hip hop e o jazz são elementos seríssimos da cultura negra mundial e merecem fusões melhores do que temos neste disco.

 

De cara, dá pra livrar a cara de três faixas, por motivos diferentes. A quarta, “Slide Back” é um groove clássico noventista, que, apesar da letra banal e machista consegue vencer na avaliação final. Tem fluidez e dinâmica, funcionando muito bem. “Rebellious Destroyer” tem participação de Brandford Marsalis e uma pinta de faixa de um dos álbuns “Jazzmatazz” que Guru gravou nos anos 1990. A outra é “Blush Intro/Blush”, com participação de Robert Glasper e seu toque cool de jazz esparso e moderno, perfeitamente equilibrado entre os extremos da mistura proposta.

 

O resto do disco tenta mas não chega lá. Tem canções que são totalmente dispensáveis, como “Sabor Latino”, que tem participação de Trombone Shorty e pouco avança além da “santeria pra turista”, numa levada protocolar e entediante, daquelas que te constrangem a acompanhar porque tá todo mundo acompanhando. “Good Time” parece uma canção de meados dos anos 2000 do Black Eyed Peas, com uma levada irritante, vocais sobrepostos de forma pouco criativa e timbre de batida bastante datado. Outro constrangimento é a dançante “It’s Up To You”, outro desses convites à dança, que, apesar de ter a boa participação da cantora Kes, mais parece uma canção de abertura de Copa do Mundo, outra que investe no constrangimento ao sacolejo mais genérico.

 

Quando você vir algo sobre este disco, dizendo que ele mescla influências de músicos “que tocam muito”, que ele mistura as influências do jazz tradicional com a modernidade do hip hop, por favor, leia um pouco mais para não ser enganado completamente. Este disco daria um bom EP.

Ouça primeiro: “Slide Back”

 

0

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *