Uma Nação Estressada

 

 

Eu ainda não conhecia o Dr. Sanjay Gupta. Ele é um neurocirurgião americano de ascendência hindu e repórter médico da CNN. Lá nos States, Gupta é uma espécie de Dr. Drauzio Varela, mais jovem e mais moderno, que aparece nas atrações da rede de notícias e faz reportagens e coberturas médicas ao redor do mundo. Ele é o produtor e o responsável por um documentário instigante/preocupante sobre a pós-modernidade, fundado no seguinte paradoxo: se os Estados Unidos são o país mais rico do mundo, como é possível que suas taxas de mortalidade estejam em alta? E por conta do que é entendido por “morte por desespero”? “Uma Nação Estressada”, com o título em inglês “One Nation Under Stress” fala disso e está disponível na HBO e no Amazon Prime.

 

Gupta parte de investigação a partir do número de mortes por overdose em anagésicos e drogas letais, bem como por cirrose hepática, complicações decorrentes da obesidade e suicídios, chegando à conclusão de que o americano branco médio está morrendo de stress. Pressionado pela dificuldade em obter emprego/mantê-lo, bem como sustentar família e lidar com a queda crescente do padrão de vida, este tipo está sofrendo num nível que caminha rapidamente para encontrar os números que os afro-americanos ostentam há tempos. A conclusão é simples: o sonho americano não existe mais e a geração que iria herdar a Terra passou longe disso, passando a sofrer em proporções alarmantes, os efeitos da má distribuição de renda e oportunidades.

 

“Uma Nação Estressada” até que faz bonito para um filme americano sobre os Estados Unidos. Ainda que não utilize a palavra “desigualdade”, não deixa de criticar com severidade os efeitos do neoliberalismo. A extinção gradativa das políticas de assistência do estado e a perda dos direitos trabalhistas – e dos empregos – atirou o americano médio no abismo que só existia nos países mais pobres. Sendo assim, o que uma família do interior do estado de Michigan passa com o desemprego e a falta de oportunidade, é quase equivalente ao que passa uma família brasileira, argentina, sendo que as políticas de sustentação de direitos nestes lugares agora passam pelo ataque empreendido pelo capital transnacional – do qual os Estados Unidos – são o grande chefe.

 

O documentário leva Gupta a falar com pacientes dos mais diferentes tipos, bem como dá voz a especialistas de várias áreas, ouvindo de biólogos a economistas. O espectro de informações é bem diverso e abrangente, mostrando o quanto o stress nasce como um mecanismo de sobrevivência decorrente da percepção do perigo, bem como aponta os danos que ele pode causar se não for interrompido rapidamente. É como se estivéssemos fugindo de um leão por 24 horas diárias e sem chance de extravasar. Gupta também coloca em xeque a posição da indústria farmacêutica e de seus colega médicos, responsáveis pelo acesso fácil e rápido a um mundo de analgésicos e ansiolíticos fáceis, ao alcance de uma receita forjada. É tudo muito sincero e alarmante.

 

Durante setenta minutos, o espectador estará diante de uma série de situações extremamente familiares, que são sintomas sérios da necessidade urgente de mudar o sistema econômico que norteia as relações humanas e aprofunda a desigualdade imensa entre nós. Ainda que “Uma Nação Estressada” não ataque o capitalismo, ele ataca a competitividade vazia dos nossos dias e sentencia que o ser humano é mais forte e vive melhor quando está em grupo, vivendo em comunidade. Não deveria ser novidade, mas, em tempos como os atuais, é quase uma informação novíssima. Veja o filme e … fique estressado.

 

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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