Pinegrove – Marigold

 

 

 

Gênero: Rock alternativo
Duração: 37 minutos
Faixas: 11
Produção: Evan Stephens Hall e Sam Skinner
Gravadora: Rough Trade

4 out of 5 stars (4 / 5)

 

Em certos momentos, a gente só quer descansar das novidades, certo? Não dá pra viver apenas atrás do novo, novíssimo, é necessário algo que nos dê a sensação de estar em casa ou a caminho dela. É isso que a música do Pinegrove, um grupo de New Jersey, fez comigo. É como se estivéssemos ouvindo algo feito em 1995, por gente como Gin Blossoms ou Jayhawks, ou melhor, por um pouco de ambos. De um lado a belezura do alt-country em seus minutos iniciais, de outro, um folk rock bem pensado e composto, com acento pop em quantidade suficiente para arranhar as paradas de sucesso. E como um fecho para tudo isso, a ideia de uma América perdida, deixada de lado em busca de uma modernidade que não era a que tínhamos em mente. Está tudo aqui, embrulhado para presente neste “Marigold”.

 

É disco para se pegar e deixar-se pegar no colo. As melodias não abrem mão dos refrãos, das linhas melódicas e dos arranjos que contemplam baixo, bateria, guitarra e pianos. É como se os sujeitos ignorassem tudo o que foi feito de eletrônica na face da Terra e dependessem de suas habilidades nos instrumentos para estabelecer a comunicação com o ouvinte. Tem muito de simplicidade e propósito estético nesta escolha, que pode encantar os fãs ranhetas da “verdadeira música”, mas não é o nosso caso. O que está em jogo – e encanta – é a habilidade do vocalista Evan Stephens Hall em emular este clima de cidade pequena da Costa Leste americana, onde o sonho americano deu certo e, por milagre, todo mundo é amigo e vê o sol se por junto. É utopia, pelo menos aos meus ouvidos, mas voltar pra casa – a casa ideal – a esta altura do campeonato da vida também é.

 

São onze faixas, uma delas é uma vinheta, que te posicionam a meio caminho da trilha de “Gilmore Girls” e daquele clipe obscuro que passava na madrugada da MTV. “The Alarmist”, a terceira faixa do álbum, é um amor de guitarras e pianos, com o molho de dedilhados de banjo e coisas no gênero, sem medo de soar datado e abraçando a pradaria da sua mente. É espantoso como tudo por aqui é melódico sem ser monótono, gentil sem ser meloso, esperto sem ser forçado. Parece que os sujeitos se enterraram numa cápsula do tempo há 25 anos e foram resgatados ontem, já entrando no estúdio.

 

Claro que cada um tem o seu referencial de “comfort music” e ele está muito relacionado com as experiências pessoais. No meu caso, a década de 1990 é um destino manifesto, uma vez que lá era um tempo de maturidade iniciando, responsabilidades chegando, amores se concretizando e daqueles momentos de olhar pra dentro de si mesmo e tentar entender o que se ouvia do coração. Você talvez tenha um momento diferente, um destino destinto, algo que te relembre de tempos idos, com outra trilha sonora. A sensação que varre o peito aqui é de relembrança ao ouvir coisas como “Moment”, “Hairpin” e especialmente “Phase”, que soa quase como um milagre de levada aerodinâmica sem abrir mão do sentimento e da profundidade. É como se Ryan Adams, Jeff Tweedy, o pessoal do Son Volt e tantas outras pessoas legais, as quais ouvimos lá atrás, voltassem e dessem um “ok” para Evan e seu Pinegrove. Ouçam.

 

Ouça primeiro: “Phase”

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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