Homeland acabou. E agora?

 

 

 

Após oito temporadas, chega ao fim uma das mais interessantes séries sobre a luta contra o terrorismo. “Homeland”, que traz a saga da agente da CIA, Carrie Mathison (Claire Danes) e sua turma, teve direito a uma última e apoteótica leva de episódios eletrizantes, expondo todas as possibilidades da personagem, uma espiã americana bipolar e extremamente dedicada à defesa do seu país. Claro, temos que dar o desconto para os momentos em que a série teve momentos de “patriotada”, especialmente em se tratando de como os Estados Unidos justificaram sua presença ostensiva no Oriente Médio, a partir dos atentados de 11 de setembro de 2001. Mas “Homeland” encerra sua história como sua personagem principal: alternando momentos em que questionou a postura política do país em relação à ocupação, ao tempo, ao dinheiro e, sobretudo, às vidas desperdiçadas por lá.

 

Se você nunca viu um único episódio, é necessário ter paciência e tempo para “investir”, porque as diferentes temporadas são complexas, cada uma a seu jeito, e mostram arcos narrativos longos, com várias nuances dos personagens exploradas ao máximo. Carrie Mathison, a protagonista, é problemática e, como já dissemos, bipolar. Precisa de medicação constante, sob pena de, literalmente, perder a noção. Além disso, a moça tem uma obstinação poucas vezes vista em personagens desta natureza. Ao lado dela, como um misto de pai, guru e mentor, está o ex-diretor da CIA, Saul Berenson (Mandy Patinkin), que confia cegamente na personalidade de Carrie – ainda que isso signifique risco constante para ele e para todos os envolvidos. As primeiras temporadas têm como foco a volta de um sargento americano que fora feito prisioneiro pela Al-Qaeda e todas as investigações que se sucedem para saber de ele desertou durante o processo, tornando-se um espião inimigo. O sargento, Nicholas Brody (Damian Lewis), passa por poucas e boas no processo de investigação e a opção por não dar spoilers neste texto me impede de dizer mais.

 

O fato é que Brody é apenas um dos personagens que cruzam o caminho de Carrie ao longo da série. Temos o analista de eletrônica, Max Pienkowski(Maury Sterling), o espião americano Peter Quinn (Rupert Friend), vários presidentes americanos, juízes, além, claro, de líderes árabes de diversas nacionalidades, uma vez que Carrie transita facilmente por lugares como Paquistão, Afeganistão, Iraque, Irã, sempre numa defesa ambígua dos interesses americanos, mas sem perder de vista certo respeito pelas tradições locais e características dos povos que visita. Se a série tem uma tendência para justificar a ação americana na região como uma medida natural da política externa pós-11/9, não dá pra não dizer que “Homeland” não foi optando, gradativamente, por uma postura menos, digamos, beligerante.

 

As temporadas mais recentes deslocaram o foco para cenários como a Europa e a própria Terra do Tio Sam, com traições, infiltrações e tudo mais. Situações surgiram em que houve a entrada de autoridades locais e agentes renegados, especialmente na tentativa de entender processo de manipulação de dados em redes sociais. Estes fatores mostraram que havia interesses de inimigos mais históricos dos americanos, caso da Rússia, que passa a ganhar protagonismo à medida que a história vai avançando, até fornecer um excelente contraponto, personificado por Yevgeny Gromov (Costa Ronin), um coronel da inteligência russa, que age debaixo dos narizes americanos, se valendo do uso de manipulação de dados, notícias e imprensa, mostrando que a série esteve atenta ao surgimento de novas modalidades de terrorismo, caso específico das fake news. Tal presença desta e outras novidades operacionais do terror, fazem com que os personagens de “Homeland” se vejam quase impotentes diante de ações tão rápidas e devastadoras, que custam vidas e mandatos de governantes.

 

A última temporada é uma espécie de apoteose. Tem história que começa no Afeganistão, vai para o Paquistão (países que já foram cenários em temporadas anteriores) e se muda para o coração dos Estados Unidos, com um desfecho que surpreende até o mais dedicado fã de Carrie Mathison. O último episódio tem participação do saxofonista Kamasi Washington, cujo show é assistido por Carrie, desde o início, fã de jazz. Ao longo das oito temporadas, ela vive de tudo, chegando a colocar em jogo a guarda da própria filha, sem falar no leque enorme de nuances, detalhes e dimensões que Claire Danes foi moldando na personagem ao longo dos anos, num trabalho que tem brilho intenso nos momentos finais da série.

 

A própria Carrie, beligerante, complicada, estranha, pode ser uma metáfora para a própria ação política americana no âmbito externo. Não importa, “Homeland” é para ser vista com atenção aos personagens, especialmente Saul e a própria Carrie, que oferecem momentos sensacionais. Uma beleza que chega a um fim pra lá de digno.

 

As temporadas de “Homeland” podem ser vistas na HBO e na Globoplay.

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

One thought on “Homeland acabou. E agora?

  • 28 de julho de 2020 em 10:45
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    Até voltei assistir. MT bom.
    Ah, agora também dá pra assistir na PrimeVideo da Amazon.

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