Travis – 10 Songs

 

 

Gênero: Rock alternativo

Duração: 37 min.
Faixas: 10
Produção: Fran Healy
Gravadora: BMG

4 out of 5 stars (4 / 5)

 

Não parece mas este já é o nono disco dos escoceses do Travis. E também não parece, mas o quarteto é contemporâneo de bandas enormes, como Coldplay e Muse, que surgiram no mesmo mundo pós-OK Computer e, a partir dele, desenvolveram suas abordagens do rock inglês no fim do milênio passado. Enquanto o Travis manteve sua fidelidade às melodias introspectivas e apaixonadas, seus outrora pares mudaram de rumo, deixando de lado as origens. Tudo bem, nada errado em singrar novos mares, mas é legal quando a gente se depara com algum artista fiel aos mesmos elementos que motivaram sua própria existência, especialmente neste nosso mundo fugidio. E olhando a discografia do Travis não se encontra nenhum trabalho fraco, pelo contrário: são discos coesos, belos, bem pensados e capitaneados pela poesia e canto de Fran Healy, o cantor e líder do grupo. Com Healy morando em Los Angeles há algum tempo, era de se esperar um álbum um tanto diferente, mas as poucas alterações estão nas sutilezas e belezuras insinuadas aqui e ali. “10 Songs” é um trabalho delicado e belo. Vejamos.

 

Com Healy assumindo a produção e dando as cartas criativas, como de costume, o Travis veleja por águas conhecidas e mapeadas. São dez canções de têmpera folk rock, com muitos violões, guitarras e arranjos de cordas que o próprio Healy escreveu, conferindo o tom inequívoco de melancolia, marca registrada do grupo desde sempre. Tudo aqui é absolutamente familiar, não há qualquer intenção de mudar os parâmetros de operação criativa do Travis e isso é bom, especialmente com um artista que tem nesta constância um de seus traços. Seria meio constrangedor um álbum pop ou com beats africanos pós-futuristas. Sendo assim, temos baladas e rocks em teor light, com influência beatlemaníaca aqui e ali, pontuados pelo ótimo vocal de Healy e pela massa sonora que Neil Primose, Dougie Payne e Andy Dunlop fornecem com competência habitual.

 

Os tais detalhes que conferem a “10 Songs” sua distinção são sutis, porém marcantes. A presença de Susanna Hoffs, ex-Bangles, na bela “The Only Thing” é um deles. Eternamente jovem e sensacional, ela adiciona beleza à canção e sua participação joga um novo tom de luminosidade no trabalho do Travis. Alguns flertes com o soft rock setentista também são detectados e muito bem vindos. O maior exemplo está na melhor canção do álbum, “Butterflies”, que é uma pequena jóia de arranjos vocais e belos violões, com jeitão de balada radiofônica dos anos 1970, numa insuspeitada incursão do grupo por este terreno, algo que, sim, é novidade. E há também uma ótima incursão por um terreno que o grupo não visita há tempos: o rock mais enguitarrado, lá do início da carreira, algo que vem com força na ótima “Valentine”, que tem parentesco com sucessos antigos, especialmente com “All I Wanna Do Is Rock” e toda aquela atitude britpopper decadente de 1998.

 

De resto, temos o desfile de canções dentro dos padrões Travis. Tem o piano distinto e belo da faixa de abertura, “Waving at the Window”, a melodia linear e bem feita de “A Million Hearts”, a canção semi-country levada ao violão que é “A Ghost” e aquelas faixas lentas, tristes, como “All Fall Down” ou “Kissing in the Wind”, esta última devidamente abençoada por um belo arranjo de cordas que a distingue. Fechando o álbum, duas outras baladas ao piano, “Nina’s Song” e “No Love Lost”, que têm aquele parentesco distante com algo que um Paul McCartney faria hoje se fosse um quase cinquentão.

 

“10 Songs” é um disco que mantém o Travis em seu rumo, sem alarde, sem clipes e aparições bombásticas, mas praticando sua música como sempre. E já se vão mais de 30 anos desde que eles estão por aqui. Vale.

 

Ouça primeiro: “Butterflies”

 

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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