DestacãoMúsicaResenhas

A tameimpalização definitiva do Pond

 

 

 

 

Pond – Terrestrials
38′, 10 faixas
(Mangovision)

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

 

 

 

 

Quando o Pond surgiu, a história da banda parecia fadada a girar sempre em torno de um único nome: Tame Impala. Eles eram vistos como os “primos psicodélicos” de Kevin Parker (que até já fez parte da banda no passado), conhecidos pelo exagero, pelo uso excessivo de distorção e por músicas que pareciam às vezes grandes demais. No entanto, com o lançamento de “Terrestrials”, Nick Albrooks e sua turma completam uma evolução que podemos chamar, sem receio, de uma “tameimpalização” positiva. Assim como aconteceu com o projeto de Parker, o Pond deixou para trás a psicodelia dos primeiros anos em favor de um objetivo pop mais direto, melódico e, surpreendentemente, muito mais relevante.

 

Esse movimento — a transição de um som complexo e cheio de camadas para uma estrutura pop mais clara — não é algo inédito no rock. Nos anos 1980, veteranos do rock progressivo, como Genesis, Moody Blues e Yes, fizeram trajetórias parecidas ao adotar sintetizadores e formatos mais curtos, prontos para o rádio. Mas a comparação mais certeira para o Pond de hoje é com o Rush do período entre 1982 e 1984. Assim como o trio canadense fez em álbuns como “Signals” e “Grace Under Pressure”, o Pond trocou o excesso de virtuosismo por texturas eletrônicas e arranjos mais enxutos. Longe de tornar a música pobre, essa escolha aumentou o impacto emocional das canções, provando que é possível ser sofisticado sem abrir mão da acessibilidade.

 

O que torna “Terrestrials” um disco tão interessante é a coragem de assumir certas restrições. Ao criar regras próprias, como “sem fuzz, sem baladas e sem Pink Floyd”, a banda não só saiu da zona de conforto, como abandonou seus velhos vícios de composição. O resultado é um disco onde a técnica serve para valorizar a canção, e não para esconder a falta dela. Fica claro que a verdadeira sofisticação não está na quantidade de instrumentos e sim na precisão da mensagem. Bebendo também da fonte do pós-punk e da new wave dos anos 80, o álbum olha para este outro lado daquele início de década, assim como os mesmos progressivos e psicodélicos mencionados acima fizeram. As influências de nomes conterrâneos, como The Church e Midnight Oil, aparecem de forma natural. Faixas como o single “Terrestrials” e “Through The Heather” mostram bem esse novo foco: há ganchos e refrões certeiros que, há uma década, o Pond provavelmente teria escondido sob camadas desnecessárias de barulho e distorção. A curiosa faixa “Casuarina”, por exemplo, é puro Rush fase “Signals”, com guitarras cortantes e levada pop-rock perfeitinha. O single “Two Hands” e a ótima “Tourmaline” parecem canções do Midnight Oil inicial, antes da fama mundial.

 

Em “Terrestrials”, o Pond mergulha na realidade da Austrália com um senso de urgência que o grupo nunca tinha mostrado tão claramente. A faixa que abre o álbum, “Skyworks”, é o exemplo perfeito dessa fase mais madura: ela discute as contradições do “Australia Day” e as marcas profundas da colonização, sem cair na armadilha de discursos prontos. É um lembrete importante sobre um passado marcado por disputas de terra e pela violência contra os povos originários — que, mesmo hoje, travam uma luta diária para que sua cultura não seja engolida pela predominância branca. Dizer que o Pond se “tameimpalizou” não é apagar o que a banda é, mas sim reconhecer que eles atingiram um novo nível como compositores. O grupo provou que sabe fazer a transição do caos psicodélico para um pop inteligente, mostrando que amadurecer é, acima de tudo, aprender a refinar as ideias sem perder a essência.

 

O Pond de 2026 deixou para trás a fase de ser apenas uma banda que “viaja” no som; hoje, eles sabem exatamente como transmitir mensagens importantes. “Terrestrials” surge como o manifesto de um grupo que entendeu que o futuro da psicodelia está em usar a criatividade para transformar barulho em música que tenha peso e significado para o mundo onde vivemos. Bravo.

 

Ouça primeiro: “Casuarina”, “Through The Heather”, “Two Hands”, “Terrestrials”,”Tourmaline”

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *