Live Paralamas no CCBB-RJ

 

 

Em tempos de instabilidade econômica, investimento certo é apostar na lindeza de um show dos Paralamas do Sucesso. É algo praticamente garantido. Banda coesa tocando por telepatia, músicos excelentes, clima de amizade, profissionalismo e, além disso tudo, o melhor repertório do rock nacional, construído ao longo de quase 40 anos de carreira com pouquíssimos erros. Por essas e outras, o Banco do Brasil convidou o grupo para uma live no CCBB do Rio de Janeiro, a fim de ressaltar seus 212 anos de existência e os 31 anos de investimentos na cultura nacional feitos pela instituição. Sendo assim, no salão principal, situado na Rua Primeiro de Março, Centro do Rio, pontualmente às 20h, os Paralamas iniciaram sua apresentação. E, claro, mandaram bem.

 

É importante dizer que o desempenho da banda não foi melhor que o da sua outra live, Paralamas Clássicos, transmitida em 29 de agosto. Vindos de um show em Brasília, realizado num drive-in, justo na véspera, os Paralamas, talvez por estarem enferrujados em tempos de pandemia, acusaram o desgaste. Algumas desafinadas, alguns andamentos em velocidade fora do prumo mas, confesso, prefiro pensar nessas imperfeições como aqueles traços que o artista dá à obra e ninguém pode mexer. É como se fosse a mão da condição humana temperando o potencialmente perfeito. Em tempos nos quais a tecnologia pode corrigir e depurar indiscriminadamente, um show em que a voz de Herbert não desafine, não é um show dos Paralamas. E ponto final.

 

O repertório é enorme e a banda não economiza. Foram 34 canções de praticamente todos os álbuns da carreira. Apenas “Severino” não teve nenhuma faixa executada, o que é uma pena, pois “Dos Margaritas” faz bonito quando tocada ao vivo. E outro detalhe é a exclusão de “Uns Dias”, uma das canções mais bacanas e complexas do grupo, que novamente foi escanteada. Em compensação, o abraço ao passado é gentil e caloroso, com a quase totalidade de “O Passo do Lui” sendo executada com amor e coração, além de clássicos imorredouros, covers, versões, rearranjos e belezuras mil.

 

Em um lugar tão especial como o CCBB-RJ, a banda ainda teve o carinho de inserir a mitológica “Vovó Ondina é gente fina” no repertório, com explicação dada pelo baixista Bi:

– Minha avó tinha um apartamento em Copacabana no qual ensaiávamos. A gente ia pra lá e tocava num quarto. E ela era funcionária do Banco do Brasil. Pelo menos uma vez por semana, nós vínhamos a este prédio – onde funcionava uma agência do BB – para que ela tirasse o extrato da conta. Naquele tempo não tinha computador, internet, nada disso, tinha que ir ao banco pra ver o saldo e tudo mais. A conta dela era aqui.

 

Se isso não é amor e memória na música, o que mais poderia ser? Mais um show com a marca da melhor banda brasileira em atividade desde 1983.

 

Setlist

Vulcão Dub
Cinema Mudo
Patrulha Noturna
Fui Eu
Ska
Lourinha Bombril
Vovó Ondina é Gente Fina
Vital e sua Moto
Ela Disse Adeus
Sinais do Sim
O Calibre
Selvagem
Mensagem de Amor
Caleidoscópio
Cuide Bem do seu Amor
Busca Vida
Me Liga
Aonde Quer que Eu Vá
Lanterna dos Afogados
Trac-Trac
Será que Vai Chover?
Assaltaram a Gramática
O Beco
A Novidade
Melô do Marinheiro
Você / Gostava Tanto de Você
Perplexo
Alagados
Uma Brasileira
Óculos
O Passo do Lui
Romance Ideal
Tendo a Lua
Meu Erro

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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