Transamazônica – uma história do passado presente

 

 

Está no ar na HBO Mundi a série “Transamazônica – uma estada para o passado”, co-produzida pela Ocean Films e pelo canal americano. O primeiro dos seis episódios foi ao ar na última sexta-feira, dia 11, e já estabeleceu um parâmetro altíssimo para todo e qualquer documentário televisivo sobre o país e suas … mazelas. Com a direção de Jorge Bodanski e Fabiano Maciel, “Transamazônica…” tem apuro técnico, roteiro humano e ágil, além de uma montagem que, ao mesmo tempo, dá ares documentais sem pesar a mão no didatismo. O entrelace entre material obtido especialmente para a produção com imagens e filmes de arquivo leva o espectador num constante deslocamento através do tempo, mas com a sensação terrível de que nada mudou.

 

A narrativa do primeiro episódio tem início onde começa a estrada, em Cabedelo, litoral da Paraíba. E a partir daí, tal qual um “road doc”, vai percorrendo o caminho ao lado de passantes e ocupantes das regiões que o margeiam. Enquanto faz esse trajeto, o roteiro vai inserindo as peças de propaganda do governo federal da época – 1972, ano da construção dos primeiros trechos – e sua aura nacionalista, sem falar nas alegações de desenvolvimento, progresso, integração e todo tipo de ufanismo sobre uma hipotética invasão estrangeira na Amazônia, o que justificaria a “integração nacional”. Em alguns momentos, a propaganda até fala em ver a estrada chegando do Oceano Pacífico. Muitas dessas peças trazem imagens do próprio presidente emílio médici, chegando a povoados remotos, cortando fitas de inauguração e participando de solenidades em meio a várias pessoas com miniaturas da bandeira do Brasil.

 

Um dos grandes feitos do primeiro episódio é, através da presença de Jorge Bodanski, fazer esse movimento de volta ao passado. Ele recorda de quando esteve na região há cerca de cinquenta anos, rodando a produção “Uma Transa Amazônica”, que tinha Paulo César Pereio no elenco e falava de prostituição na beira da estrada. As imagens de algumas cenas do longa mostram, sem qualquer espanto ou constrangimento, vários trechos da floresta em chamas ou sendo devastados, como parte das ações de ocupação e construção da via. E, logo em seguida, entra a propaganda estatal dizendo que tudo aquilo é absolutamente necessário para o desenvolvimento do país, que nos levará ao futuro, onde o Brasil será “um bom lugar para se viver”.

 

Mas é no fator humano que está o mérito maior deste primeiro episódio e, provavelmente, do restante da série. As histórias de quem vive onde a estrada passa, as narrativas de como sua chegada modificou as vidas das cidades – ou não – e como a religiosidade, a fé e determinação das populações – e não o governo ou o tal progresso alardeado – proporcionaram a sua própria sobrevivência.

 

Imagem marcante: uma mãe e seu filho pequeno no colo cruzam à pé a fronteira do Tocantins, passando sob uma placa de diz “Tocantins, o estado da livre iniciativa e da justiça social”.

 

“Transamazônica, uma estrada para o passado” já se mostra necessário e certamente tornará exposta, tal qual a mata devastada, o mau trato que temos para com a floresta e seus povos. Triste, duro, mas real e muito importante.

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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