A rainha da Inglaterra e margaret thatcher em “The Crown”

 

 

The Crown é uma série absolutamente fabulosa, a melhor já produzida pela Netflix, na minha opinião. A quarta temporada está disponível desde o dia 15 de novembro, mostrando a vida família real britânica nos anos 1980. E quando falamos deste período histórico, lembramos de dois fatos: margaret thatcher no poder e a Princesa Diana no Palácio de Buckingham. E ambas são interpretadas com maestria. A ex-primeira ministra, conhecida como “Dama de Ferro”, tem uma impressionante Gillian Anderson para lhe dar vida. A ex-agente Scully, de “Arquivo X”, nunca foi uma atriz muito reconhecida, mas sua versão de thatcher está em pé de igualdade com a aclamada performance de Meryl Streep, que viveu a governante no filme “The Iron Lady”, há alguns anos. E Diana é vivida por Emma Corrin, cuja semelhança física, especialmente nos movimentos e detalhes, é de dar um certo nervoso. Mas é de thatcher que quero falar. Dela e da Rainha Elizabeth II, que tem em Olivia Colman a sua intérprete desde a temporada passada.

 

Sabemos – ou deveríamos saber – que thatcher chegou ao poder na Inglaterra com a missão de “tornar o estado mais eficiente”. Já vimos isso, certo? É o mote tradicional daqueles que chamamos de neoliberais. Eles são adeptos de várias instâncias sociais e econômicas que visam dar prevalência ao individualismo, à livre iniciativa, à competição desenfreada, tudo isso em detrimento das instâncias estatais. Palavras como “meritocracia”, “eficiência”, “reengenharia” e vários termos em inglês são parte de seu glossário. O neoliberalismo foi gestado ao longo dos anos 1970 e colocado em prática por thatcher e por ronald reagan, presidente americano, eleito em 1980, um ano após sua colega inglesa. Juntos os países abraçaram esta visão da sociedade e da economia, iniciando um processo de erosão da presença estatal na economia, o que gerou um redirecionamento de recursos e investimentos, privilegiando vários setores, como bancos, entretenimento, especulação financeira/imobiliária, ação esta que assinou a sentença de morte dos países socialistas, incapazes de competir com este tipo de sistema, justo porque tinham suas economias baseadas na solidariedade estatal.

 

Pois esta é a Inglaterra que emerge da virada da década de 1970/80. Um país em crise financeira, ainda sem saber como viver sem seu império colonial, às voltas com tensões políticas na Irlanda do Norte e com uma sociedade prestes a perder suas instâncias estatais de assistência social, ensino gratuito, saúde gratuita e demais subvenções e auxílios, entre eles até do aleitamento, tudo cortado por thatcher com a alegação de privilegiar os reais empreendedores, os que tinham em si a “força suficiente” para sobreviver às adversidades. Tal visão, extremamente capitalista, soa estranha até para a monarca, Elizabeth II. A rainha, instituição da identidade britânica como Reino Unido, acostumada a tempos em que o sistema não era tão predatório assim, sente-se desconfortável com a alta do desemprego sob thatcher (três milhões para uma população de 46 milhões) e o sofrimento generalizado vigente.

 

Um dos episódios marcantes da quarta temporada – cada uma tem pelo menos um – é “Fagan”, que fala da invasão real de um cidadão comum ao Palácio de Buckingham, em 1982. Michael Fagan, pintor e decorador de interiores desempregado e desesperado, tenta, de todas as formas conseguir ajuda do estado para custear seu período ocioso, sem muito sucesso. Em meio a esta crise, vê seu casamento ruir e perde a guarda parcial dos filhos porque não tem mais como pagar o aluguel. Em meio à situação de desespero e, seguindo um conselho debochado de um parlamentar que não o ajuda, vai falar com a rainha em busca de ajuda. Para isso ele consegue penetrar no Palácio e acaba achando o quarto da soberana, no qual entra e acorda Elizabeth. Assustada a princípio, ela percebe que não está diante de um louco, mas de um homem comum, desesperado. Michael lhe diz:

 

– Você precisa saber o que está acontecendo no seu país. Você não tem ideia do que ela (thatcher) está fazendo conosco.

Elizabeth olha para ele e se dá conta de que o homem não está mentindo, mas está ali em busca de ajuda, conselho, alguma providência. E ele fala:

 

– Temos o direito de ficarmos doentes, de ficarmos desempregados, de nos ajudar. Onde foi parar a solidariedade?

 

Mais tarde, ao conversar com thatcher na reunião semanal entre monarca e primeiro ministro, Elizabeth usa o termo “economia moral” para se referir a esta rede de solidariedade, manifestada pelo estado, que a primeira ministra trabalha para erodir sob o pretexto da eficiência. A governante se irrita e praticamente deixa a rainha falando sozinha.

Pode parecer estranha a pouca afinidade entre as duas mulheres mais poderosas daquela Inglaterra oitentista. É que nos esquecemos sempre que eventos como a Revolução Francesa e a Independência dos Estados Unidos, em 1789 e 1776, respectivamente, foram ocorrências que tiveram sua origem em dois outros fatos: a Revolução Industrial (1750, mais ou menos) e na Revolução Gloriosa (1688). Esta última foi o início do que se entende como Monarquia Constitucional, ou seja, uma modalidade de reinado em que os monarcas não tinham mais poder absoluto, divido com a burguesia crescente, representada por comerciantes, empresários, artesãos, gente da qual a família de thatcher descende. Para estas pessoas, a monarquia sempre foi um peso nas finanças, um desperdício de dinheiro, uma afronta à objetividade do capitalismo. Daí thatcher dizer em certo momento que é uma afronta a quantidade de dinheiro que se gastava naquela Inglaterra com a família real. Não esqueçamos que todos os eventos históricos mencionados aqui foram empreendidos pela burguesia moderada, acima de tudo. Gente como thatcher.

 

Ainda que a produção de “The Crown” tenha adaptado o episódio de Fagan no Palácio, a realidade foi um pouco diferente. O homem admitiu em entrevista recente que apenas adentrou o cômodo e a monarca, assustada, saiu pela porta gritando por ajuda. Sendo assim, a história contada na série tem a mensagem clara e atual dos produtores e roteiristas contra a modalidade vigente do capitalismo, o neoliberalismo, iniciado naquele momento.

 

No Brasil de hoje, temos vários representantes desta forma de pensamento. Eles estão em todos os cantos, na imprensa hegemônica, na política, nas artes, sempre defendendo o individualismo acima de tudo. Sempre indo de encontro às cooperativas, sindicatos, associações e outras formas coletivas de organização que, historicamente, são eficazes contra as situações adversas. Fiquem alertas, a mensagem está no ar.

 

E vejam “The Crown”.

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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