“This Is Us” é irresistível

 

 

Ficamos quase um ano sem ver “This Is Us” aqui em casa. Vários motivos contribuíram para isso, desde a falta de tempo, vontade de ver outras séries e até um certo cansaço em relação à trama da família Pearson. Estávamos na terceira temporada e achávamos que já havíamos visto tudo o que a série poderia oferecer. Mas não. Outro dia retomamos e, já de cara, vimos quatro episódios seguidos, sem planejar qualquer maratona. Agora já adentramos a quarta temporada e devemos chegar ao ponto de esperar novos episódios serem exibidos nos Estados Unidos para continuarmos vendo. O que faz desta série este sucesso tão grande?

 

“This Is Us” coleciona prêmios coletivos e individuais desde que estreou na TV americana em 2016. De lá pra cá, mantém a média de uma temporada anual e já tem contrato fechado para chegar até o sexto ano, em 2022. Diante da volatilidade do mercado mundial, é um feito e tanto. Tramas familiares e hospitalares tendem a fazer a delícia da audiência, mas com “This Is Us” o negócio é diferente. A proposta é ambiciosa já na origem: mostrar o transcorrer das décadas da família Pearson, desde os anos 1970 até os nossos dias. Se posso dar um único spoiler, a ação já se projetará no futuro. E paro por aqui.

 

Se formos apontar um quesito técnico para o sucesso da série, a montagem seria meu preferido. Vários – senão todos – episódios têm histórias paralelas se passando em épocas distintas que se entrecruzam no fim ou que têm vários pontos em comum, explorando coincidências vividas entre mesmos personagens em tempos diferentes: um exemplo bobo é uma cena ocorrendo com “Friday I’m Love”, na versão do Yo La Tengo, de fundo musical desencadear uma lembrança na qual uma das personagens dirige um carro, quase 30 anos antes, tendo o original do The Cure tocando no rádio do carro. Tal habilidade com o manejo do tempo nas narrativas deu à série uma habilidade poucas vezes vista: o drible desconcertante na morte.

 

Ainda que personagens morram ao longo da narrativa, “This Is Us”, em meio às suas histórias paralelas em épocas diferentes, mantém o contato do público com quem já tenha batido as botas, evitando que a gente sinta saudades demasiadas deste ou daquele personagem e fique dependendo de participações especiais e ocasionais. E também não há o batido recurso de alguém que morreu surja em sonhos ou lembranças. Aqui é tudo real, só não acontece, necessariamente, hoje. E a habilidade com que os roteiros vão tecendo as tramas é admirável.

 

O elenco é uma maravilha. Milo Ventimiglia e Mandy Moore são Jack e Rebecca Pierson, casal que dará origem à família. São gente simples, que atravessou os tempos com determinação e amor pelos filhos. Rebecca surge logo no primeiro episódio prestes a dar a luz a trigêmeos. Destes, dois nascem vivos, Kevin e Kate. Diante da frustração da morte da terceira criança, o casal adota um menino negro que nasceu no mesmo dia e chegou no mesmo hospital por conta da ação de bombeiros: Randall. Daí surgem os personagens principais da série, cujas vidas são completamente diferentes, mas que têm nos pais – e na forma distinta como lidam com eles – a explicação de muitos problemas que surgirão ao longo da série. Kevin (Justin Hartley) é um ator bonitão, enquanto Kate (Chrissy Metz) vive às voltas com problemas decorrente de sua obesidade. Randall, por sua vez, é um executivo bem sucedido, vivido pelo excelente Sterling K. Brown.

 

O primeiro episódio é absolutamente perfeito e irresistível, projetado em laboratórios da NASA para fazer o espectador grudar na série de forma irreversível. As canções que estão presentes, trazendo de Sufjan Stevens a obscuridades como Labi Siffre, cujas belíssimas “Death With Dignity” e “Watch Me” se entrelaçam de forma emocionante. Além deles, Stevie Wonder, Blind Faith, Paul Simon, Cat Stevens, Nick Drake, entre muitos outros, estão presentes em vários momentos.

 

Talvez o maior mérito de “This Is Us” seja a capacidade de captar os dramas pertencentes às pessoas que tentam fazer o melhor com suas vidas, sem esquecer que há mais gente vivendo e que estas pessoas merecem respeito e amor. Há idealismo, fraternidade, saudade, morte, vida, fraqueza, sentimentos e tudo o que nos faz humanos, desfilando de forma explícita ao longo dos episódios da série. Pode não ser a melhor produção sobre família para a TV americana, mas é daquelas que turva a memória quando nos obrigamos a lembrar de outra eventualmente melhor.

 

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

Um comentário em ““This Is Us” é irresistível

  • 14 de novembro de 2019 em 13:31
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    Quando assisti pela primeira vez não sabia nada sobre… Logo, o primeiro episódio foi arrebatador!

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