O Ranking do Pearl Jam

 

 

Depois da banda de Seattle anunciar seu novo single, “Dance Of The Clairvoyants” ontem, dia 22 de janeiro, os velhos fãs do Pearl Jam se indignaram. Afinal de contas, o grupo de Eddie Vedder e companhia, se notabilizou por construir uma carreira sólida, calcada numa sonoridade que pouco mudou de 1991 – ano de estreia em disco, com “Ten” – até hoje. Esta característica fez do fã médio da banda um conservador, aquela gente chata que é avessa a mudanças, especialmente estéticas. Pois “Dance…”, o primeiro single do novo álbum, “Gigaton”, é a faixa mais legal e revolucionária que o grupo lança desde seu apogeu, ainda na década de 1990.

 

Quando falamos “apogeu” do Pearl Jam, falamos justamente sobre a consolidação desta sonoridade clássica, calcada no metal/punk e no classic rock setentistas, com muito de The Who, Neil Young, Ramones, MC5 na mistura que caiu nas graças de um monte de gente. Mas uma olhada no passado da banda vai mostrar que eles também têm sua parcela experimental e virulenta, presente em alguns álbuns interessantes. Daí surgiu esta ideia de fazer um ranking com os discos do Pearl Jam, do primeiro ao décimo, levando em conta apenas lançamentos de material inicial, com espaço para um disco ao vivo que represente a infinidade de registros oficiais e extra-oficiais que já foram disponibilizados. Vamos conferir e daí você diz se estas posições estão de acordo, sempre lembrando que a gente vai privilegiar a invenção e a novidade sobre a mesmice, ok? Vamos lá.

 

 

10 – Riot Act (2002) – Este é o trabalho menos inspirado da banda, que vinha na ressaca da virada do milênio, marcada pela tragédia de Roskilde – quando fãs da banda se feriram fatalmente por conta de confusão na apresentação que fizeram no festival dinamarquês. Certamente isso influenciou na feitura do disco, mas ele ainda guarda alguns bons momentos, caso do single “I Am Mine” e de “Love Boat Captain”, mas, de uma maneira geral, o próprio álbum foi eclipsado pela altíssima rotação dos singles “Soldier Of Love” e “Last Kiss”, que saíram também numa coletânea para arrecadar fundos para obras e assistência às vítimas da Guerra no Kosovo.

 

9 – Lightning Bolt (2013) – Este é um trabalho que apenas os fãs da banda ouviram, infelizmente. É um bom álbum, com boas canções, mas que passou batido completamente. Lembro de ouvir – e gostar – de “Mind Your Manners”, barulhenta e nervosa, e ficar bem impressionado com a belezura de “Sirens”, uma linda baladona clássica. De um modo geral, o clima do álbum é lento e contemplativo, mas com alguns bons segredos guardados. Em breve será reouvido.

 

8 – Binaural (2000) – Lembro de ouvir este disco na sede da gravadora Sony em Botafogo, Rio de Janeiro, por conta de seu lançamento. Talvez seja um dos discos mais climáticos da banda, uma espécie de tendência que se repetiria em “Riot Act”, seu sucessor, lançado dois anos depois. Ele é muito diferente de “Yield” e não faz jus à toda capacidade do Pearl Jam em estúdio, apesar de conter bons momentos, especialmente “Nothing As It Seems”, que é uma das tantas baladas psicodélicas que Vedder canta como se a vida fosse acabar em seguida. Outras canções legais estão presentes, caso de “Thin Air”, “Sleight Of Hand” e, especialmente, “Soon Forget”, com Vedder se acompanhando ao ukulele.

 

7 – Backspacer (2009) – Este é um disco pouco ouvido da banda, mas que tem ótimas faixas e mostra um Pearl Jam alegre e disposto no estúdio. Ele é pesadinho, mas menos que o anterior, e contém talvez a última ótima canção composta pelo grupo, “The Fixer”, que tinha tudo para ser um hit nas “rádios rock”, se estas olhassem para o grupo além do que ele fez nos anos 1990. Além dela, “Got Some”, “Johnny Guitar” e a bela balada pop “Speed Of Sound”, representam bem o disco no cânone da banda.

 

6 – Pearl Jam (2006) – Também conhecido como “o disco do abacate”, o álbum homônimo da banda é um exemplo de trabalho sonicamente bem feito, bem composto e barulhento. É um momento em que Vedder e o grupo se mostravam mais descontraídos em público depois do desgaste ocorrido no início dos anos 2000, especialmente pelo ocorrido no Roskilde Festival e pela ultra exposição nas rádios com a dupla de singles/covers beneficentes “Soldier Of Love” e “Last Kiss”, que adentrou a década em altíssima rotação nas rádios. Ao contrário dos álbuns anteriores, “Binaural” e “Riot Act”, este soava muito mais coeso e dinâmico, especialmente pela ótima “World Wide Suicide”, que é uma legítima canção política da banda, a exemplo de tantas outras, como “Do The Evolution”, “Jeremy” e por aí vai.

 

5 – Vs. (1993) – O mais bacana de “Vs.” é o fato dele ser bem diferente da estreia do grupo, ocorrida dois anos antes, com “Ten”. Ainda que tenha sido puxado por um single que poderia estar no disco anterior, “Daughter”, “Vs.” é mais pesado, sujo e experimental. Há algumas boas canções por aqui, caso de “Animal”, Rats”, “Reaviewmirror” e a preferida de estádios, “Elderly Woman Behind The Counter In A Small Town”, na qual o grupo mostra versatilidade nos arranjos e a mesma capacidade de criar climas lentos e cinematográficos insinuada no trabalho anterior. A presença do baterista Dave Abbruzzese dá uma dinâmica diferente às canções, especialmente em “Rats”, na qual ele mostra um virtuosismo técnico inegável, imprimindo uma pegada funky que não foi mais vislumbrada em qualquer outro disco ou canção da banda.

 

 

4 – Vitalogy (1994) – Outro disco estranho e experimental, com um pouco menos de inspiração que “No Code”, mas cheio de surpresas e estranhezas, a começar pelo formato do CD, que simulava um velho manual médico. Como tal, o encarte trazia um monte de figuras e radiografias pitorescas. As canções mostravam a inspiração dos primeiros anos, com belos exemplos que se tornaram favoritas nos shows. A pesada/harmoniosa “Last Exit”, a maníaca “Not For You”, a encrespada “Corduroy” e duas baladonas para os estádios, “Nothingman” e “Immortality”. Por fora ainda corria uma das canções mais celebradas do grupo em todos os tempos: “Better Man”, que foi emendada com “I Wanna Be Your Boyfriend”, dos Ramones, no primeiro show que a banda deu no Rio, em 2005.

 

 

3 – Yield (1998) – Depois de “Ten”, “Yield” é o disco mais popular do grupo. Foi puxado pelo arrasador single “Do The Evolution”, que tinha um clipe antológico, no qual a humanidade e seus feitos eram severamente criticados pela banda. Além dela, o Pearl Jam lançou um monte de canções legais, a começar por “Given To Fly”, que parecia demais com “Going To California”, do Led Zeppelin, sem falar nas maravilhosas “Low Light” e “Faithful”, que tem uma dinâmica que alterna uma levada mais sutil, deixando para ficar mais encardida no refrão. No fim do álbum, uma lindíssima faixa, meio esquecida, chamada “All Those Yesterdays”, que alterna melodia linda e psicodelia soturna, algo muito legal e pouco convencional na lavra criativa da banda.

 

2 – Ten (1991) – A estreia do Pearl Jam é um dos marcos dos anos 1990 e serviu como definição de “grunge” para muita gente. Gosto de pensar que grupos como Soundgarden e Alice In Chains eram mais próximos desta estética, mas o Pearl Jam foi o mais longevo e bem sucedido deles todos. Aqui a fórmula da banda foi executada pela primeira vez, definida por André Forastieri na Bizz como “apache punk metaleiro”, algo que é bastante ilustrativo. A coesão das canções é o grande trunfo de “Ten”, que ostenta porradas como “Even Flow”, “Alive”, “Jeremy”, “Why Go” e “Black”, sem falar em dois singles sensacionais da época, “Yellow Ledbetter” e “State Of Love And Trust”, que entrou na trilha sonora do filme “Singles”, dirigido pelo parceiro da banda, Cameron Crowe.

1 – No Code (1996) – Talvez seja a obra mais experimental da banda. De cara temos Stone Gossard cantando em “Mankind” e uma canção embolada e sensacional, que parece um ensaio de Neil Young, “Smile”. Também tem o contraste de abertura “Sometimes”/”Hail Hail”, silêncio e porrada, além do single “Who You Are”, meio esquecido depois de tanto tempo. Ao longo do disco vamos percebendo que este foi o momento em que Eddie, Stone e cia. pareciam cansados e com vontade de modificar sua sonoridade. Talvez tenha sido um desejo passageiro, mas muito do que foi rascunhado por aqui foi desembocar no disco seguinte, “Yield”, um dos prediletos da galera mais arejada que ouve o grupo desde seus primórdios.

 

Hors Concours – Live At Katowice, 16 de junho de 2000

Esta é uma espécie de unanimidade entre os fãs, como um dos melhores concertos já dados pela banda. A turnê de 2000, a mesma que foi marcada pelo show fatídico em Roskilde, teve ótimas apresentações e foi lançada em CD pela banda de forma integral. Lembro de ver na Modern Sound, no Rio, todos eles à venda em capinhas que simulavam digipaks de papel pardo, sendo que deixei passar este de Katowice – na Polônia – e nunca mais vi.

 

Eis o setlist:

1. Release
2. Of The Girl
3. Slight Of Hand
4. Thin Air
5. Insignificance
6. Grievance
7. Corduroy
8. Animal
9. Hail , Hail
10.State Of Love And Trust
11.Evacuation
12.Daughter
13.Jeremy
14.I Got Shit
15.Light Years
16.Leatherman
17.In Hiding
18.Off He Goes
19.Dissident
20.MFC
21.Habit
22.Alive
23.Encore Break
24.Smile
25.Immortality
26.Black
27.Leaving Here
28.Soldier Of Love
29.Last Exit
30.Soon Forget
31.Yellow Ledbetter

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

One thought on “O Ranking do Pearl Jam

  • 24 de janeiro de 2020 em 01:11
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    Gostei! Adoro o “No Code”!

    0
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