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Nove Luas e Trinta Anos

 

 

Ouvir “9 Luas” em 2026 causa sensações estranhas. Não me entenda mal, o disco continua ótimo, um pequeno tesouro de cor, belezura e talento, mas, lembro-me bem, quando ele veio, o que se dizia era que os “Paralamas abraçam simplicidade em novo álbum”. “Como assim?”, diria eu. As canções que estão enfileiradas ao longo dos quase 38 minutos de “9 Luas” são complexas, muito bem elaboradas, cheias achados melódicos e líricos sensacionais. Ou seja, é um álbum que não é tão simples assim, mas, se comparado com a fase anterior da banda, ele significava uma mudança de curso. Talvez o que foi chamado de “simplicidade” na época, queira dizer, na verdade, “objetividade”, certamente uma virtude. Olhando hoje, trinta inacreditáveis anos depois (o tempo não para de voar), “9 Luas” é o fruto doce de um processo que durou muito mais tempo do que pode parecer. Por mais que novas bandas dominassem as paradas de sucesso daquela década de 1990, os Paralamas mostravam aqui que aindam davam liga e ainda sabiam jogar nos termos do mercado, da execução, de hits. Como disse a resenha meio ríspida da Folha de São Paulo da época, o disco “parece coletânea” tamanho o seu potencial radiofônico. A ideia aqui é mapear esse processo criativo, olhar para as faixas do álbum e entender como ele é um ponto altíssimo na discografia dos Paralamas e do rock nacional. Vamos nessa.

 

O tal processo a que me refiro começou dez anos antes, com “Selvagem?”, o bombástico terceiro trabalho dos Paralamas. Até hoje um disco ímpar na música nacional de seu tempo e, provavelmente, como um todo, “Selvagem?” marcou uma mudança de curso significativa na estética do grupo. Saíram as canções juvenis dos primeiros álbuns e entraram em cena relatos cotidianos mais sérios, de tonalidades diversas. Herbert Vianna, um baita poeta, deixava de lado a vivência Zona Sul em favor de uma persona mais crítica, reflexiva e pensante em termos sociais. Musicalmente o grupo incorporou um amor inédito em sua geração pela música popular brasileira, pelos ritmos caribenhos, pelos tons africanos e pela modernidade black ao redor do mundo. Tal guinada não poderia ser dada sem consequências e “Selvagem?” gerou uma sucessão de álbuns, iniciada com “D”, o relato da turnê empreendida pela banda, feito no Festival de Montreaux, de 1987. Na esteira vieram outros dois álbuns afro-caribenhos, em medidas diferentes, “Bora Bora” (1988) e “Big Bang” (1989), ambos com sua cota de experimentos, criações interessantes, canções sensacionais. Em seguida, na vigência do governo collor de mello, os Paralamas se viram com mais mercado e potencial na América Latina, especialmente na Argentina, para onde foram e se tornaram celebridades.

 

O processo ainda daria mais três frutos: “Os Grãos” (1991), uma obra tensa e triste, em tons claros-escuros; “Ê Batumaré” (1992), o primeiro solo de Herbert Vianna, totalmente experimental, brasileiro e ousado e “Severino” (1994), uma espécie de continuação/aperfeiçoamento de “Batumaré”, com um conceito antropobrasileiro bem firme, adornado por pinturas de Arthur Bispo do Rosário na Capa e canções anticomerciais por natureza. Especialmente entre 1991 e 1994, os Paralamas não viveram uma fase, digamos, comercial. Essas três criações não estavam interessadas em tocar em rádio, fazer sucesso de público de forma genérica, a banda queria ser entendida por sua proposta, ter as questões levantadas nos álbuns discutidas de forma séria, o que, claro, não aconteceu. O Brasil do período era o país da ressaca, do arrependimento, do sertanejo, da lambada e do bloqueio das poupanças, uma verdadeira terra de ninguém. Era mais do que normal que bandas de rock da década anterior sentissem o baque e se pusessem a refletir sobre o que estava acontecendo. Não por acaso, com a chegada do primeiro governo Fernando Henrique e o Plano Real, as coisas começaram a mudar. Mesmo que por pouco tempo.

 

Foi nesse intervalo que os Paralamas deixaram este ciclo experimental para trás e voltaram a fazer essa tal música objetiva a que nos referimos acima. A banda sempre fora versada com fluência nos idiomas do pop, do rock, das ótimas letras. Antes de “9 Luas” chegar, veio uma pequena amostra no ano de 1995. O lançamento de “Vamo Batê Lata”, em abril daquele ano, registro de shows feitos no Palace, em São Paulo, gravados em 17 e 18 de dezembro de 1994, também trazia um EP com quatro faixas inéditas, todas excelentes. “Uma Brasileira”, composição em parceria com Carlinhos Brown e com participação de Djavan, colocou os Paralamas no topo das paradas de sucesso. O clipe entrou em altíssima rotação na MTV e abriu espaço para outras duas faixas desse EP: “Esta Tarde” e “Saber Amar”. A última das canções, “Luis Inácio (300 Picaretas)”, sofreu uma inacreditável censura em tempos democrátiocs, chamando a atenção para a banda e para o conteúdo da letra, na forma de rap meio torto, falando do escândalo do Orçamento da União, com ênfase para a frase de Lula sobre o Congresso Nacional: “trezentos picaretas com anel de doutor”.

 

Essas faixas prepararam o terreno para a chegada do novo álbum de inéditas do grupo, “9 Luas”, alardeado como uma continuidade do espírito mais pop da banda. Apesar dessa afirmação estar, como dissemos, ligada à simplicidade, é fácil perceber que se trata de um juízo feito em comparação à produção anterior, do tal ciclo mais experimental do grupo. De fato, não dá pra comparar faixas como “Varal” (de “Severino”), com “De Música Ligeira”, um dos hits do novo álbum. O que fica evidente, acentuado pela passagem do tempo, é a habilidade impressionante dos Paralamas encarnarem as personas pop e experimental com tanta desenvoltura. “9 Luas” chegou com pinta de vencedor e logo desferiu um chute na porta com “Lourinha Bombril”, seu primeiro hit. Versão do grupo argentino Los Pericos, a canção ganhou um ritmo contagiante, híbrido, reggae-baiano, com letra de Herbert falando sobre a vigente globalização. Ele já abordara o tema de forma brilhante em “Navegar Impreciso”, outra faixa de “Severino”, mas agora o uso de figuras e temas mais simples fazia toda a diferença. Novamente o clipe foi bem sucedido, mantendo a tradição da banda no terreno audiovisual, através da parceria com o diretor Roberto Berliner.

 

Depois de “Lourinha” vieram uma enxurrada de ótimas canções. “De Música Ligeira”, como dissemos acima, foi hit nacional, novamente uma versão de banda argentina, dessa vez para uma composição do Soda Stereo. E ainda havia mais uma releitura, para “Capitão de Indústria”, faixa obscura de Paulo Sérgio e Marcos Valle, que fizera parte da trilha sonora da novela “Selva de Pedra”, de 1972, quando foi interpretada por Djalma Dias. As canções originais mostram um Herbert em ótima fase: “La Bella Luna”, baladinha romântica em ritmo reggae, é uma lindeza. “Outra Beleza”, parceria com Lulu Santos, é uma faixa que traz samba misturado com salsa, com os vocais d'”As Gatas” e uma batucada de fazer inveja a muito disco de samba da época. “Busca Vida”, com coralzinho Beach Boys introduzindo a melodia, é uma adorável balada com violão dedilhado e arranjo solar. “Seja Você” soa como se uma faixa dos tempos de “O Passo do Lui” (1984) fosse refeita e rearranjada doze anos depois. O rock um pouco mais pesado está em “O Caminho Pisado”, ecoando algo de “Selvagem?”, a canção, criticando o cotidiano sofrido e a mesmice dos dias que não mudam. Já em “O Caroço da Cabeça”, parceria com Nando Reis e Marcelo Fromer, então nos Titãs, o arranjo traz guitarras que lembram timbres beatle, com Herbert cantando sobre o cérebro humano, suas vulnerabilidades e contradições.

 

Os timbres de “Sempre Te Quis”, faixa obscura do álbum, mostram a evolução do grupo. Barone, um mestre das baquetas, está a serviço da melodia, mas sem perder sua marca registrada. Bi, um baita baixista subestimado, fornece o piso sólido para as harmonias e dedilhados. Tudo é muito bonito em versos como “Foi por te ver andando reto por tudo que há de incerto em mim”. “Na Nossa Casa” é outro exemplo da maturidade paralâmica àquela altura, especialmente pelo arranjo, cheio de timbres, detalhes e instrumentos bacanas, pouco convencionais, destacando as cordas, arranjadas por Adriano Machado. E a maravilhosa “Um Pequeno Imprevisto”, que fecha o disco, com guitarras lindamente pensadas e um clima de verão, mostrando uma aproximação natural com a pegada, por exemplo, de canções de gente como Lô Borges ou Beto Guedes. E o título do álbum finalmente vem no verso: “No céu havia nove luas e nunca mais eu encontrei minha casa”.

 

“9 Luas” vendeu mais de 600 mil cópias na época. Foi um dos grandes álbuns de 1996, verdadeira joia desta maturidade que os Paralamas experimentavam. Se o tal ciclo experimental foi complexo para o público e o viés comercial, para a banda foi um tempo de assimilação de novas influências e aquisição de jogo de cintura. Quando o grupo emergiu e buscou um caminho de canções objetivas, estava mais cascudo, mais denso, mais completo. Naquele tempo, sem erro, os Paralamas continuavam a ser a maior banda em atividade no país. Sem concorrência.

 

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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