Young Guv – GUV II

 

 

Gênero: Pop, rock
Faixas: 9
Duração: 30 min
Produção: Ben Cook
Gravadora: Run For Cover

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Lá em 14 de agosto eu resenhei um disco chamado “GUV I” (leia aqui), deste mesmo sujeito, Young Guv. Dei uma cotação bem alta (4,5/5) e me impressionei como fluia o espírito de Teenage Fanclub nas suas oito faixas. Fiquei animado para ouvir o sucessor, imaginando que Ben Cook, o nome por trás da coisa toda, seria uma espécie de novo prodígio da música pop, surgindo bem diante dos nossos olhos. Eis que, pouco mais de três meses depois, o cara deposita uma nova fornada de canções perfeitas, sob o nome de “GUV II”. Desse jeito fica difícil pra gente não notá-lo como uma das coisas mais bacanas deste 2019, ainda que seu nome deva passar batido pelas mais descoletes listas de melhores do ano.

 

 

Mas Célula Pop existe pra esse tipo de coisa. Dar voz a quem merece, mas que não é, necessariamente, hypável. E este é o caso de Cook/Guv, que torna a gravar um punhado de faixas que orbitam o cânone do power pop perfeito. O cara, no entanto, é malandro e habilidoso: este disco não se resume a exercitar sua capacidade de soar como um novo TFC ou mesmo um pequeno Matthew Sweet ou qualquer outro pioneiro do powerpop noventista, bem, pelo menos, não apenas isso. A primeira canção até engana os mais afoitos: “She’s A Fantasy” é um pequeno milagre de harmonia, timbres e evocação do padrão The Byrds de música pop perfeita, com um final que traz uma percussão cheia de … agogôs.

 

A partir daí há a surpresa, que chega sob diversas formas. “Trying Not To Hang On So Hard” é um milagre de dois minutos e meio, com jeito de demotape e andamento mais rápido, ainda que devidamente adocicada pela melodia perfeita e pelo refrão angelical. “Caught Lookin'” arranca sorriso do ouvinte mais sensível por parecer uma tentativa de funk branquelo de cintura dura, algo como a ELO tentando ser disco music, mas com um orçamento bem menos polpudo. Os tecladinhos que assolam o arranjo da canção contribuem para que pensamos se tratar de algum tema de seriado televisivo perdido no espaço/tempo.

 

Esse desfile de belezuras segue com a fluidez de guitarras e andamento de “Trying To Decide”, com pinta de beira mar sob céu cinzento, lembrando o que bandas como Real Estate poderiam fazer. “Forgot To Feel” é mais como uma balada dos Beach Boys cantada por Dennis Wilson, com aquela melancolia implícita, mas carregada de leveza por algum motivo oculto. “Can I Luv U On My Own Way” é outra gravação lo-fi, que tem pinta de demotape, mas evoca toda a doçura do powerpop noventista em sua fração de admiração pelo amor e pelas declarações simples.

 

Quando você pensa que Young Guv já nos mostrou o que podia, surge “Song About Feeling Insane”, um pequeno tratado sobre como fazer new wave com baixos recursos, mas com belas ideias de melodia. “Can I Just Call U” é outra surpresa, com um andamento que poderia ser uma cruza do tema de Friends com o REM inicial oitentista, abrindo espaço para “Can’t Say Goodbye”, mais uma adorável incursão no território da ELO, dessa vez no que a banda fazia por 1981, 1982, com vocais celestiais e outra melodia matadora, com ênfase nos vocais.

 

Melhor e mais diverso que seu antecessor, “GUV II” é, com certeza, um dos grandes discos do ano…daquele tipo que ninguém vai ouvir. Seja diferente e conheça esta maravilha.

 

Ouça primeiro: “Caught Lookin'”

 

 

Em tempo: é possível ouvir no Spotify a versão que traz os dois discos, chamada de “GUV I/II”, acrescida de duas versões demo de “Try Not To Hang So Hard” e “Hammer & Pulse”.

 

 

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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