Mais uma análise de conjuntura de David Byrne

David Byrne – Who Is The Sky?
37′, 12 faixas
(Matador)
(4 / 5)
A carreira solo de David Byrne tem um ponto altíssimo: a turnê de “American Utopia”, seu disco anterior, lançado em 2018, que chegou a vir até o Brasil. Nos shows que percorreram teatros e estádios do mundo, Byrne e sua banda surgiam em pé, totalmente móveis, numa verdadeira sessão de aeróbica, demolindo as convenções do que se entende por “show de rock” até aqui. Esse feito lhe rendeu homenagens e elogios em todos cantos, além de filme e documentário sobre a empreitada. O álbum que gerou essa turnê talvez tenha sido a melhor realização solo de Byrne, ainda que tenha sido metralhado por “ser muito feliz” em plenos tempos do primeiro governo de trump. Agora, sete anos depois, ele ressurge com um trabalho que mantém a “felicidade” e investe numa simplicidade estética que é rara em se tratando da exuberância musical que David tem em seus domínios. A latinidade, as percussões ainda estão por aqui, mas o formato pop-rock parece ser o caminho escolhido ao longo das doze faixas, nas quais sobram detalhes bacanas que mantém o ex-Talking Heads como uma das figuras mais interessantes e inteligentes do showbiz. Senão vejamos.
O que é mais interessante em “Who Is The Sky?” é justamente a simplicidade de propósito, algo que fica ainda mais acentuado em se tratando de David Byrne. São doze canções pop, simples, com abordagem linear, que visam o que toda canção desta natureza visa – causar alegria, bem estar, talvez inspirar um movimento em direção a algo, dançar. Claro, há o respeito pelos parâmetros estéticos de Byrne, um poliglota da música. No entanto, estamos bem longe de qualquer excentricidade limitante ou cabecismo exagero. Este é um trabalho orientado para a audição descomplicada e, não fosse o seu autor a criatura complexa que é, seria analisado de um jeito, digamos, quase en passant. E, mais que isso – as canções são “alegres”, “pra cima”, com indicações de Byrne é um otimista, jamais um alienado. Sua busca na alegria e na obstinação de lançar um disco em tempos como os nossos, expondo-se, é uma forma de resistir diante da burrice que percorre o planeta como se fosse o caldo fumegante de uma panela destampada. Tipo Fernanda Torres e sua família, diante do infortúnio em “Ainda Estou Aqui” – “vamos sorrir, sorriam”. É mais ou menos por aí.
Para atingir essa excelência pop, Byrne recrutou o produtor Tom Hull, conhecido como Kid Harpoon, o sujeito por trás dos álbuns de Harry Styles, certamente um cara conhecedor dos atalhos do meio de campo, capaz de entender e traduzir as ideias de David para o mundo real. E quem o acompanha ao longo das faixas é a Ghost Train Orchestra, a orquestra de câmara de Nova York que ele descobriu através do tributo do próprio grupo ao compositor de rua de NYC, Moondog, em 2023. Byrne completou o elenco solicitando percussão adicional de Tom Skinner, do The Smile, e do seu antigo colaborador Mauro Refosco, além de vocais de Hayley Williams, do Paramore, e de St. Vincent, sua parceira em “Love This Giant”, de 2012.
Os arranjos e performances da Ghost Train Orchestra têm a missão de dar às faixas de abertura “Everybody Laughs” e “When We Are Singing”, aquele tom “catchy”, que vai fisgar o ouvinte logo de cara. Ambas têm aquela facilidade que as tornaria candidatas a “entrar nas paradas de sucesso” ou liderar um futuro espetáculo teatral, algo que Byrne já fez no passado e pode repetir. As expressões líricas de constatação (“When we are singing I know the way we look” – “Quando estamos cantando, sei como parecemos”) também apontam para um de seus temas favoritos, que é a estranheza inerente de ser um ser humano no palco, fazendo música. Mas há coisas bem mais intrigantes, como o olhar para casa em “My Apartment Is My Friend”. “Between the walls and windows, we’re connected, me and you” (“Entre as paredes e janelas, estamos conectados, eu e você”), em que ele valoriza, não só os confortos, como a belezura de estar em casa. Um dueto mais lascivo e com um toque latino com Hayley Williams, “What Is The Reason For It?”, mergulha nos mistérios do amor. Mas, por trás da “felicidade”, há a crítica de coisas como “I Met The Buddha At A Downtown Party”, uma história sobre a divindade explicando o motivo de ter se aposentado e, a partir daí, ser vista enchendo a cara numa festa em Nova York. E tem a crítica de costumes, especialmente sobre a indústria do embelezamento que tenta trapacear o tempo em “Moisturizing Thing”. O arranjo parece totalmente teatral, dá pra ver alguém no palco – ele, claro – interpretando o personagem. E tem um momento “Paul McCartney” em “She Explains Things For Me”, em que a melodia é linda, digna do ex-Beatle.
David Byrne, do alto de seus 73 anos, continua sendo um dos seres pensantes mais interessantes da música. Seus discos podem não ser tão sensacionais quanto suas realizações no passado ou mesmo suas ideias e posturas. Mas ele é o cara. E este “Who Is The Sky?” tem camadas e pequenas pegadinhas sob a felicidade urgente que parece dominá-lo. Ouça e constate.
Ouça primeiro: “She Explains Things To Me”, “Moisturizing Thing”, “Everybody Laughs”, “When We Are Singing”, “My Apartment Is My Friend”

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.
