Teago Oliveira – Boa Sorte

 

Gênero: MPB, rock alternativo
Duração: 39 minutos
Faixas: 11
Produção: Leonardo Marques e Teago Oliveira
Gravadora: Deck

5 out of 5 stars (5 / 5)

 

 

Você, que pensa a música brasileira atual como um desfile de tragédias midiáticas, não está pronto/a para um disco como este. “Boa Sorte” é a confirmação – não que fosse preciso alguma – de que Teago Oliveira é um dos nomes mais importantes do pop/rock brasileiro atual. Jovem, oriundo da Bahia e líder de uma excelente banda, a Maglore, Teago é dono de estilo próprio e conseguiu algo que poucos compositores lograram em suas carreiras: teve canções recentes gravadas por Gal Costa (“Motor”, também gravada por Pitty) e Erasmo Carlos (“Não Existe Saudade no Cosmos”). Agora, lançando este disco solo, gestado por alguns anos, Teago vive um desabrochar artístico que dá gosto de ver/ouvir.

 

“Boa Sorte” é um álbum confessional, que fala de amor, sentimentos e, acima de tudo, da perspectiva pessoal sobre as coisas pequenas que fazem o todo da vida. Visões de cenas comuns a todo um inconsciente coletivo dos nossos tempos, ele vai se conectando com o ouvinte aos poucos, ganhando-o pelo coração e, quando nos damos conta, já estamos com os olhos parados em algum ponto inexistente da paisagem, lembrando de coisas que já aconteceram ou não. Esta é a magia da música, tão subestimada hoje em dia, mas que, felizmente, é o motor da arte que Teago faz. Os arranjos são eletroacústicos, gentis, com violões em todos os cantos e uma doçura que evoca saudades de casa e, ao mesmo tempo, a noção de que a casa pode ser onde estamos hoje. Tudo é simples e muito complexo em “Boa Sorte”.

 

Algumas canções têm potencial de levar o ouvinte mais cético para lugares nunca visitados. Exemplo que salta aos ouvidos é “Longe da Bahia”, uma espécie de canto/hino pessoal de constatação da distância, da perda da inocência (eu quero muito ir pra casa, eu quero ver maínha), tudo é uma lindeza sem par. Tem cordas, tem reconhecimento das imperfeições e um arranho que evoca os tempos dourados da Tropicália, com cordas, vocais de apoio e uma atmosfera dourada.

 

Em outros momentos, Teago simplesmente nos convida para testemunhar momentos delicados de sua vida, como em “Sombras No Verão”, onde ele vai enfileirando imagens afetivas de algo que não deu certo. “Caminhos, cruzados, segredos, as crianças na escola, seu fantasma no espelho, e o jeito como você sempre gostava de sol e eu de sombras no verão”, tudo isso num clima que evoca algo de Beto Guedes mas que não é o cantor e compositor mineiro que conhecemos, mas como ele seria se tivesse a idade e a vivência do próprio Teago. Pianos e guitarras recebem o ouvinte de braços abertos, em algo realmente raro hoje.

 

Fechando uma trilogia de canções douradas que povoam “Boa Sorte” está o primeiro single, “Corações Em Fúria (Meu Querido Belchior)”, que faz um inventário curto e reto de achados poéticos aplicados à vida cotidiana, como se tudo isso fosse natural e inevitável. Sabemos que ele vai lembrando de sua vida, sua família e a decepção com “o novo que iria chegar”, mas também percebemos que o improviso e a resistência se impóem às necessidades que surgiram aqui e ali. É o resumo perfeito de uma persona que pode ser o próprio Teago, mas, quem sabe, nós mesmos.

 

“Boa Sorte” é um pequeno tratado sentimental, extremamente bem resolvido, um achado em tempos de trevas. É a certeza de que a resistência e a beleza hão de se impor ao todo e, por fim, prevalecer. Um disco belíssimo, agridoce como a própria vida.

 

Ouça primeiro: “Sombras No Verão”

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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