Surfer Blood – Carefree Theatre

 

 

Gênero: Rock alternativo

Duração: 35 min
Faixas: 11
Produção: John Paul Pitts
Gravadora: Kanine

4 out of 5 stars (4 / 5)

 

Existe tempo limite pra gente se apaixonar por uma banda? Espero que não porque, eu, velho de guerra, nunca ouvira falar do Surfer Blood, formação do sul da Flórida, versada no indie rock com ares lo-fi até este seu álbum “Carefree Theatre”. Como levo a sério a missão de ouvir coisas novas e apresentar pra quem estiver interessado, me dediquei à dissecção do álbum como faço sempre e fui me surpreendendo gradativamente com a excelência das canções. Tudo dentro dos conformes, arranjos com guitarras harmoniosas, melodias redondíssimas, vocais bacaninhas – dobrados ou não – e temáticas que vão da lindeza do verão, saudades da adolescência até a crônica sobre um massacre ocorrido numa escola da região de West Palm Beach, em 2018. Tudo está presente nestas onze faixas, cada uma mais linda que a outra.

 

O Surfer Blood tem algumas tragédias no seu passado. O guitarrista, vocalista e mente brilhante, John Paul Pitts, já chegou a ser acusado de violência doméstica, mas logo apurou-se que ele e a namorada haviam discutido e nada mais. Tal fato chegou a atrapalhar bastante o início da carreira do grupo. O outro guitarrista, Thomas Fekete, morreu há três anos, vítima de um câncer raro e agressivo. Quem ouve o som de “Carefree Theatre”, no entanto, jamais poderia imaginar tal background. Além de Pitts, a banda conta com o baterista TJ Schwarz, a baixista Lindsey Mills e o guitarrista Mike McCleary e obtém resultados brilhantes ao longo das canções do disco. Não é um indie rock com algum ranço estilístico, dá pra notar traços de Weezer aqui, de Saves The Day ali, de Jimmy Eat World acolá, de Best Coast mais pro outro lado, mas nunca soando derivativo. O que se ouve por aqui é rock bem feito, simples, melodioso e com harmonia. É como se o Real Estate, banda brilhante e cinzenta de Nova Jersey, viesse passar o verão na Flórida. A ideia é essa.

 

“Carefree Theatre” é o sexto álbum do grupo e o Surfer Blood nunca soou tão ensolarado, ainda que o disco traga assuntos sérios. O single “Parkland – Into The Silence” traz a narrativa de apoio aos estudantes da Stoneman Douglas High School, em Parkland, Flórida, lugar onde ocorreu o massacre de 17 pessoas, sendo que outras 15 foram feridas pela ação de Nikolas Jacob Cruz, em fevereiro de 2018. A melodia brilhante e perfeita contrasta com os fatos, mas surge como uma forma de demonstrar força e capacidade de recuperação diante do ocorrido. E ela é só a ponta do iceberg em termos dessa perfeição sunshine-indie-pop que se apresenta faixa após faixa.

 

“Dessert Island” faz trocadilho com a expressão “desert island” e dá início ao percurso sonoro. “Karen”, logo em seguida, é um exemplo desta perfeição. Pouco mais de dois minutos, melodia aerodinâmica, vocais de apoio, teclados e baixo/bateria/guitarra apostando corrida pra ver quem chega primeiro. A faixa-título é uma homenagem à única casa de shows que havia na cidadezinha onde Pitts cresceu, aquele ponto de encontro inevitável – para o bem e para o mal. “In My Mind” é o momento em que a influência de Weezer surge com mais força, especialmente no uso das guitarras e na melodia que emula algo mais clássico do rock romântico dos tempos idos. Mesmo assim, funciona. Há momentos em que há um aceno à belezura ramônica, como em “Unconditional”, só que a impressão é de flerte bem ingênuo, enquanto “Summer Trope” soa mais séria, porém, não menos brilhante. “Uneasy Rider” abre um espaço para incursões na new wave reprocessada dos dias atuais e dupla “Dewar”/”Rose Ball” fecha os trabalhos com acenos mais contemplativos e lentos, igualmente legais.

 

Surfer Blood não complica o fácil, joga pra torcida, tem gingado, competência e sentimento. “Carefree Theatre” é destes discos destinados a nunca mudar o mundo ou influenciar uma geração, mas, rapaz, que lindeza melódica ele é. Ouça e perca seu olhar pensando na vida.

 

Ouça primeiro: “Parkland – Into The Silence”

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

2 thoughts on “Surfer Blood – Carefree Theatre

  • 29 de setembro de 2020 em 17:14
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    Surfer blood sempre está na minha “vitrola”, adoro a banda!!! Esse, para mim, é o melhor trabalho da banda. Beleza melódica. Bela resenha CEL. Valeu!!!!

    1+
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    • 29 de setembro de 2020 em 17:32
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      Opa, valeu, Fernando. É um belo disco! Abraço.

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      Resposta

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