Marc Bolan: The Godfather of Punk

 

 

 

Década de 70. Músicas de 26 minutos e quarenta e sete segundos: elas existem, pode acreditar. Sons tão complexos quanto o Alcorão e mais caudalosos que o Niagara desaguam dos sulcos dos vinis.

 

Quase esse vira o único modelo de uma geração que estava apenas crescendo nos anos 1970, mas pouco – ou nada – tinha a ver com a mania de grandeza sonora inventada pelos roqueiros. Os grandes músicos, ocupados com viagens egoastrais que mal cabiam nos LP’s, nem percebiam que parte da juventude da época não sintonizava na mesma frequência que a deles.

A década nascia com a ressaca dos sixties e, de largada, prometia combinações completamente diferentes: individualismo com hedonismo, niilismo com diversão, perdição com drogadição. O futuro era bem mais excitante que o passado recente, que trouxera a espátula. O presente vinha com o bolo: desperdiçara-se um tempão afofando a massa – chegara a hora de atacar!

Só que velhos hábitos são uma praga: “Me descola mais tempo num lado que ocupo na boa”, seria frase possível de se ouvir da boca de um músico insatisfeito com o espaço disponível num álbum, por volta de 1972.

Se rock progressivo clássico fosse coisa atual, com as mídias ilimitadas que se têm por aí, não se pode duvidar, esses mesmos caras fariam músicas de 24 horas, de uma semana – quem sabe, de meses, anos até (!). Expedições musicais com nascimento, desenvolvimento e morte da música; inclusive do próprio músico.

Tais epopeias só foram impedidas porque a pulsão que movia o prog-rock, em seu contexto histórico, hoje não existe com mesma intensidade.

 

Projeto: Música para uma Vida Inteira.

 

 


PLANETA TERRA: 1972-1977 –
Reich absoluto do rock progressivo. Bandas de duas toneladas e meia deixam pegadas maiores que a do King-Kong a cada pisada. Os ouvidos dos jovens são massacrados pela megalomania dos rockstars de bata indiana.

 

Tempos há muuuito deletados – dos lados A & B, dos stereos, das agulhas, das jaquetas LEE, dos autoramas, da revista POP e dos singles.

 

Nos rock dos 70’s, ser grande era documento: calçar grandes orgias, cheirar grandes botas de plataforma, dar grandes quantidades de cocaína (porque LSD tava fora de moda) – e, sim, fazer grandes shows, compor grandes canções e, especialmente, gravar grandes álbuns.

 

Mas o rock, que nascera bebê dinossauro, perdera o sentido original, a sacanagem e a direção; não era mais barulhento, se não fosse apoteótico, e para ser pop, obrigatoriamente, precisava ser processado como leite desnatado.

 

Aos dezessete minutos e meio do solo do teclado em alguma arena gigante, as cláusulas primárias firmadas no pacto que Robert Johnson fechou com Satã, o Pai do Rock, foram esquecidas em alguma encruzilhada.

 

O rock tinha crescido e se tornado tudo, menos endiabrado: as exceções eram Led & Sabbath, que o impediam-no de ficar adulto de vez por todas. A tutela do Diabo fora escanteada; passara-se a negociar, às portas fechadas, com poderosas majors.

 

Elas passaram a representar a figura paterna e bastarda do capeta. Tinham os contratos, mas eram apenas “padrastos e madrastas”. A alma, porém, ainda pertencia a Louis Cypher…

 

Até o punk implodir em 1977, com o start “oficial” dos Sex Pistols, na Inglaterra, e seu séquito de bandas, houve uma alma e uma mente que vislumbrou a revolução pelo menos cinco anos antes. Seu nome, Marc Bolan.

 

Bolan viu que tudo andava muito chato e adulto e retomou as rédeas do negócio para o Diabo. Diversão com sensibilidade e genialidade ganhava devido lugar no rock após muitos anos. O capeta, é claro, deu a maior força.

 


GODFATHER –
 Por isso, entre os britânicos, Marc Bolan é chamado de o “The Godfather of Punk”. Mas daí algum incauto poderá dizer: “Mas ele era glam! Nada a ver – olha só o cabelo dele! E as roupas?! O sonzinho: punk?”.

 

Pode ser que, de primeira, você não caia na feitiçaria de Bolan e, muito menos, saque direito como ele comunica sua misteriosa música. Mas, ouvindo com mente e ouvidos abertos, com o tempo se passa a entender que ele foi um artista único. O que mais impressiona, todavia, era sua simplicidade.

 

Marc era tão simples – e sempre exigente – que, segundo Tony Visconti, seu produtor de longa data, se não acertava uma canção em três takes logo desencantava. Marc Bolan se transformou no grande herói dos adolescentes que, cinco anos a frente, assumiram o punk e o pós-punk na troca da guarda do glitter rock.

 

Esses jovens eram Morrissey, Siouxsie Sioux, Johnny Marr, Billy Idol, Steve Jones – esse pessoal, todos fãs. Quando Bolan teve o seu programa de televisão em 1977, Marc Shows, na TV Granada, ele “deu força” para todas as bandas punk da época, de Generation X, Damned, The Bottom Rats a The Jam.

 

David Bowie foi amigo e rival, mas confesso admirador que um dia entregou sua relativa inveja pelo amigo:

 

“Nunca tive nenhum adversário na Inglaterra, a não ser Marc Bolan. Eu tentei como um louco colocá-lo na lona. Na teoria eu sabia que isso era bobagem, mas na prática eu realmente queria acabar com ele de qualquer maneira”.

 

Bowie fez para ele a belíssima “Lady Stardust”, do álbum The Rise And Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars. E não precisa dizer mais nada. Em 77, o Duke Magro cantou “Heroes” no televisivo Marc Shows.

Marc Bolan foi punk, mas de uma forma bem elegante, na realidade. Recuperou o antigo rock “simples” de pioneiros como Elvis & Perkins e, nem por isso, deixou de sofisticá-lo com sua visão pessoal.

Lembrou, para que nunca se esqueça novamente, que riffs são a alma do rock. Que foram inventados para se abusar, repetir, variar e derivar.

A gigantesca influência de Marc Bolan fez-se sentir em artistas dos estilos mais variados, que apareceram depois dele. Anacronicamente: Violent Femmes, Sigue-Sigue Sputnik, Patti Smith, Bauhaus, Guns’n’Roses (saca a cartola e o cabelo do Slash…), Supergrass, Kiss, Blondie, New York Dolls, Alice Cooper (Bolan tocou nas sessões de Billion Dollar Babies).

 

“Marc Bolan foi o primeiro artista que nos disse que o futuro era mais importante que o passado”, disse Morrissey na reportagem The Rise & Fall of The Ultimate 70 Superstar, capa da revista inglesa Mojo de maio de 2005.

 

ASGARD – Na tradição dos anos 70, editar um single era o motivo para lançar, no lado A, a “música de trabalho”, aquela escolhida para promover o novo álbum. O precioso espaço do verso não era satisfatório para caber toda grandiloquência de viagens cósmico-conceituais.

Um disco com o roteiro a seguir poderia muito bem ter sido feito – se é que não foi. Antes de ler imagine as brumas de Asgard, o primeiro dos três mundos do universo nórdico:

 

É o reino dos deuses. Em Asgard está situada Valhalla, o palácio dos guerreiros mortos em batalha. Também em uma região de Asgard está Vanaheim, a terra dos Vanir e Alfheim, a terra dos Elfos Luminosos. Em Asgard estão também os palácios de cada um dos deuses, como também Gladsheim, o grande santuário na Planície de Ida. (?)

 

A fábula de Asgard, de jeito nenhum, caberia no formato pop, o comprimido formato clássico de 2:24 min. Nem à base de censura. Então, os caras não davam a mínima.

 

Leva a pensar que até os progressivos (os pré), um dia, foram mais simples. The Story of Simon Simopath, álbum do grupo Nirvana UK (o primeiro a usar este nome), de 1967, é dessas histórias contadas de forma resumida.

 

Consegue ser mais pop, por ser menor, mas já dá pra notar que, a partir de então, clamam para ganhar mais “páginas”. Os fãs gastavam seus tostões com os singles, com média de três músicas por compacto: o laureado lado A e, de lambuja, uma ou duas canções no B. Se houvesse algo de bom no verso, era lucro.

Poucos artistas deixavam a preguiça de lado pra editar, no lado secundário, um par de canções tão excelentes quanto as premidas no principal. Afinal, provavelmente, as músicas do lado B, com muita chance, não estrelariam no novo álbum.

 

Marc Bolan se tocou que estava tudo errado e reverteu isso com grande efeito para sua própria carreira, repleta de singles de sucesso que alcançaram o Top of the Pops.

 

Quem saiu ganhando mesmo foi o certo público de rock daqueles dias, que perambulava pelas lojas de discos se virando com as antigas bandas de garagem. Talvez seja por isso que Marc Bolan é considerado uma espécie de realeza na Inglaterra – o Dandy in the Underworld: abasteceu o “teenage dream” de ensolaradas canções pop.

 

BOOGIE ON! – Pela ordem, a melhor maneira de iniciar-se no chamado “T-Rex Soud” são os álbuns Eletric Warrior, a coletânea Bolan Boogie, The Slider e Tanx.

 

Porém, a coletânea Great Hits B-Sides (1972/1977), lançada pela Edsel em 1994, tem algo de veryvery special. Dada perfeição, cuidado e esmero, os B-sides nela reunidos têm o valor de verdadeiros lados A. Bolan teve muito cuidado em estúdio ao produzí-los. Trata-se de uma antologia de canções deliciosamente pop, no que de melhor o sentido dá à reciclada terminologia. Reza que Bolan preocupava-se com a grana que os adolescentes gastavam comprando seus singles. Em troca, queria presenteá-los com os melhores sons que conseguisse registrar.

 

Great Hits B-Sides é relíquia essencial pros fãs do T-Rex. Ouvintes casuais poderão ser fisgados pelo balanço manhoso de Bolan – daí, um aviso: não tem mais volta…

 

 

Great Hits B-Sides – A partir de agora, comento todas os singles reunidos nesta compilação, uma “obrigação” que eu tinha desde adolescente para comigo mesmo. E que, só agora, mobilizei-me para fazer. Depois desses anos todos, só pude concluir o óbvio: o som continua maravilhosamente igual – até porque, nunca parei de ouvir o disco.

 

E sim, claro (!), todos os lados A foram hits terrivelmente “grandes” também. O próprio nome da banda já afirma sua grandeza: T-Rex. Espero que se divirtam-se de montão com a leitura, como fiz milhões de vezes ao longo da vida.

 

Get it On!

 

CADILLAC [B-side de Telegram Sam – 21/1/72] Hit grandioso nas rádios de toda a Europa. Riffs e timbres definidores da primeira fase do chamado T-Rex Sound. Número 1 no Reino Unido.

Era esperada nos concertos sold out da banda e quase foi lado A.

Cadillac” marca fato trágico da carreira de Bolan: ele nunca soube dirigir, tinha fascínio por automóveis e morreu no trágico acidente que comoveu a Inglaterra em 1977.

Sua esposa, a cantora norte-americana Gloria Jones, estava ao volante.

 

BABY STRANGE [B-side de Telegram Sam – 21/1/72] Power pop! “Baby Strange” é uma canção tão simples e contagiosa que mal dá para acreditar.

O embalo de três acordes e o apelo irresistível do chorus são sedutores: ♪ OOO you’re strange ♪ Don’t lame me baby strange ♪ Don’t lame me baby ♪

Detalhe: nenhum solo de guitarra. Alex Chilton, do Big Star, captou o poder magnético de “Baby Strange” e incluiu no seu repertório ao vivo e também a regravou em estúdio.

Camille Paglia, professora de humanidades na Universidade de Artes da Filadélfia, fez uma tese inteira sobre os jogos vocais de “Californian Dreaming”. Paglia desconstrói o clássico do Mamas and the Papas em sala de aula para os alunos e, depois, a remonta peça por peça.

Eu também seria capaz de apresentar uma tese sobre a simplicidade e a eficiência de “Baby Strange”. Mas sou mais de dar uma saudável dica: num dia de sol, escancare as janelas, coloque a música no volume maior que conseguir em sua casa (pra sentir a pulsante força da bateria) e deixe a energia do rock correr nas veias. Medicina.

 

 

THUNDERWING [B-side de Metal Guru – 5/5/72] “Thunderwing” colocou na cabeça de Bolan a corôa de Rei do Boogie. Funciona como versão remix de “Get it On”, seu smash hit.

É outro resultado característico do T-Rex Sound, que o Seahorses, do guitarrista John Squire (ex-Stone Roses), por exemplo, perseguiu com Tony Visconti em estúdio.

O som almejado por Squire, típico de “Thunderwing”, era resultado da bateria dobrada e dos reforços do bongô de Mickey Finn, conduzidos pelo ritmo sensual da Les Paul de Marc Bolan.

Uma levada muito difícil de emular. “Thunderwing”, single de sucesso, não perdeu o dançante gancho após 35 anos. Dissemine numa pista louca por rock pra ver no que vai dar… Depois emende com “Juke Box Jive”, do The Rubettes, “Balroon Blitz”, do The Sweet, ou “48 Crash”, de Suzi Quatro. Nitroglicerina pura.

 

 

LADY [B-side de Metal Guru – 5/5/72] Bolan entra surrupiando a introdução de “Eight Days Week”, dos Beatles, e segue adiante no estilo Sun Records-Wall of Sound, duas fundamentais referências no som do T-Rex.

Canção que prova literalmente a facilidade com que Bolan tirava canções da cartola. “Lady” é cheia de overdubs de guitarras acústicas. Os backing vocals, por sua vez, são da dupla Flo & Edie.

 

 

JITTERBUG LOVE [B-side de Children of the Revolution – 8/9/72] A guitarrista do Cramps, Poison Ivy, confessou que, fora todo catálago da Sun, das velharias rockabilly, dos Stooges, dos Trashman e dos New York Dolls, nada mais lhe chamara atenção no rock – tirando o T-Rex.

“Jitterbug Love” mostra como a guitarra de Bolan influenciou o nervosismo dos The Cramps, ao subverter as formas tradicionais do boogie-woogie.

Nesse single, Bolan adiciona distorções fuzz barulhentas e imprime uma pegada selvagem ao estilo que, depois, ganhou o nome de psychobilly.

 

 

SUNKEN RAGS [B-side de Children of the Revolution – 8/9/72] ♪ It’s a shame it’s sunken rags ♪ The way you play me down ♪ It’s a shame the way you hide me in the electric school ♪ So ride on, fight on ♪ Love is gonna win ♪ It’s gonna beat your sins ♪

Quanto mais a gente ouve, mais pop fica “Suken Rags”, outra pequena gema do reprtório de Bolan desprovida de solo de guitarra. No auge da música, Bolan opta por um clímax vocal: é o “solo”.

 

 

XMAS RIFF [B-side não-creditado de Solid Gold Easy Action – 1/12/72] Mensagem de Natal subliminar de Marc Bolan que se tornou famosa entre os fãs. Presente do Papai Noel.

 

 

BORN TO BOOGIE [B-side de Solid Gold Easy Action – 1/12/72] Outro B-side que foi parar num álbum oficial, Tanx. Também é o nome do alucinantemente nonsense filme-concerto do T-Rex, produzido pela Apple Films, dos Beatles, e dirigido por Ringo Starr. Separados ou na mesma bolacha, “Solid Gold Easy Action” e “Born to Boogie” formam  uma liga boogie-woogie explosiva.

É letra é isso:

♪ Baby baby ♪ I was born to boogie ♪ Baby baby ♪ l was born to boogie ♪ Spend some time with you ♪ I wanna do all ♪ I wanna do ♪ Boogie children, uh ah ♪

Repete 3 vezes.

Precisa mais?

 

 

FREE ANGEL [B-side de 20TH Century Boy – 2/3/73] Refrigério depois do calor do lado A. Mais uma sem solo de guitarra.

 

 

MIDNIGHT [B-side de The Groover – 1/6/73] Período em que Bolan começa a flertar pesado com o heavy rock e mostra suas credencias, como antes havia exibido em “Buick Mackane” e “Chariot Choogle”, do clássico álbum The Slider.

Em “Midnight”, o baterista Bill Legend e o baixista Steve Currie são levados a tocar em níveis poucas vezes exigidos em uma banda aparenetemnte simples, mas sofisticada, com o T-Rex.

É a faceta mais hard do glitter rock, que influenciou linhagens e mais linhagens de bandas poodle-rock.

 

 

SITTING HERE [B-side de Truck on (Tyke) – 16/11/73] Essa coleção de singles não apresenta muitas baladas, um dos fortes de Marc Bolan, mas traz algumas singelas canções. Em “Sitting Here”, Bolan mostra nova faceta de sua intrigante voz.

Os violões combinados com o melotrom servem de base para que ele e sua esposa, Gloria Jones, cantem juntinhos:

♪ Sitting here, I don’t care for you ♪ Sitting there, you don’t care for me ♪ But I think we’re in love ♪ Ain’t that funny ♪

 

 

SATISFACTION PONY [B-side de Teenage Dream – 28/1/74] A guitarra soa alta e inocula maldade. Bolan grita com o nonsense de sempre: “Like a jungle touch, oh my, satisfation pony!”. O que diabos isso quer dizer? Mínima idéia…

Em geral, as letras de Bolan mergulham no surrealismo, como no célebre caso  de “Telegram Sam”, verdadeiro labirinto semiótico que só faz sentido na cabeça dele e que, na verdade, trata-se de uma mensagem crifrada para seu traficante – na gíria, seu “main main”.

Os vocais de Jones em “Satisfaction Pony” são abrasivos. A musica ganhou registro no verão de 73, durante as sessões do incompreendido álbum Zinc Alloy & Hidden Riders of Tomorrow.

 

 

EXPLOSIVE MOUTH [B-side de Light of Love – 5/7/74] Gravada no Eletric Lady Studios, em Nova Iorque, 1974. Baixo tortuoso e novos timbres de guitarras, “mui” modernos para aquele tempo, mas, ainda sim, bem pouco reconhecidos.

 

 

SPACE BOSS [B-side de Zip Gun Boogie – 1/11/1974] Foi ouvindo o lado A desse compacto que o quadrinista Joe Sacco disse na HQ Derrotista: “Marc Bolan foi um enviado dos deuses para lembrarmos que somos todos crianças”.

Em ‘Space Boss”, Bolan nos faz lembrar que, com as palavras, é mais divertido não fazer sentido o tempo todo.

 

 

CHROME SITAR [B-side de New York City – 27/6/75] Sim, o single foi gravado com uma cítara elétrica cromada! Pop exótico & estranho.

As vocalizações de Gloria Jones dão tom grandioso ao lado B. É do tipo que, à primeira ouvida, é bem capaz de você não curtir. Mas, quando começar a notar os detalhes, lá no fundo, vai querer descobrir os segredos escondidos em “Chrome Sitar”…

 

 

DO YOU WANNA DANCE? [B-side de Dreamy Lady – 26/9/75] Poucas das covers gravadas por Bolan, desde “Summertime Blues”, lado B de “Ride a White Swan” – que só não entrou nessa compilação porque é de 1970. “Do You Wanna Dance” consta do EP T-Rex Disco Party.

Bolan deu tratamento funky ao megahit de Bob Freeman. Funciona numa pista de dança que só vendo. E casa bem com sua proto-technopop-cabaré “Dreamy Lady”, do álbum Futuristic Dragon.

 

 

DOCK OF BAY THE BAY [B-side de Dreamy Lady – 26/9/75] Versão para o hit póstumo de Otis Redding cantado com emoção e alma por Gloria Jones. Keyboards pilotados por Billy Preston; Bolan assume a produção.

Uma das versões mais legais deste clássico da soul music, no melodioso vai-e-vem do Mellotron. Perfeita para namorar.

 

 

SOLID BABY [B-side de London Boys – 20/2/76] Duas baterias somadas para conseguir uma das dance music mais modernas da época. Guitarra em segundo plano, sax insano & clap hands frenéticos durante a música toda. Nada convencional, a começar pelo título: “Solid Baby”. Que te parece?

 

 

BABY BOOMERANG [B-side de I Love to Boogie – 5/6/76] Songwriter prolífico, Bolan, não se sabe ao certo motivo, pegou esta música de 72, do álbum The Slider, para compor o formato boogie deste compacto.

Mas não faz mal. “Baby Boomerang” é delícia que só melhorou com o tempo. A letra dissimula “Subterranean Home Sick Blues”, de Bob Dylan, e a linha de baixo, por sua vez, surrupia “Hound Dog”. Está perdoado.

 

 

LIFE’S AN ELEVATOR [B-side de Laser Love – 17/9/76] Guitarras e mais guitarras depois, Bolan volta a gravar uma canção só ao violão, o que não fazia desde “Broken Hearted Blues”, do álbum Tanx. Uma das mais belas de todas.

 

 

CITY PORT [B-side de To Know Him To Love Him – 14/1/77] Música escrita em 72 para a cantora Pat Hall, artista que Marc Bolan produzia. A nova versão é um dueto entre Marc e Gloria nos vocais: soul music plastificada e, ainda assim, orgânica.

O vídeo de “Know Him To Love Him” é um registro doce e tocante do casal Bolan & Jones cantando juntos.

 

 

ALL ALONE [B-side de Soul of My Suit – 12/3/77] Melodia voluptuosa com sabor caribenho. Entrou no álbum em Futuristic Dragon e simboliza o novo visual de Marc Bolan, dark e precursor do pós-punk e da new romantic que influenciou Damned, a banda punk apoiada por Bolan que acompanhou o T-Rex em sua derradeira turnê.

Siouxsie Sioux é uma xerox de Bolan nessa fase. O clipe de “Soul of My Suit” tem a cara da new wave. É o T-Rex com duas guitarras. O novo Tyranossauro está com dentes afiados.

 

 

GROOVE A LITTLE [B-side de Dandy in the UnderworldFunk branco-minimalista, cremoso feito sorvete de baunilha. “Groove a Little” é das últimas tentativas de Bolan, na época, em ganhar o mercado norte-americano. Não rolou, mas sobrou esta pérola. Repare no solo linear, de uma nota só e sintetizado que racha a música no meio.

Já o vídeo de “Dandy in the Underworld”, é uma das últimas apresentações de Bolan ao vivo num programa de televisão. Captura o metal guru em plena e nova forma, aos 29 anos. A performance é estonteante, especialmente no heróico final.

 

 

TAME MY TIGER [B-side de Dandy in the Underworld – 30/5/77] Kitsch até morrer e propositalmente pasteurizada, do jeito que só Bolan sabia produzir. Tamy é o tigre da capa. Marido e mulher duelam nos vocais. Tesourinho de grande valor pop.

 

 

RIDE MY WHEELS [B-side de Celebrate Summer – 5/8/77] Lado B absurdo, já que “Celebrate Summer”, no verso, é uma das canções mais pop-punk de Marc Bolan.

“Ride My Wheels” é uma das últimas músicas feitas por Bolan – um legado funky, soul & pop a altura da sua espirituosidade:

♪I’m just a boy, be my toy ♪ Ride my wheels ♪ I’ve got some punk ♪ To lay on you♪ Just be real girl ♪ I never asked you to be true ♪ Slim is the wind ♪ And my head is slight ♪ But lady ♪ I want to ♪ Oil your engines all night ♪ Drive me baby ♪ I give service ♪

 

 

Que o paraíso o tenha.

 

 

*Texto publicado no livro Nova Carne Para Moer (Zouk editora): Seleção de Textos sobre Cultura Pop, Grandes Reportagens, Entrevistas, Perfis, Arte e Artigos.

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Cristiano Bastos

Cristiano Bastos é jornalista. Um dos autores do livro Gauleses Irredutíveis – Causos & Atitudes do Rock Gaúcho. Escreveu Julio Reny – Histórias de Amor e Morte, Júpiter Maçã: A Efervescente Vida e Obra, Nelson Gonçalves – O Rei da Boemia e o livro de reportagens Nova Carne Para Moer. Também dirigiu o documentário Nas Paredes da Pedra Encantada, sobre o álbum Paêbirú, de Lula Côrtes e Zé Ramalho. Atualmente trabalho no projeto 100 Grandes Álbus do Rock Gaúcho, que se encontra em campanha de financiamento pela plataforma Catarse: https://www.catarse.me/100GrandesAlbunsDoRockGaucho

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