Stone Foundation – Is Love Enough?

 

 

Gênero: Soul, rock alternativo

Duração: 53 min.
Faixas: 17
Produção: Neil Sheasby e Neil Jones
Gravadora: 100% Records
4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

 

 

 

Por causa de alguma confusão editorial imperdoável, este disco do Stone Foundation, lançado em 26 de setembro de 2020, ficou sem uma resenha. Lamentável é pouco para definir este “esquecimento”, mas a gente tenta reparar o erro publicando nossas impressões sobre este novo trabalho do grupo inglês agora, com um tempinho de atraso. No fim da contas, o objetivo é fazer você ouvir, conhecer e gostar de uma banda que militar há cerca de 20 anos no terreno sacrossanto do soul/funk com personalidade suficiente para soar como algo novo. Na verdade, nem tão novo, uma vez que o som do Stone Foundation lembra bastante o de Paul Weller, um fã declarado do grupo, a ponto de participar das gravações e co-produzir este “Is Love Enough?” ao lado dos dois cérebros da banda, os “Neils” Sheasby e Jones.

 

A semelhança de sonoridade com Weller é um ponto favorável ao SF, especialmente porque esta abordagem de ritmos negros levada pelo Modfather em diferentes momentos da carreira, a saber, no The Jam no Style Council e solo, está entre as mais sinceras e criativas já feitas por um músico inglês. O resultado tem guitarrinhas, levadas dançantes e aerodinâmicas e parentesco com o blues rock setentista produzido na Velha Ilha, mas tudo soa bem fresco e novo. A sensação que temos ao ouvir as faixas deste álbum é de que estamos diante de um monte de músicos cascudos e tarimbados por várias experiências no estúdio. Mais que isso: a maneira como o Stone Foundation se apodera e reprocessa as influências tem brilho pop e virtuosismo, além de uma produção que dá valor aos arranjos e aos climas. Praticamente não há erro ao longo das 17 faixas, todas colocadas para ganhar o ouvinte de qualquer jeito.

 

Além de Weller, está presente Durand Jones, líder dos The Indications, banda americana que leva adiante a sua versão para o soul. Com tonalidades mais vintage e próximas dos timbres e sons de gente como Sharon Jones e Charles Bradley, Jones faz bonito em “Hold On To Love”, que se beneficia de seu vocal mais rasgado. A canção tem uma levada em midtempo, mais pendente para a balada esperançosa de amor. Tudo é belo, com arranjo que contempla metais, cordas e vocais de apoio, que se dobram e mesclam. A canção que tem Weller, “Deeper Love”, é totalmente calcada no soul/funk dos anos 1970, uma versão mais pesadinha e fluida de gente como Harold Melvin And The Bluenotes, caso estes fossem coverizados pelo próprio Modfather. O arranjo é ótimo, os fraseados de guitarra são sutis e se entrelaçam com piano e percussão. Tudo bem legal.

 

As canções em que a banda surge sem convidados também são ótimas. A faixa-título tem ótimo fraseado de metais e vocais de apoio precisos, além de um ritmo dançante bem sutil e bem feito. “Learn To Love Again” é balada clássica de FM setentista, sem tirar nem por, bela e perfeita. “Picture A Life” também vai neste mesmo caminho de lentinha de baile, enquanto “Af-Ri-Ka” carrega as coisas para o terreno do afrobeat, mas não tem tanto êxito quanto as outras canções. “83: That’s Our Time” é bem arranjada nos moldes de algumas canções oitentistas, bem como pede o título, chegando mesmo a citar a linha de baixo de “All Night Long”, clássico das Mary Jane Girls, famoso nos bailinhos e bailões da época. Além destes destaques, a banda ainda manda vinhetas pianísticas e românticas, mostrando que também aprenderam bastante com os discos do Style Council.

 

Ao fim do percurso, temos a impressão de ter entrado numa sala em que viajamos parcialmente no tempo, com a ciência de que ficamos aqui e agora. O som do Stone Foundation mescla modernidade e classe na medida certa. Um discaço.

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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