Sobre o fim do Skank

 

 

Desde a noite de ontem, algumas matérias de jornais surgiram na Internet falando sobre Samuel Rosa e o início de sua carreira solo. Hoje, domingo, dia 03 de novembro, surgiu um comunicado do perfil oficial do Skank, dando a seguinte notícia: a banda mineira encerrará as atividades em 2020, após uma turnê de despedida. A partir daí, o vocalista e guitarrista Samuel Rosa parte em carreira solo, deixando Henrique Portugal, Lelo Zaneti e Haroldo Ferreti de lado. A alegação de Rosa: “o formato do Skank se tornou sinônimo de comodidade, de limitação”. Pensando bem, faz sentido.

 

Samuel tornou-se maior que o Skank. Compositor talentoso, vocalista correto e bom guitarrista, ele tem capacidade de se sustentar numa carreira solo, levando adiante seu bom senso melódico, boas letras e figura simpática no palco. As bandas brasileiras – já disseram no passado – têm medo de encerrar as atividades, daí duram mais do que deveriam. O Skank parece ser um caso desses. O grupo mineiro lançou o último disco há quatro anos, “Velócia”, que cumpriu seu papel fornecendo algumas canções para tocar em FMs conservadoras, mas se chamam “rock”. Afinal de contas, os mineiros praticavam um pop-rock bem feito, porém, de fato, refém de um formato confortável. É bom que se diga: o Skank teve uma pegada reggae/dancehall muito bacana até o terceiro disco, “O Samba Poconé”, de 1996, mas, logo no álbum seguinte, “Siderado”, de 1998, já era possível notar que algo mudava.

 

A princípio, uma afeição maior às baladas, especialmente caso de “Resposta”, bela canção de Samuel com Nando Reis, que chegou a ser gravada por Milton Nascimento, mas, ainda havia uma incidência maior de faixas animadas, tangenciando as influências reggae do início. Com “Maquinarama”, de 2000, o grupo fez seu trabalho mais ousado. As tinturas jamaicanas se transformaram em música eletrônica, com acentos muito bem-vindos – caso de “Balada do Amor Inabalável” (parceria inesperada com Fausto Fawcett) e pop songs de primeira categoria, vide “Ali”, “Três Lados” e “Canção Noturna”. Era o Skank maduro surgindo.

 

 

O próximo álbum, “Cosmotron”, de 2003, moldou o que a banda viria a se tornar: um grupo de pop/rock muito mais próximo de influências beatle e de uma MPB clássica. A balada “Dois Rios”, de Samuel e Lô Borges, invadiu as rádios com um arranjo polido e que lembrava uma canção lenta do Oasis e, ao mesmo tempo, alguma faixa perdida do próprio Lô, em discos como “A Via Láctea”. Daí vieram outras canções com uma notável capacidade de misturar essas influências mais clássicas com uma verve de música pop que mantinha o interesse do público. Era uma banda que amadurecia a olhos vistos, diante de seu público. “Formato Mínimo” e “Amores Imperfeitos” atendiam a este quesito, enquanto “Vou Deixar” se tornaria onipresente por conta do refrão e da melodia – outra parceria com Nando Reis.

 

O fato é: depois deste álbum, o Skank realmente se acomodou e lançou três discos de inéditas – “Carrossel”, “Estandarte” e “Velócia” – e outras tantas coletâneas e discos ao vivo. Evidentente que o formato mais pop e elaborado, além da própria mudança nos parâmetros da indústria musical e da divulgação, com a entrada dos serviços de streaming e uso crescente da Internet, vitimaram a banda. Neste meio tempo, Samuel Rosa foi visto mais próximo de gente como o próprio Lô Borges, mostrando que sua busca por outras influências, ainda mais distantes do padrão “rock” do Skank, já não era de hoje.

 

Vi um show da banda no Circo Voador há alguns anos. Fiquei pasmo com a quantidade de canções conhecidas – entoadas a altos brados pelo público que lotava o espaço – e pelo pique dos quatro no palco. Tocaram todos os hits, deram bis, suaram a camisa. Mas, confesso, o Skank noventista sempre foi o meu preferido. A alquimia improvável de reggae sem mar, de mineiros informados e influenciados por dancehall e um flerte saudável com influências brasileiras e latino-americanas, me fazia gostar muito daquele Skank. Como não curtir a levada mortal de “Garota Nacional”? Como não apreciar as experimentações de “A Cerca”? Como não se espantar com a doçura da letra de “Te Ver”? E como não reconhecer a eficiência daquela cover grudenta de “É Proibido Fumar”? E aquela versão para “I Want You”, de Bob Dylan, que se transformou em “Tanto”?

 

Torço para que Samuel Rosa tenha uma sobrevida como artista solo. Quanto ao Skank, tenho certeza: daqui a alguns anos, voltará aos palcos para satisfazer a saudade mercadológica e aliviar a nostalgia de seus fãs, que estarão mais velhos e cansados da roda do neoliberalismo. E como este dá e toma, oferecerá turnê de reencontro a preços exorbitantes, que todos farão de tudo para pagar. E a roda continuará girando. Felizmente ou não.

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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