Silk Sonic: um bom exercício de estilo e nada mais

 

 

 

Silk Sonic – An Evening with Silk Sonic

Gênero: Funk, soul

Duração: 31:19 min
Faixas: 9
Produção: Bruno Mars, D’Mile
Gravadora: Atlantic

3 out of 5 stars (3 / 5)

 

 

 

Silk Sonic é um projeto formado por Bruno Mars e Anderson .Paak com a intenção de reviver e exaltar a black music americana setentista. Para isso, os dois artistas se valem de um vasto cast de convidados, arsenal de arranjos classudos, além de boas e genuínas intenções. Os timbres dos instrumentos são “orgânicos”, os backing vocals são bem gravados e afinados, ou seja, todo o possível para reviver os áureos tempos do funk/soul que consagrou gente como Teddy Pendergrass, Marvin Gaye, Lou Rawls, Harold Melvin and The Bluenotes, The Spinners, The Jacksons e mais uma série de figuras decisivas é feito para dar ao ouvinte e aos músicos, um resultado bacanudo. As nove faixas compostas para este primeiro álbum, “A Evening With Silk Sonic” são redondas, mas nada trazem de novo ao gênero que seus criadores emulam aqui, o que, claro, é esperado, uma vez que não há ninguém em atividade na música nos últimos dez, vinte anos, capaz de alcançar a majestade de algum dos citados aí em cima. Nem por isso o álbum é ruim. Vejamos.

 

Se o Silk Sonic se apresenta para um público que nasceu nos anos 1990, na faixa dos 30 anos por agora, certamente poderá – e deverá – significar uma sonoridade incrível e fascinante. Afinal de contas, o que eles fazem soa como novo, no sentido de ineditismo, ou seja, pra uma galera acostumada a ler R&B como algo que a Beyonce ou o próprio Bruno Mars fazem, o choque será imenso. Por outro lado, o disco não traz absolutamente nada de novo no sentido cronológico, uma vez que, mesmo sendo feito em 2021, busca deliberadamente alcançar uma sonoridade que já foi criada e desenvolvida. Ou seja, é o que a gente costuma chamar de exercício de estilo. Não é novo, abre mão disso intencionalmente, preferindo renunciar à novidade em nome de um objetivo declarado de revisitar algo já feito. Nada errado, óbvio, mas uma proposta dessas arca com um risco de ser comparada exatamente com o que ela se dispõe a executar. Neste caso, fica complicado para o Silk Sonic enfrentar a turma cascuda do Philly Soul, da Motown e da Mowest.

 

Uma instância que poderia diminuir a distância entre o disco de Mars e .Paak em relação às fontes inspiradoras, está na qualidade das composições. Afinal de contas – e isso é mérito do disco – não há cover por aqui. Dentre as nove canções há erros e acertos. Algumas são muito adocicadas, soando quase ridículas em 2021, uma vez que as letras não têm muito a ver com o nosso tempo, algo que não acontece numa experiência em que a gente ouve algo feito em 1977, por exemplo, pois o referencial temporal joga a favor. Sendo assim, uma canção como “After Last Night”, ainda que bem arranjada e executada, com participação de Thundercat e de Bootsy Collins, dá vontade da gente abrir o tocador de streaming em algo dos Isley Brothers e mergulhar com vontade. “Put A Smile”, igualmente lentinha e climática, ainda mais que “After Last Night”, é mais derivativa, pegando emprestado o andamento e o arranjo que poderia ser feito até por artistas menos proeminentes da black music, como Ray, Goodman And Brown ou mesmo The Floaters. Nem por isso deixa de ser legal para quem nunca os ouviu.

 

Dentre os singles do álbum, “Leave The Door Open”, uma baladinha soul pop clássica que até parece algo dos Manhattans, com um pouco mais de dinâmica, é legal e simpática, mas resvala no excesso de cordas e vocais de apoio. “Skate”, mais rápida e suingada, tem arranjo claramente inspirado no Philly Soul, o que é algo sempre bem vindo e belo de se ouvir. E o fim do álbum, com “Blast Off”, lembra demais uma balada do Earth, Wind And Fire, o que, claro, não a desmerece em nada, pelo contrário.

 

No fim das contas, o que fica é uma oportunidade do Silk Sonic servir como indutor de “novas” sonoridades para seus ouvintes, que, curiosos, bem que poderiam caçar os originais. Aliás, fiz esta resenha com excesso de citações de exemplos de artistas com maior consistência para estimular o leitor a conhecer e pesquisar as sonoridades que eles criaram e que motivaram esta homenagem feita por Mars e .Paak. Se este álbum servir para reavivar o interesse pela black music clássica e despertar a curiosidade de uma parcela dos interessados pelo Silk Sonic, já terá valido. Agora, se você quiser ouvir algo novo neste mesmo setor, procure o novo álbum do Curtis Harding, “If Words Were Flowers”.

 

Ouça primeiro: “Skate”, “Blast Off”, “Leave The Door Open”

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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