Sergiopi – Auradelic

 

Gênero: Pop, eletrônico

Duração: 31 min.
Faixas: 9
Produção: Sergiopí, Hiroshi Mizutani e Bombom
Gravadora: Lab 344

4 out of 5 stars (4 / 5)

 

Para onde foi a boa música pop nacional? Perdido entre sertanejos pré-fabricados, pagodeiros anódinos e funkeiros descompassados, é bem difícil encontrar algum artista que dê espaço para o ouvinte compreender, digerir e formar opinião sobre o que faz, o que pensa e tudo mais. Parece que pop é, mais do que nunca, sinônimo de algo passageiro, sem conteúdo, feito apenas para consumo desenfreado no Brasil de hoje. Não para Sergiopí, ainda que o próprio artista talvez não goste de ver sua música associada ao pop no seu sentido mais acessível e, por que não?, belo. Sim, porque “Auradelic”, seu novo trabalho, é um disco conceitual sobre distopia, passagem do tempo, poesia como meio de salvação e alguns outros conceitos pessoais. Para emoldurar essas reflexões, o sujeito tece uma teia bem pensada e bela de beats, timbres, teclados, sintetizadores e programações, conseguindo uma sonoridade que é bem parecida com os trabalhos de gente como Mahmundi e os primeiros – e bons – discos do Silva.

 

Sergiopí é o criador da LAB 344, gravadora indie responsável pelo lançamento de ótimos nomes da cena alternativa. Já gravou discos de “bossa lounge” e lançou um trabalho autoral em 2015, mas a relevância artística se faz mais presente neste seu “Auradelic”, muito por conta do cuidado com os timbres. É uma sonoridade herdeira do pop soul dos anos 1980, de gente como Claudio Zoli e Marina Lima, com a presença de um dos arquitetos daquela paisagem sonora: Bombom, que foi baixista da Conexão Japeri, banda que acompanhou a estreia de Ed Motta e que seguiu trajetória própria depois. Ele também participou do ótimo segundo disco do sobrinho de Tim Maia, “Um Contrato com Deus”, de 1990, no qual Ed e Bombom fizeram tudo sozinhos, criando um dos melhores trabalhos da música nacional de então, hoje criminosamente esquecido.

 

Além dessas referências, claro, Sergiopí acrescenta as pinceladas definitivas de modernidade 2020, usando alguns elementos de vapor wave, batidas sintéticas, alguma psicodelia distópica, ou seja, figuras que ele mesmo vai se apropriando ao longo da jornada que propõe no conceito que norteia “Auradelic”, o de contrapor a passagem do tempo com a possibilidade do amor unindo as pessoas. E ele se questiona se desejar tal situação é utopia, realidade possível ou impossível, o que nos levaria então para a distopia. O fato de não ter as respostas para as perguntas dá ao álbum um revestimento de sinceridade e o coloca junto ao próprio ouvinte, num mecanismo que causa empatia e facilita a compreensão do conceito. Nem era preciso, uma vez que todas as faixas são muito legais, bem compostas e tocadas, num caso inequívoco de boa música sendo oferecida a felizardos ouvintes.

 

Não dá pra acusar nenhuma faixa de “Auradelic” como sendo ruim ou mal feita, mas Sergipí atinge seus melhores resultados em duas canções: “Poema Mudo”, no qual emula fraseados de guitarras e teclados só para submergi-los num mar de sintetizadores propulsionados por uma batida vigorosa e criativa. A impressão é de ver uma onda bater na praia deixando aquele rastro de espuma branca na areia. E o outro momento é na belíssima faixa-título, que lembra algo que poderia estar num álbum de Marina Lima, se ela estivesse começando a carreira agora, encontrando seu próprio tom. O bom uso dos teclados, as ótimas batidas e a noção de belezura melódica do arranjo é coisa muito séria ao longo dos quase quatro minutos da canção.

 

Sergiopí fez um belo trabalho em “Auradelic”. As nove faixas transbordam detalhes, não somente nos climas dos arranjos, mas nas letras que trazem fantasmas, dores, medos. Uma ressaca de relações sociais disfuncionais que insistem em não admitir as ambivalências do existir. Aquele abismo entre “o que eu quero e o que eu preciso”. É um disco pop, ensolarado e chuvoso ao mesmo tempo, com conceito que não complica a fluidez das canções e toda uma “aura” de um Rio de Janeiro perdido entre o passado presente como futuro possível. É uma pequena joia sonora. Não perca.

 

Ouça primeiro: “Auradelic”

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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