Os 30 anos de “Um Contrato com Deus”

 

 

Ed Motta tinha 19 anos quando entrou em estúdio para gravar o sucessor de seu disco de estreia, Ed Motta E Conexão Japeri. Era necessário igualar o desempenho do primeiro trabalho, que colocara o vozeirão e o talento de Ed no mapa nacional, além de gerar dois hits, Manuel e Vamos Dançar. Além disso, era preciso apostar, uma vez que Ed não fazia mais parte da Conexão Japeri, podendo dar asas à sua vasta imaginação musical neste segundo trabalho. Outro detalhe: Ed jamais gostou de ser comparado a seu tio Tim Maia e adoraria poder ver-se distante disso, uma vez que o álbum anterior, calcado em idioma muito semelhante aos trabalhos de Tim, ou seja, o funk brasileiro, a música negra do subúrbio, a rota dos bailes da pesada, o sistema solar que orbita a Tijuca, tudo isso era latente e precisava ser, digamos, colocado em segundo plano.

 

Dito e feito. Ed Motta manteve a presença do baixista da Conexão, o talentoso Bombom, também parceiro nas composições, e decidiu estampar sua cara ainda adolescente por todo o disco. A ideia era também mostrar um pouco da personalidade do menino e logo sua paixão por quadrinhos foi parar no título do disco. Um Contrato Com Deus é o nome de uma graphic novel de autoria de Will Eisner, publicada em 1978 mas ambientada no Bronx dos anos 30. Além disso, podemos dizer que a ambiência musical no segundo disco volta-se para a soul music mais clássica, sem deixar, entretanto, o imaginário dos bailes de subúrbio completamente de lado. Uma canção como Shake, Shake Baby, por exemplo, mostra que Ed também buscava algo mais contemporâneo, como Lovesexy ou Sing O’Times, discos que Prince gravara em sequência no fim dos anos 80. Mais que isso, da mesma forma que o anão púrpura de Minneapolis, Ed se responsabilizou por todos os instrumentos do disco, deixando o baixo para Bombom.

 

Assim que foi lançado, Um Contrato Com Deus ganhou fama de difícil ou complicado. Há cordas muito bem arranjadas no disco, a cargo do maestro Orlando Silveira, sobretudo em Sombras Do Meu Destino, uma canção ecológica que emula a influência de Marvin Gaye. Além dela, hits em potencial como a balada “Do You Have Other Love no melhor estilo FM, o funk sinuoso de Body e os sucessos Um Jantar Pra Dois e Solução, contradizem as primeiras impressões do álbum. O grande passo em direção a um futuro como artista livre de amarras estéticas estava na inclusão de várias vinhetas, que serviam pra interligar as canções. Com duração não ultrapassando a casa de um minuto e meio, as vinhetas foram gravadas em “edmottês”, o tal idioma do sujeito, muitas vezes apenas com sobreposições de sua voz adentrando os terrenos percussivos e harmônicos, cheias de scat singing e improvisações, com cama musical de bateria eletrônica, teclados, baixo e guitarra. A mais legal é Ed’s Blue*, com participação do gaitista Flávio Guimarães, do Blues Etílicos.

 

Um Contrato Com Deus marcaria uma adolescência musical interessante para Ed Motta. Famoso na época por não enxergar qualquer valor na música produzida no Brasil, era comum vê-lo dar entrevistas assumindo essa posição sem qualquer constrangimento. É um disco completamente atípico, feito com a intenção de ousar, de mudar, de assumir uma posição dentro de uma carreira. É algo sério. Pouco tempo depois, durante a turnê de lançamento, Ed conheceria sua futura esposa, Edna, que fora entrevistá-lo nos bastidores de um show. Podemos dizer que após o segundo álbum, Ed Motta já não era mais o moleque prodígio apregoado pela mídia na época, muito menos “o sobrinho do Tim Maia”. Sua personalidade musical tinha vindo à tona.

 

Um Contrato Com Deus vendeu 150 mil cópias e recebeu uma edição em CD logo em seu lançamento, mas logo saiu do catálogo da Warner. Ao longo dos anos 90 recebeu uma reedição no modelo 2 por 1, junto com o primeiro trabalho de Ed, há muito tempo longe das prateleiras em qualquer formato, mas se encontra disponível para audição em streaming.

 

 

 

Texto originalmente publicado aqui.

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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