Saudades do U2 Eletrônico

 

Como a maioria das pessoas que usam os serviços de streaming, eu tenho uma grande, enorme playlist. A batizei de “Atemporal” e ela já ultrapassou cinco mil músicas há algum tempo. Lá vou colocando as músicas que amo, as que gosto relativamente, as que me chamam a atenção, enfim, é uma baita programação de rádio imaginária, que poderia, no entanto, ser verdade e realidade. De vez em quando, o modo “shuffle” me reconecta com alguma música que ouvi muito, mas que ficou pra trás. Foi o caso de “Lemon”, canção do U2 de 1993, faixa dançante e extremamente legal do “Zooropa”, disco que o grupo irlandês lançou como uma espécie de sequência de “Achtung Baby”, um dos álbuns seminais dos anos 1990, lançado no início da década.

 

A aurora desta versão noventista do U2 se deu ainda na compilação “Red, Hot & Blue”, de 1990, quando vários artistas foram convocados para fazer versões de clássicos de Cole Porter. A ideia era arrecadar fundos para a pesquisa da cura da AIDS. Os irlandeses fizeram uma impressionante releitura de “Night And Day”, com direito a arranjo dançante/eletrônico de Brian Eno e uma impressionante habilidade para subversão. Tal fato parece incrível se pensarmos o que era o U2 até àquela data: uma banda de rock clássica, respeitosa, com raízes pós-punk e veia discursiva pronunciada. Era um grupo previsível, ainda que vivesse uma fase de amor à América mitológica, fazendo discos tributários de uma sonoridade clássica de blues e r&b.

 

A partir dessas credenciais, um disco como “Achtung Baby”, gravado em Berlim, com produção de Eno e Daniel Lanois, visando abordar o momento da história em mutação, do fim das Alemanhas, do caos político e econômico que parecia inevitável – como foi. Era uma música de fim de mundo, o que, de fato, era o que acontecia. Deixávamos de lado a coexistência de EUA/URSS para cair no mundo do neoliberalismo plantado por Reagan e Thatcher, sendo colhido diante dos olhos perplexos de quem cresceu decorando nomes de capitais e bandeiras como marca de saber. Derretimento de conceitos, ideias, substituição por outras, era tudo ao mesmo tempo naquela hora. De alguma forma, a eletrônica elegantíssima do U2 em “Achtung Baby” captava tudo isso, dava sentido, traduzia, adaptava e nos ajudava a atravessar o turbilhão. Desse disco surgiram impressionantes canções jamais igualadas pela banda: “The Fly”, “Until The End Of The World”, “Mysterious Ways”, “Who’s Gonna Ride Your Wild Horses”, “Even Better Than The Real Thing” e até a surrada “One”, todas elas são totalmente 1991, muito mais do que qualquer outro lançamento musical daquele ano.

 

O mesmo clima de escrutínio eletrônico impregnou no U2 por outros três discos: “Zooropa”, “Passengers – Vol 1” e “Pop”, lançados entre 1993 e 1997, fazendo dos irlandeses o grupo mais criativamente ativo naquela década, sem dúvidas. O que se obteve neste quarteto de discos, simplesmente pavimentou o caminho para que bandas como Radiohead e Coldplay – este, pelo menos, até o segundo disco – existissem como forças criativas. A vox de Bono (trocadilho fraco, ok), ao lado do registro celestial de Jeff Buckley, fez surgir toda uma linha de vocalistas com agudos e capacidade além da conta, indo de Thom Yorke a todo mundo que veio depois dele, Chris Martin, Fran Healy, e por aí vai.

 

A colaboração com Brian Eno foi fundamental. Com sua habilidade ímpar, o produtor lapidou uma marca registrada de música eletrônica, inigualada em seu tempo – permanece assim até hoje. “Zooropa”, por exemplo, tem três singles matadores, cada um a seu jeito: “Stay” é uma das mais belas baladas da carreira do U2, com revestimento de veludo e clima cinzento; “Numb” é um rascunho intencional de murmúrios, guitarras e esquisitice, que tinha parentesco até com o trip hop de Tricky naquela época, enquanto “Lemon” é a mais elegante e sensacional faixa dançante possível para o U2. Além delas, ainda veríamos “Miss Sarajevo”, do álbum lançado como Passengers, na verdade, um disco muito mais de Eno que do grupo. E “Pop”, muitos anos o “patinho feio” desta fase, tem canções que envelheceram bem, como “If God Will Send His Angels”, “Staring At The Sun”, “Last Night On Earth” e o single “Discotheque”, que chocou o mundo, mostrando o U2 vestido de … Village People. Aliás, os clipes deste período, bem como as apresentações ao vivo, batizadas por um bom tempo, de “ZooTV”,  mostravam uma banda completamente nova, com Bono encarnando um personagem simbólico: o diabão aloprado McPhisto.

 

Esta sequência impressionante de discos e singles fez a banda excursionar pelo mundo várias vezes – vindo, inclusive, pela primeira vez ao Brasil em 1998 – e gerou uma espécie de movimento de retração criativa, no qual o grupo “voltou às origens” com o disco seguinte, o belo “All That You Can’t Leave Behind”, de 2000. Depois deste álbum, o grupo jamais conseguiu igualar este nível de criatividade e relevância, apesar de ter tentado por várias vezes.

 

O U2 eletrônico, ousado, relevante e irreverente é uma marca registrada dos anos 1990. Todos os discos deste período exuberante estão disponíveis nos serviços de streaming, inclusive a mamútica versão de luxo de “Achtung Baby”, com singles, covers, remixes e tudo mais. Creiam, poucas vezes um material extra foi tão decisivo para esmuiçar um disco. Conheçam ou relembrem.

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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