Roqueiros brasileiros reaças. Até quando?

 

 

 

A gente já sabe que eles existem. A gente já viu eles se pronunciando, expondo suas opiniões nas redes sociais. Já presenciamos Roger (do Ultraje), Dinho (do Capital), Paulo Ricardo (RPM), Lobão – todos figuras do rock brasileiro dos anos 1980 – bradando sobre o quão ruim foi o tempo do PT no governo federal e como o Brasil está/esteve à mercê do … comunismo. Ontem mais um representante veio se juntar a este grupo – que ainda conta com várias estações repetidoras por aí: Digão, dos Raimundos. Nos stories do Instagram, o sujeito comparou as restrições do isolamento social, impostas pela pandemia, com o … comunismo. Especialmente a questão de não poder ir a qualquer lugar, sob o risco de expor-se e às pessoas à Covid-19. Hoje, segunda-feira, o site Whiplash publicou matéria sobre o assunto e a questão caiu como uma bomba nas redes. O guitarrista e cantor dos Raimundos apagou sua postagem, mas o estrago estava feito. Daí vem a pergunta: afinal de contas, por que raios surgem esses roqueiros reacionários? De onde eles vêm? O que eles pensam? Eles pensam?

 

Alguns fatores devem ser levados em conta nesta análise. O rock surgiu nos Estados Unidos, em plena década de ouro do capitalismo pós-guerra, os anos 1950. Era um tempo de Guerra Fria, de avanço tecnológico, de expansão da indústria, de dinheiro abundante nos Estados Unidos. Por um lado, a sociedade americana zarpava para um futuro à la Jetsons, por outro, achava que tudo iria ficar sob a bota pesada da moral judaico-cristã ocidental, uma eficiente e milenar forma de controle social e comportamental. Não deu pra segurar. Os jovens não iriam ser como seus pais, não iriam para nenhuma guerra, queriam atenção, novidade e liberdade, especialmente sexual. Daí, por conta dos rocamboles econômicos dos anos 1930/40, os negros americanos estavam mais próximos do que nunca. Sua música e sua cultura impregnaram os brancos e borraram os limites sociais, criando várias instâncias de novas situações. O rock foi uma delas.

 

Filho de r&b e blues nigérrimos, com country branquelo, o rock foi uma válvula sendo aberta. Letras sobre sacanagem, cantadas e compostas por negros até então sem voz, caíram como uma bomba na sociedade. Ou seja, rock nasceu contestando o sistema. E qual era? O capitalismo ocidental, branco, armado pela fé religiosa como medida acessória de controle. “Tutti-Frutti” falava de bigamia, bissexualidade, em meio a uma letra nonsense, cantada e escrita por um negro andrógino, que depois se auto- intitulou “o rei e a rainha do rock”. Isso é só o começo. Tinha gente tocando fogo em pianos, esmerilhando guitarras, rebolando na nascente TV, branco cantando como negro, o início do rock foi uma represa arrebentada, ansiada pela juventude. Nada de conformismo, nada de conservadorismo, certo?

 

Nos anos 1960, foi a mesma coisa. Depois de um início em que as letras repetiam e ampliavam as questões de liberdade sexual, o rock e o folk se aproximaram e geraram mutações em ambos. Um incorporou o discurso do outro e o outro incorporou a eletricidade do um. Resultado: a politização veio para o centro da ideia, dando ao rock a capacidade de se tornar um produto cultural polivalente. Era música, era mensagem, era veículo. Com guitarras e atitude no palco, no disco, na composição, era possível, em três minutos, passar uma mensagem capaz de atacar governo, sociedade, o valentão da escola, o patrão inescrupuloso, a mulher/homem que trai, enfim, todo mundo que te oprime. O opressor passou a ser o alvo primordial do rock e este, uma arma poderosa na mão das … minorias. Sim, porque, quem luta contra o opressor e o sistema é, por lógica, matemática ou definição, uma minoria.

 

Vieram a música eletrônica, o punk, o heavy metal, o rap, o grunge, o britpop e, além deles, a disco music, a house music, a música eletrônica das raves noventista, o rock magrelo strokiano, o neo-rock psicodélico e, sem exceção, a portabilidade das mensagens continuou sendo característica primordial do rock e, depois de tanto tempo, da música pop. Não dá pra negar que popstars como Madonna, Beyonce, Lady Gaga, entre outras, não tenham usado sua música para falar de assuntos … extramusicais. Pois bem.

 

Claro que devemos levar em conta a ação do mercado sobre a espontaneidade do rock. Vinculado a interesses multinacionais, representados por gravadoras, o estilo não foi totalmente domado por elas até o fim dos anos 1990, quando ainda tinham poder. É certo que houve tentativas e casos consumados, mas, como dizer que o Nirvana, por exemplo, era uma banda de conformados? Ou o Sex Pistols? Ou o The Clash, Pink Floyd, Rage Against The Machine? Não dá. Como falar que o metal furioso, o punk mais anarquista, tudo isso, não tem origem num desejo inato de modificar a sociedade?

 

E como isso arrebenta nas nossas praias da incompreensão? Eu tento explicar. Em primeiro lugar, o público e artistas como os do início do texto, não parecem capazes de entender o significado do que cantam e fazem da vida. Deixaram de lado as letras e se concentraram no som, nas guitarras e em outros elementos estéticos que podem, digamos, ser apropriados mais facilmente. Mas a facilidade que a arte tem de ser reinterpretada favorece a burrice. Veja, esta é uma das maiores qualidades da arte, mesmo a mais popular delas. Esta maneabilidade do discurso pode, entretanto, causar constrangimento. Por exemplo: “Que País É Esse?”, canção da Legião Urbana. Já a vi sendo cantada enquanto Dilma Rousseff era presidente do país. Ela fala da podridão da política, da pobreza do país, da incapacidade de resolver os problemas. Pois bem, quem a cantava em, digamos, 2013, bradava contra um governo. Quem a canta em 2020, brada contra outro governo, bem diferente. Eu pergunto: é possível comparar ambos? Dilma e o atual ocupante da presidência podem ser comparados em termos de políticas sociais?

 

Vejamos outro caso. Os recentes shows de Roger Waters no Brasil causaram revolta num público de longa data de sua banda, o Pink Floyd. Desde, pelo menos, 1973, Waters – sempre o principal letrista do grupo – imprimiu nas canções e no trabalho do grupo, um tom extremamente político, em que criticou modernidade, imobilidade social, instituições de ensino, fascismo, tudo em discos que venderam milhões de cópias e que repousam nas prateleiras destes fãs que se surpreenderam como o tom político de Waters. Como essa gente não entendem que “The Wall” é uma crítica ao ensino burrificante inglês e ao fascismo da Segunda Guerra Mundial? Quem não enxerga “Dark Side Of The Moon” como uma crítica à modernidade opressora e distópica?

 

Mais um caso: e o Rage Against The Machine, quarteto angeleno de rap/heavy metal? Com letras politizadas em meio a batidas híbridas, o RATM já tem como slogan uma frase de operários ingleses temerários pelo avanço da mecanização do trabalho no século XIX. Essa postura levou à criação dos sindicatos, que protegeram os trabalhadores e lhes rendeu várias conquistas na luta pela melhoria de condições. E as letras de Tom Morello e Zack de la Rocha são brados enraivecidos contra o sistema, a banda usa imagens de estrelas socialistas e efígies de Che Guevara, líder argentino da Revolução Cubana. Como que essas pessoas não entendem o que estão ouvindo?

 

Como elas não entendem The Clash, Afrika Bambaataa, John Lennon?

 

Eu tenho uma teoria. O rock não é um produto cultural brasileiro. Nossa sociedade tem várias semelhanças histórias com a sociedade americana, mas o rock é um produto deles, que se propagou primeiro na Inglaterra e foi para outros países, chegando aqui como um espasmo no fim dos anos 1950 e assumindo a forma de Jovem Guarda como resposta à Beatlemania. A partir daí, o rock nacional espelha os avanços obtidos lá fora, com mais ou menos atraso, dependendo do tempo. Em algum momento dos anos 1970, essas informações do estilo chegaram a pessoas da classe média brasileira, segmento social que havia apoiado e sustentado o golpe militar-empresarial de 1964. Essa gente cresceu num ambiente conservador, numa grande cidade, vivendo uma realidade a salvo da maioria da população brasileira, que passava por momentos de grande arrocho no pós-milagre econômico. Passaram a juventude sob sustento dos pais, tiveram acesso a educação, a bons colégios, sempre frequentado por gente do mesmo estrato social. E se multiplicaram. O rock era a música da juventude, as mensagens contidas, se diziam muito mais ao desemprego inglês, a falta de futuro americana, não permearam a mente dos nossos jovens “roqueiros”.

 

Os anos seguintes, de pós-ditadura, Collor, FHC e, por fim, dos governos petistas, proporcionaram, em diferentes intensidades, condições para que esta gente conseguisse sustentar uma carreira fonográfica, com uma base de público razoável. Foi com o fim da indústria musical como um meio de sustentação, que levou todos a uma nova realidade, a qual desencadeou um processo de “salve-se quem puder”. Sem os discos, com menos shows, com o capitalismo neoliberal tirando mais e mais renda das pessoas para colocar no bolso dos banqueiros, a música se tornou um acessório e abriu espaço para uma novíssima geração de artistas muito populares, dispostos a tudo para emplacar hits. O rock foi deixando de ser protagonista pra ser marginal, como em seu surgimento. E tal situação expôs muitos de nossos “heróis”, fazendo-os bradar seus slogans anti-povo, anti-pobre, anti-funk e, como o nosso amigo Digão, anti-comunismo, algo que nunca existiu.

 

A gente faz o que? Sente saudade das aulas da Cultura Inglesa? Do IBEU?

 

Não. A gente combate essas pessoas. Até porque, muitos outros contemporâneos deles estão aí para desmentir minha teoria, felizmente. Temos, por exemplo, Edgard Scandurra, Nasi, Emicida, João Gordo, Leoni, entre muitos outros, preocupados com o estado do nosso país e mantendo a coerência de usar sua música como mensagem para que possamos tentar melhorar a vida das pessoas. Até porque, tudo é política.

E a gente está aqui, pra ajudar a clarear as coisas, até porque a questão é mais profunda que este texto. Mas ele serve como, digamos, uma boa introdução ao assunto.

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

21 thoughts on “Roqueiros brasileiros reaças. Até quando?

  • 21 de julho de 2021 em 16:56
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    Muito bom o texto. Estamos em julho de 2021 e ele continua a fazer sentido… mais ainda agora, com as recentes declarações de Marcelo Nova sobre as medidas restritivas… literalmente adentrando ao clube do rockeiros reaças…

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  • 21 de março de 2021 em 12:34
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    Eu decifrei tal enigma, já há bom tempo.
    Na verdade, é muito mais simples do que o assinalado no texto.
    A maioria dos roqueiros brasileiros é de classe média ou de classe alta, ou seja, no Brasil, rock é “coisa de rico”, logo…

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  • 20 de maio de 2020 em 20:57
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    Reflexão muito válida sobre os nossos roqueiros reaças, CEL. Esse assunto rende muito pano pra manga e acredito que haja várias situações particulares no nosso rock brasileiro com relação a posturas e visões políticas – ou a falta delas – mas sem dúvida o teu texto é uma introdução bem incômoda e por isso mesmo salutar. O tom dos comentários aí já é uma amostra. Valeu!

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    • 21 de maio de 2020 em 10:13
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      Pois é, meu caro. É uma selva a ser desbravada. A função da gente nesta hora é incomodar mesmo. Abraço.

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  • 20 de maio de 2020 em 16:16
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    O rock como mensagem morreu há décadas, seja pela decadência de seus porta-vozes, pela mutação reacionária do seu público e/ou pela pasteurização do mainstream. Deixou de ser intrigante e fazer a cabeça da molecada no mundo inteiro e no Brasil o processo ganha contornos especiais pelas razões apontadas no texto. Hoje esse papel transgressor é desempenhado por outros gêneros, ninguém duvida. Como som, como música, porém, ainda tem vigor e produz novidades interessantes aqui ou ali.

    Sobre Raimundos, algumas verdades: é a grande banda de rock brasileiro dos anos 90 por sua originalidade, mas os posicionamentos sempre foram ambíguos, pra não dizer que flertava com o reacionarismo. Ao mesmo tempo em que lançam um projeto como o Cesta Básica, o Rodolfo dos anos 90 escrotizava o boteco daqui de Brasília que ele chamava de “”GLS””; Digão recentemente pagou sapo pra homofóbico em show e agora faz essa cagada. Adoro a banda e ainda escuto os primeiros discos, mas é inegável que ela envelheceu mal em vários sentidos.

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    • 21 de maio de 2020 em 10:23
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      Acho o Raimundos um dos casos extremos de superestimação. Quanto à migração dos conteúdos contestatórios do rock para outros estilos, estou totalmente de acordo.

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      • 21 de maio de 2020 em 11:53
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        Po CEL, acho que pouca coisa no nosso rock foi mais inventiva e vamos lá, genuinamente brasileira do que o ~forrocore~ dos caras naquele período. Acho que a percepção geral ficou prejudicada pela música manjada que fizeram depois e os eventos extra palco. Abraço

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        • 21 de maio de 2020 em 12:53
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          Cara, eu acho que o tal forrocore foi algo bem curto e pouco significativo. Acho que o “barato” da banda eram as letras desbocadas mesmo. Eu acho que a coisa mais original do período está em algum ponto entre Chico Science e mundo livre s/a, mais pro mundo livre.

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  • 20 de maio de 2020 em 11:19
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    Ótimo texto!!!, lembrando que Lobão e o Nando Moura são os arrependidos da vez, sera que esses dois entre outros esperavam que ao apoiar o Bolsonaro elevariam a sua audiência e seriam idolatrados pelas multidões fanatizadas pelo ” mito “, acho que o tiro saiu pela culatra, diferentemente dos USA e Inglaterra aqui o rock sempre foi da classe media alta branca!!!

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  • 20 de maio de 2020 em 11:02
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    O Raimundos era uma puta banda até a saída de rodolfo hoje esse pulha direitófilo rege os destroços sem o mesmo brilho e passa vergonha no débito e no crédito. Se o regime que o bozo_nazi quiser implantar vingar ele e os outros rockeiros reaças sofrerão do mesmo mal que atingirá o rock and roll como um todo pois o estilo é tolerado pela direita mas não pelo fascismo da extrema direita.

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  • 19 de maio de 2020 em 09:03
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    Lendo o artigo…Com certeza fiquei um pouco mais burro!

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    • 21 de maio de 2020 em 10:23
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      O artigo também não faz milagres, meu caro. Boa sorte pra você.

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  • 19 de maio de 2020 em 08:41
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    “Seu comentário aguarda moderação” Resumindo, só aceita o que massageia teu ego! Fraco!

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  • 19 de maio de 2020 em 00:54
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    Texto foda! Obrigado! Rockeiro reaça, de direita e conserador é POSER! Vão cantar sertanejo! Viva o João Gordo e os Ratos de Porão, caralho!

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  • 18 de maio de 2020 em 21:57
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    Muito bom artigo. Com certeza contribuirá para o debate menos acalorado e mais lúcido.

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  • 18 de maio de 2020 em 18:55
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    Concordo com você, mas acho meio ruim comparar o Dinho com os demais citados. Ao contrário deles,Dinho nunca apoiou o Bolsonaro, sempre criticou e se posicionou contra (o que, cá entre nós, já uma grande coisa)

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    • 18 de maio de 2020 em 19:33
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      Lembro do Dinho em altas campanhas anti-Dilma.

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      • 19 de maio de 2020 em 14:16
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        Prefiro os reacionários fascistas do RUSH. Absolutismo, individualismo radical e livre pensar eram os temas abundantes, muitos deles inspirados nas obras de Ayn Rand. Ramones eram anti comunistas e tem punk que os ama!

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    • 19 de maio de 2020 em 08:17
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      Materiazinha estúpida e tendenciosa.
      Chorem, viúvas do pt.

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    • 19 de maio de 2020 em 08:38
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      Só escreveu m*e*r*d*a! Como sempre falo, todo crítico musical é na essência um músico frustrado. E piora no teu caso ser “historiador”. Na real você é apenas um contador de “história”, um deturpador de narrativas ou seja, verborréias ficcionais.

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      • 21 de maio de 2020 em 10:24
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        Boa, João Claudio. Continue assim. Boa sorte.

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