Hanni El Khatib – FLIGHT

 

 

Gênero: Rock alternativo

Duração: 31 min
Faixas: 13
Produção: Leon Michels
Gravadora: Innovative Leisure

4 out of 5 stars (4 / 5)

 

A primeira vez que ouvi falar de Hanni El Khatib foi através da mulher que mais entende de música no país: Christiana Jobim, DJ e pesquisadora. Ela me apresentou o som do cara como uma novidade absoluta e a primeira impressão que tive foi de que El Khatib fazia algo próximo de um Black Keys com mais velocidade e aerodinâmica. Pegava a sonoridade vintage lamaçenta de Dan Auerbach e levada pra passear numa pista de corrida com certa malandragem e experimentação contidas na receita musical. Qual não foi minha surpresa em ver que ele estava lançando um novíssimo álbum e que havia se associado a um produtor eminentemente pop – Leon Michels. Temi pelo pior, por uma diluição de estilo, por uma mudança em direção à descartabilidade, mas, ouvindo este “FLIGHT”, ainda não sei o que El Khatib pretende, só sei que o resultado é muito, muito bacana.

 

Apesar do nome, El Khatib é nativo de San Francisco, tem uma carreira que já vai pra uma década de duração e este é seu sétimo disco. Ele sofreu um acidente de automóvel gravíssimo em 2018, que quase carimbou seu passaporte para o outro plano. Ao ficar por aqui, ele teve uma ideia de modificar seu som para incorporar este sentimento de ressurreição, de permanência, algo abstrato, mas que, de alguma forma, está presente na abordagem musical que ele empreende aqui. Seu rock híbrido de antanho agora surge como conceito, em meio a um monte de canções misturadas com samples, levadas de hip hop, teclados e, sim, baixo, bateria e guitarra, mais ou menos como ele tivesse jogado um balde d’água sobre uma pintura não encerrada, criando uma aquarela maluca, mas com muito sentido.

 

O mundo que sai das faixas do álbum, treze em praticamente meia-hora, é inegavelmente atual. O verniz vintage talvez tenha sido o único a ir embora da mistura perpetrada, ficando apenas as formas não totalmente concluídas, em meio ao clima de largação sonora intencional. Há momentos sensacionais em meio à proposta e topamos com eles em grande número ao longo das canções. Por exemplo, “PEACE”, a última faixa, é uma mistura de Rolling Stones com alguma coisa dos anos 1990, meio imprecisa, mas que gera um resultado que soa como … soul da Daptone Records misturado com vocais e sintetizadores. “CARRY”, a abertura do disco, tem uma levada encrespada de baixo sintetizado, bateria enlouquecida e a voz de El Khatib, tudo correndo na mesma direção com efeitos de guitarra que vão surgindo aos poucos. E, quando você se acostuma, a canção acaba aos 1:41 minutos. Sim, é isso mesmo.

 

“GLASSY” parece um rap em câmera lenta, psicodélico e imerso numa geleca, enquanto “ALIVE”, logo em seguida, tem potencial para ser uma espécie de hit do verão, com cascatas de sintetizadores e levada malandrona. “COLORS” é um r&b em alta velocidade, com bateria de lata, efeitos estranhos e a voz repetindo “shut it down, shut it down!”. Não faz sentido mas você volta várias vezes para ouvir novamente. De todas as faixas, apenas três vão além dos três minutos de duração: “ROOM”, que é uma versão 2020 de balada soul-pop de FM setentista; “LEADER”, uma doideira árabe que surge com tambores e vocais de canto e resposta endiabrados e “HOW”, que tem introdução cinematográfica com sirenes e clima de tensão, aumentados pelos vocais psicodélicos e saturados.

 

“FLIGHT” é uma pequena aula de reinvenção e modernidade, conceitos que, se colocados em mãos erradas, geram conclusões e apropriações muito irritantes. Nas mãos de Hanni El Khatib, ambas as noções estão a serviço de fazer música de um jeito leve e muito inventivo. Recomendadíssimo.

 

Ouça primeiro: “ALIVE”

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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