Rock In Rio 2019 – Crônica do Primeiro Fim de Semana

 

 

Vocês sabem: estamos cobrindo o Rock In Rio 2019. Não estamos em todos os dias do festival lá na Cidade do Rock. Estivemos no dia 28 e voltaremos em 03 e 06 de outubro, procurando resenhar os principais shows e mostrar alguns aspectos interessantes do evento, geralmente esquecidos ou desprestigiados pela mídia normal. Nas outras datas, estamos cobrindo diretamente do sofá de casa, algo aceitável por conta das circunstâncias que cercam um megaevento como o Rock In Rio e um site iniciante como a Célula Pop. De qualquer forma, estamos lá e vamos dizer o que rola naquele espaço.

 

Bem, é enorme. A Cidade do Rock é uma enorme Praça de Alimentação de shopping. O conceito é o mesmo, os quiosques e guichês de Bob’s, Habib’s, Ragazzo e outras marcas estão por toda parte, cercando o espaço que compreende os palcos e o próprio trânsito dos espectadores. Não há como fugir, especialmente porque a organização do RIR “desencoraja” o consumo de alimentos levados de casa. Então, se o sujeito não se virar com três esfihas a 20 reais ou três sandubas pequenos com chopp a 100 reais, terá que ver as apresentações com fome. Bem, haverá a oportunidade de comprar um Doritos pequeno por seis taokeys ou um copo de 400 ml de cerveja a … treze kitgays. Pelo menos é uma boa marca. De resto é isso aí.

 

Há todo um projeto para distrair a pessoa que comparece ao espaço. Tem stand de banco com dança eletrônica, de aplicativo de paquera, de gravadora e até coisas mais estranhas, como a presença de uma empresa de encomendas postais e uma tabacaria gourmet. Sem falar em lojas enormes de produtos oficiais do evento e aquelas atrações de tirar foto, vivenciar “experiências” e tudo que envolve a distração das pessoas. Afinal de contas, a Cidade do Rock é quase um parque temático. Enquanto você passeia, vai fazendo hora para os shows.

 

A gente sabe, há o Palco Sunset e o Palco Mundo. Além deles, atrações com música eletrônica, o Espaço Favela, a Nave (uma dessas instalações artísticas que mandam você se conectar com o planeta, com as pessoas, com a cultura etc e tal) mas a galera vai mesmo para ver os shows, certo? Então, aqui vai uma dica, o som do Palco Mundo cobre toda a extensão da Cidade do Rock, o que não acontece com o Sunset. Então, se você não quiser se espremer na frente das grades e tudo mais, basta se aproximar de um telão – há vários – e ver o show com – relativo – conforto. Digo isso porque tudo fica loucamente lotado ao cair da noite, com movimentos migratórios intensos e rápidos, quando há o intercalar de atrações entre os palcos. Portanto, esteja consciente de que uma multidão de pessoas vai te engolfar em segundos, de um show pro outro.

 

Como o tempo está chuvoso, há … alagamentos e poças. As pessoas tentam driblar, mas, à medida que a mente vai ficando enevoada pelo cansaço ou pelos chopps, a galera chafurda o pé com vontade no aguaceiro. As gramas sintéticas terminam a noite mais para pântanos sintéticos. Por outro lado, as instalações sanitárias e os postos médicos estão em número muito maior e bem situados. Há seguranças, apoio, enfim, dá pra se sentir seguro lá dentro.

 

E os shows? Bem, vocês viram as resenhas do dia 28. Achei a apresentação do Weezer a melhor da noite, seguido pelo Whitesnake. Tenacious D foi uma grande piada interna a céu aberto, sendo o resto pouco digno de nota, inclusive o Foo Fighters, que torrou a paciência com o falatório interminável e a chatice total de seu líder. Do que eu vi de casa, há a certeza de que Mano Brown e Iza representaram muito bem a música negra brasileira, com diferentes abordagens da riqueza harmônica e cultural que temos há tanto tempo. Dona Elza Soares, do alto de sua majestade, cutucou quem devia, mostrou tudo o que tem e deixou claro quem manda. Seu show é hors concours, é de outra dimensão. Dos gringos, não deu pra escapar: Bon Jovi deu seu melhor show no século 21 em termos de Rock In Rio.

 

E, claro, teve as chatices: o pop’n’coach da Jessie J; a matinê de Malhação com Detonautas; a incompreensível presença do Goo Goo Dolls; a interminável música sem melodia e refrão de Dave Matthews Band, a fanfarronice eletrônica do DJ Alok; o Xou da Ivete Sangalo; a semsalzice da Ellie Goulding e a não-presença de Drake, com suas bases pré-gravadas. Houve quem dissesse na Sala de Imprensa, que o canadense fez playback durante grande parte de seu show. Pessoalmente, acho Drake mais legal quando está assistindo jogos do Toronto Raptors. Aliás, é bom lembrar: o comentário mais popular na instalação que abrigou os jornalistas e profissionais de imprensa era: “estou velho pra isso”.  O pessoal mais veterano – eu incluído – sentiu as dores lombares e cervicais no dia seguinte, mas enfrentou com brio as longas distâncias percorridas.  De resto, lendo os artigos e textos publicados nos dias seguintes, a imprensa brasileira parece seguir sua fase de não criticar e não emitir opiniões sobre os shows. Salvo exceções honrosas, quase ninguém parece ver os shows com senso crítico, mas isso é papo para outro texto.

 

Algo louvável: muita criança, muita família, muita gente com necessidades especiais – vi cadeirantes e cegos – num clima harmonioso, digno de celebração.

 

Voltaremos nesta semana e mantemos o festival como nossa pauta principal até seu fim, no dia 06, quando publicaremos o enterros dos ossos, filosofias de botequim textos especiais e até uma sugestão de line-up ideal.

 

 

Foto: Libera Soldatelli

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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