Metaleiro por uma noite

Originalmente publicado no Scream & Yell, no dia 14 de maio de 2012.

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Eu e minha esposa acabamos de ver o mais recente DVD do Iron Maiden, “En Vivo”. Engraçado esse reconhecimento das bandas de rock pesado para com seus públicos latino-americanos. O AC/DC lançou “Live at River Plate”, um petardo gravado no Estádio Monumental de Nuñez, em Buenos Aires. O Maiden gravou um concerto inteiro no Estádio Nacional de Santiago, no Chile, numa turnê que passou pelos quatro cantos do mundo.

 

No caso do Mainden, o DVD duplo “En Vivo” traz o show na íntegra, parte da turnê “The Final Frontier”, nome do último disco de inéditas da banda, lançado no ano passado. O outro disco mostra um documentário minucioso sobre a tal turnê, nos mesmos moldes do filme anterior, “Flight 666”. Aqui, o Ed Force One, avião que o Maiden utilizou para percorrer o circuito da turnê reaparece numa versão Boeing 757, com mais autonomia de voo e espaço para carga redefinido. Entre ajustes técnicos e comentários de Bruce Dickinson, vocalista e piloto comercial, a banda mostra uma dedicação fora do normal para levar o máximo possível em termos de espetáculo ao máximo possível de pessoas em cidades desprivilegiadas pelo roteiro habitual das turnês de rock como Belém do Pará e Jacarta, na Indonésia.

 

A dedicação da equipe e dos integrantes é espantosa, revelando uma cuidadosa infraestrutura por trás daquele teatro musical que levam ao palco. Isso me levou a uma digressão, sobretudo ao ver, mais uma vez, que o público dominante em concertos dessa natureza é masculino. Não há espaço para discoletes, intelectuais, hipsters, emos, sertanejos e rappers: o negócio é para ogros fãs de rrrrock. E, por mais que algum blasé venha tecer comentários antropológicos zona sul, Bruce Dickinson, Steve Harris, Dave Murray, Nicko McBrain, Adrian Smith e Janick Gers são acima de qualquer suspeita num palco, sendo que Harris é um dos mais conceituados baixistas do metal em todos os tempos. McBrain é um baterista virtuoso e o trio de guitarristas – Murray, Smith e Gers – ergue uma parede de 18 cordas a cada show. Resta a Dickinson, um boa praça nato, dono de um dos registros mais marcantes do rock, manter essa unidade tática operante ao longo do show. E ele consegue plenamente.

 

Engraçado que voltei minha atenção ao Iron Maiden após meu casamento. Minha esposa é baterista e fã da banda desde seus primeiros discos, ainda com o vocalista anterior, Paul Dianno. Quando fomos morar juntos, a coleção dela trazia um grande número de álbuns do Maiden, inclusive meus prediletos, “Powerslave” (1984) e “Seventh Son Of A Seventh Son” (1987). O primeiro é um clássico, já o segundo é visto com má vontade pelos fãs mais radicais porque tenta enfiar um virtuosismo progressivo aqui e ali. Mesmo assim, amigos, mantendo o meu grau de honestidade nesses relatos quinzenais aqui no S&Y, preciso confessar que nunca fui muito fã de heavy metal. Sempre tive um pensamento que aliava a música à harmonia, a sons eminentemente não-agressivos.

 

A partir de um determinado momento de adolescência tardia, fui começar a prestar atenção e coisas mais pesadinhas na década de 1990, via grunge e “And Justice For All” e “Black Album”, do Metallica. Isso me fez retomar um caminho aberto a duros golpes dentro de um sertão musical onde havia lugar apenas para sons leves, bonitinhos e harmônicos. Lá na minha aurora como ouvinte dedicado de música, ainda no início da década de 80, está arquivado um pequeno flerte com o universo heavy metal, típico dos sujeitos que estão se tornando homens, precisando provar para o mundo e para si mesmos, que são durões, mauzões, machões e capazes de tudo.

 

Nada disso, no entanto, estava na minha mente quando dei de cara com a capa de “Powerslave” numa tarde qualquer do segundo semestre de 1984. Imagino que esse contato tenha acontecido numa livraria do Leblon, chamada Tempos Modernos, que, claro, não existe mais. Acho que estava com meu grande amigo na época, Claudio Ratton, que morava em frente à livraria. Nós dois e outro amigo, Jaime Biaggio, éramos fãs de Queen e estávamos ouvindo música “mais a sério” e empreendendo certa imersão no universo nascente dos clipes, até então novidade absoluta na programação televisiva brasileira. Víamos o FM TV (Manchete), Clip Clip (Globo) e os programas BB Videoclip e BB Videoroll (ambos da Record, se não me engano). Jaime gravava os clipes em fitas Betamax e nos reuníamos na casa dele para assisti-los com direito a comentários e outras nerdices. Era uma época de expectativa pelo Rock In Rio, cuja escalação contemplava o temível Dia do Metal, a se realizar em 19 de janeiro de 1985 quando se apresentariam Scorpions, Whitesnake, AC/DC e Ozzy Osbourne.

 

Nesse contexto surgiria o termo “metaleiro”, usado pela Globo para denominar o fã dessas bandas. O AC/DC nem poderia ser considerado uma formação de heavy metal, nem o Whitesnake, tampouco o Scorpions, estando os três muito mais para o terreno do hard rock e suas diferentes abordagens. O Iron Maiden (que abriria o festival em 11 de janeiro), sim, poderia ser chamado desse jeito. As letras satânicas, o sucesso do disco anterior “The Number Of The Beast”, cuja faixa-título era hit, as capas com variações sinistras do personagem simbólico do Maiden, Eddie, mostravam que havia algo ali.

 

Quando digo “havia algo ali”, significa que o simples ato de comprar “The Number Of The Beast’ era, de certa forma, transgressor. Você podia comprar “Back In Black” (AC/DC) ou “Love At First Sting” (Scorpions) sem qualquer problema. Comprar “The Number…” era um buraco mais embaixo. Nunca comprei o terceiro disco do Maiden. Nem “Powerslave”, o quinto, cuja capa eu estava vendo na Tempos Modernos ao lado do Ratton. Nela está uma pirâmide egípcia totalmente “from hell”, cujas estátuas de deuses foram substituídas por imagens sinistras do Eddie, além de detalhes tão pequenos de nós todos, como um impagável “Indiana Jones was here” e uma figura do Mickey Mouse, ambos pichados numa das estátuas. Aquilo era legal. Valia a pena ter uma camisa da banda com aquela imagem sensacional da pirâmide. Vejam, eu tinha 14 anos de idade. E ter essa idade em 1984/85, é muito diferente de tê-la hoje.

 

Em novembro daquele 1984, após algumas reuniões na casa do Jaime para ver mais clipes, surgiu a ideia de estragarmos a festa de aniversário de uma amiga da irmã mais nova do Ratton, Renata. Seria no playground do prédio do Jaime e era a chance para debutarmos como agentes do caos, da desordem e do mais puro mal heavy metal. Os três, devidamente paramentados, mais outro amigo do colégio, Fábio, nos organizamos para desarticular a festa, mas, sem saber exatamente como. Festinhas de playground eram a maneira nascente de celebrar aniversários e unir as turminhas de colégio e se dividiam em músicas rápidas – pra dançar – e músicas lentas, para tentar se dar bem com as meninas. No nosso caso, o contato com meninas no colégio era recente, datando do ano anterior, uma vez que o Santo Agostinho era uma instituição que deixara de aceitar apenas alunos do sexo masculino em 1983, abrindo sua sétima série para meninas. Eu, por minha vez, era um perfeito imbecil, preferia meu Autorama e minhas revistas de aviação militar, algo que Ratton também preferia. Estávamos então, talvez, descontando nossa invencibilidade nas festinhas, seja na hora da música rápida – porque tínhamos a desenvoltura de postes de luz dançando – ou da música lenta, na qual não arrumávamos absolutamente nada nem ninguém. Mas, você pode perguntar, como destruímos a festa e desempenhamos nossa função não-declarada de agentes do caos?

 

Limitamo-nos a aparecer no meio dos colegas da irmã do Ratton, que deviam ser uns dois anos mais novos que nós, vestidos com camisas do Iron Maiden. A simples aparição de meninos maiores que a média de convidados da festa, sobretudo trajados daquele jeito hediondo, deveria causar pânico e temor. Não causou. Não tivemos nem a criatividade de sabotar o preparo de algum salgado ou cortar o fio do aparelho de som, dois atos que, certamente, atrapalhariam de fato o andamento da festa. Em vez disso, acabamos num canto, nos entreolhando e decidindo amealhar alguns salgadinhos restantes na cozinha.

 

O que quero dizer com esse episódio pra lá de micoso é que o heavy metal é um estilo musical que permanece como sinônimo de um ‘coming of ages’ na vida dos jovens nerds nascidos a partir da década de 1970. É aquele signo que usamos para mostrar aos outros que crescemos e/ou estamos ficando mais velhos, fortes, maus e capazes de lidar com a vida. Mais do que você, imbecil. Isso nem sempre dá certo, como o relato pode facilmente comprovar. O que nos une em 1984/85 aos sujeitos da plateia lá do Estádio Nacional de Santiago em 2012 é a mesma coragem de nos expormos diante de um ambiente estranho, usando uma espécie de armadura musical. Tem a ver com ser jovem, com ser ingênuo, com a impressão de que rock pode (ou poderia) nos libertar dos fracassos com o sexo oposto, com a fase pré-alcool, pré-drogas, pré-mundo adulto. Às vezes a gente fica pensando que deixou algumas coisas pelo caminho, certo? E as acha lá no meio do show do Maiden no Chile.

 

PS: Malditos padres agostinianos recoletos que, somente após nossa passagem pelo colégio, admitiram integralmente as meninas no Santo Agostinho. FDP’s!

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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