Livia Nery – Estranha Melodia

 

 

Gênero: MPB, eletrônico
Faixas: 13
Duração: 42 min
Produção: Livia Nery, Curumin
Gravadora: Máquina de Louco

4 out of 5 stars (4 / 5)

A música brasileira que importa atualmente, se equilibra num interessante binômio eletrônica/tradição. Seja pela facilidade e do manuseio ou pelo custo mais baixo, a eletrônica se tornou um meio importante na elaboração de discos e faixas de uma infinidade de artistas. Ao mesmo tempo, muitos deles ostentam suas origens e traços personalíssimos como elementos formadores de sua própria identidade artística e a busca de uma simbiose entre a modernidade e o passado se torna decisiva para o resultado criativo. Livia Nery, baiana, produtora, instrumentista, arranjadora, compositora e mais uma série de adjetivos e predicados, é uma destas artistas que imprime sua marca com clareza. Um pé nas tradições musicais/existenciais de sua Bahia natal, outro pé em 2019, neste deserto de realizações que se tornou o país. “Estranha Melodia”, o resultado disso tudo, traz uma espécie de “eletrônica artesanal”, termo que o release do álbum usa para definir o som que sai das caixas de som. É bem por aí.

 

O disco tem treze faixas que pisam no chão de terra da memória afetiva, dos lugares, dos cheiros, das manhãs de planos para o futuro e se ancora, simultaneamente, numa espécie de inventário de realizações e resultantes dessas sementes plantadas. Ao mesmo tempo, Livia também oferece um acesso às suas percepções de mundo num plano muito pessoal. É visão do cotidiano mas é um diário de sensações muito humanas, que perpassam por letra, música, arranjo e tudo mais. Esta produção tem violões, percussões, impressões e todo um arcabouço eletrônico, que pode assumir ou não o protagonismo sonoro. Às vezes os sintetizadores e beats ficam quietos num cantinho, noutras eles vêm para o primeiro plano, passando docemente pelos instrumentos tradicionais e gerando esta agradável sensação de claro/escuro que emana das canções.

 

Livia produziu o disco com Curumin, uma das cabeças mais privilegiadas em termos de som nestes primeiros vinte anos do século 21. Tem experimentação que cativa, não que estranha. O disco tem a marca do selo Máquina de Louco, do pessoal do BaianaSystem e, hoje em dia, é um belo pedigree. A partir dessa abordagem de moderno/tradicional, às vezes surge um pop universal que dá gosto de ouvir. Três faixas resumem bem isso. A primeira canção, justo a faixa-título, é uma aula de como colocar a eletrônica a favor do todo. Há algo que remete à elegância de uma Sade Adu no arranjo, que tem baixo funkeado em câmera lentra, metais elegantíssimos, vocais de apoio que surgem do nada e um inegável senso de existência na cidade grande, algo que vem de dentro, com espaço e gentileza da naturalidade dos fatos.

 

A Bahia profunda está presente na melodia belíssima de “Ave Sal”, que tem jeito de beira do mar, olhar perdido e algo que poderia pertencer a uma composição perdida de um Guilherme Arantes, ele que reside na Bahia há tanto tempo. O arranjo tem teclados em primeiro plano, economia no instrumental e letra de quem viu o desenrolar de um cotidiano que já ficou pra trás acontecer preguiçosamente por muito tempo. A jornada diária, o ir e vir para o trabalho que vai enriquecer apenas o patrão surge na bela “Pra Trabalhar”, que evoca um outro tempo num mesmo lugar. Tem samba, tem palmas, tem reggae e tudo o que deve ter. Estas três faixas resumem a beleza que vem do disco.

 

Lívia Nery é um talento que surge naturalmente. Basta ouvir suas canções e notar a engenhosidade que ela imprime quase sem força. Tudo por aqui funciona como deve ser. É um raro caso de Brasil que dá certo porque deve dar. Uma lindeza.

 

Ouça primeiro: Estranha Melodia

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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