Revista Pop

 

Acredito piamente que nossas escolhas estéticas de infância-adolescência formam nosso caráter. Estas escolhas, intuitivas ou não, subjetivas ou não, acabam nos moldando. Como explicar que,  por exemplo, no início dos anos 70 você prefira assistir Família Adams ao invés de Noviça Voadora, e Urso do Cabelo Duro ao invés de Scooby Doo? Ou ler a Mad, a Patota (que tinha Mafalda, Zé do Boné, Hagar e Charlie Brown) ao invés dos heróis da Marvel?. Enfim, escolhas, e fundamental mesmo na formação do meu caráter, por mais duvidoso que ele seja, foi a revista Geração Pop, ou simplesmente Revista Pop.

 

O primeiro número, publicado em 1972 trazia como destaques matérias sobre praias na Bahia, motocicletas, B.J.Thomas e um poster com nada mais nada menos que Chico Buarque. Com a revista, a editora Abril, que já tinha o  público de classe-média garantido com a Veja, o universitário com a Realidade e o feminino com a Cláudia, pretendia ganhar o público jovem, recado claro dado no primeiro editorial. “Este é o primeiro número da primeira revista da nossa idade. Feita especialmente para você, jovem de quinze a vinte e poucos anos. Com coisas do seu interesse, que, além de informar e divertir, também sejam úteis. Indicações para você comprar as últimas novidades em discos, livros, aparelhos de som e fotografia, máquinas e motocas, roupas incrementadíssimas. Orientação na escolha de uma profissão, reportagens sobre assuntos da atualidade. E muita música, claro”.

 

Vale lembrar que era o auge da ditadura militar, 72 foi o ano do marco-extraordinário-sesquicentenário da independência, e uma parte das jovens cabeças (pensantes ou não deste país) tinham aderido ao desbunde-arembepe-hipismo tardio como uma opção hedonista para escapar do massacre moral e cívico imposto pela gorilada.  E a Pop sabia como agradar esta turma: matérias sobre viagens de carona (os mochilões de hoje), skate e surf (os reis de Dogtown eram figurinhas carimbadas por lá),  de  moda (pra quem não podia comprar as importadas Hang-Ten, o negócio era se vestir de Gledson), macrobiótica, filosofias orientais e todo aquele gigantesco leque do que hoje chamamos de cultura alternativa que já naquela época começava a pipocar por aqui.

 

Comprei meu primeiro exemplar em 75, seduzido por uma matéria sobre a Suzi Quatro. Como eu gostava da Suzi Quatro! A capa de seu disco, ela de jaqueta de couro e a banda, todos com cara de bandidos, um deles mandando ver numa garrafa de cerveja, e eu nem sabia que aquilo era “atitude”.   Mas enfim, o que me interessava mesmo na revista era um jornal que vinha encartado o “Hit Pop”. Foi no “Hit Pop” que descobri grupos como Bendegó, Barca do Sol, O Terço, Casa das Máquinas, entre outras. A pluralidade era megablaster, com matérias sobre Gerson King Combo, Lady Zu, Banda Black Rio, Nazareth, Deep Purple, Hermeto Paschoal, Peter Gabriel, Stevie Wonder, Cat Stevens, enfim, o que rolava na rádio, ou não, aparecia por lá. Entre 74 e 75 Elton John reinou absoluto, entre 76 e 77, Rod Stewart e em 78, muito, mas muito Peter Frampton. Rolavam entrevistas, muitas delas antológicas, como a do Fagner falando mal dos baianos “Os Novos Baianos acabaram quando trocaram a corda de aço pela corda de nylon, culpa do João Gilberto”. Ou de Gil saindo da lamentável prisão em Florianópolis.

 

O time de colunistas era de primeira: Okky de Souza, Ana Maria Bahiana, José Emilio Rondeau, Ezequiel Neves, entre outros. Ezequiel Neves tinha uma coluna onde noventa por cento das vezes ele escrevia sobre os Rolling Stones e a partir de 78, eu acho, ganhou uma nova coluna, com a alcunha de Zeca Rotten, pra falar exclusivamente do movimento punk. Me lembro de ficar enfurecido com um artigo onde ele dizia que o Kiss era aquela banda que você amava aos 14 anos e que as 19 provavelmente você não iria escutar nunca mais. Ele quase acertou. Eu parei de ouvir o Kiss com 19, mas voltei a ouvir depois dos 30.

 

No final dos anos 70 a revista mudou, para pior, ela passou a ter duas capas e vinha dividida, com os lados invertidos, metade ainda era a velha pop, mas a outra era de lascar, mais modinha teen, quase uma futura Capricho. Não sei exatamente o motivo da Pop ter acabado, provavelmente a crise econômica que iria levar pro brejo o regime militar na década seguinte. Ou talvez um descompasso geracional mesmo, considerando que muita gente desbundada, naquele momento, já estava vestindo terno e gravata e como dizia aquela canção “estava em casa, guardada por deus, contando vil metal”. O Brasil do general Médici de 72 não era o mesmo com o general Figueiredo em 1979. Um paralelo interessante de como o país tinha mudado: Rita Lee, uma das musas da revista, em 1972, era uma pós-mutante com “Hoje é o Primeiro dia do Resto da Sua Vida”. A Rita Lee de 1979 estourava com “Mania de Você” e se preparava para virar a rainha do pop nacional, agradando a baianos e goianos, rebeldes e domesticados no ano seguinte.  Teria sido interessante ver a Pop acompanhar o boom do BB rock e dos shows internacionais que rolaram nos anos 80. Este papel coube, sem o mesmo charme à Bizz. Mas quem foi jovem nos anos 70 no Brasil, e já tinha algum caráter, mesmo que duvidoso, leu Geração Pop. Escolhas, escolhas.

 

Ps: tem um maluco beleza que colocou todas as edições da revista na rede: http://velhidade.blogspot.com

Fabiano Maciel

Fabiano Maciel é cineasta. Dirige programas de TV e documentários  como  "A vida é um sopro", sobre Oscar Niemeyer e está lançando "Sambalanço, A Bossa que Dança". Mas o que ele queria mesmo era tocar baixo ou maracas em uma banda cubana.

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