A belezura dos Titãs em Televisão

 

 

“A televisão me deixou burro, muito burro demais” – Titãs, proféticos, há 35 anos

 

Pouco ou nada se fala sobre a carreira de Titãs antes do lançamento do terceiro disco, Cabeça Dinossauro, em 1986. Mesmo que este tenha sido um dos maiores vendedores do Rock nacional oitentista, cheio de hits, além de verdadeiro momento de mudança na trajetória da banda paulistana, o quase total esquecimento em relação aos dois primeiros trabalhos é lamentável. Talvez seja justificado pela sonoridade confusa de Titãs (1984) e Televisão (1985), fruto de problemas com os produtores, no caso, Pena Schmidt e Lulu Santos, respectivamente. Televisão foi pensado e gravado com um conceito central, que via as canções como emissoras, cada uma com seu público e programação próprios. Era audacioso, era necessário, era a chance de melhorar a impressão do primeiro trabalho.

 

Não que Titãs não tenha feito sucesso até o segundo trabalho, um de seus maiores hits foi Sonífera Ilha, com suas guitarras emulando timbres do Dire Straits. Outra canção que teve bom desempenho nas paradas de sucesso foi Toda Cor, mas a banda não ficou satisfeita com o resultado das gravações. Para melhorar as coisas, o guitarrista Tony Bellotto sugeriu Lulu Santos para pilotar o estúdio, ideia que foi aceita pela totalidade dos integrantes. Com as credenciais obtidas após o sucesso do Rock In Rio, o Rock nacional era a novíssima música feita no país, responsável pela inédita prevalência de produção brasileira sobre a estrangeira na programação das rádios do país. A Warner, detentora do passe do grupo, acenou com orçamentos e prazos pra lá de confortáveis. Lulu Santos, que também era contratado da gravadora, já elogiara Titãs em diversas entrevistas, foi recebido no estúdio como velho camarada da banda. Ouviu o repertório, deu palpites, decidiu participar de algumas canções, se espalhou e tentou se enturmar com o círculo fechado que caracterizava as relações entre os músicos.

 

Em pouco tempo, as sugestões do produtor eram rechaçadas, mas nenhuma foi tão mal recebida pela banda como o veto que Lulu queria fazer à faixa título, justo pelo verso “a televisão me deixou burro, muito burro demais e agora eu vivo dentro dessa jaula junto dos animais”. Ele alegara que as bandas e artistas naquele momento também faziam parte da televisão e que a frase soaria como um tiro no pé. Titãs não mudou de opinião e uma conversa entre a banda na sala de gravação do estúdio, criticando as atitudes do produtor, foi ouvida por Lulu sem que o Titãs soubesse. A partir daí a relação passou a ser profissional, sem qualquer sombra de camaradagem. O aviso da Warner, reduzindo o prazo de gravação do disco de um mês para quinze dias, também atrapalhou o processo criativo da banda e a interação com Lulu. Mesmo assim, é um disco que tem inúmeros momentos interessantes, bem distante da superprodução que Liminha traria a partir do álbum seguinte. Além da redução no prazo, a gravadora já escolhera promover o primeiro disco de Ultraje A Rigor, Nós Vamos Invadir Sua Praia, deixando Televisão numa posição secundária.

 

O principal traço da primeira fase da carreira de Titãs, o humor, ainda está presente no disco. O primeiro single, Insensível, tem letra irônica e vocais de Sérgio Britto no meio termo entre a tristeza e a ironia. A faixa título, um Rock concreto e cheio de crítica social, tornou-se grande clássico da carreira da banda. A utilização da frase “Ô, Cride, fala pra mãe”, bordão do veterano humorista Ronald Golias, foi autorizada por este, que viu sua agenda de shows e apresentações renascer das cinzas. Pavimentação é um Funk no sentido Talking Heads do termo, enquanto Pra Dizer Adeus, que seria sucesso em 1997 com o lançamento do Acústico MTV da banda, aparece aqui em sua forma original, um Reggae, com guitarras do próprio Lulu. Não Vou Me Adaptar traz maravilhosa letra sobre a passagem do tempo e o Doo-wop estilizado aparece brejeiro na surpreendente Sonho Com Você. A grande surpresa do disco, no entanto, é a faixa de encerramento, a incendiária Massacre, que tem arranjo muito próximo do Hardcore mais clássico e abriria uma estrada para canções sujas e pesadas a serem gravadas pela banda mais tarde, como Cabeça Dinossauro, A Face Do Destruidor, entre tantas outras.

 

Com vendas que não ultrapassaram as 25 mil cópias, número muito reduzido na época, Televisão permanece numa injusta “segunda divisão” de álbuns da carreira da banda. É cheio de boas canções, boas intenções e padeceu de imprecisões no estúdio. Hoje em dia, em tempos tão assépticos, esses pequenos “defeitos” são louváveis até como qualidades.

 

Texto publicado anteriormente no Monkeybuzz, em 05 de maio de 2014

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

Um comentário em “A belezura dos Titãs em Televisão

  • 28 de julho de 2020 em 14:08
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    Vou até ouvir um pouco de Titãs agora. Três deste disco estão entre as músicas deles que mais gosto.

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