Projeto Gemini – Duplamente Ruim

 

O trailer ilude os fãs de ação com toques de ficção científica: Will Smith, inegavelmente um bom ator, enfrenta uma versão mais jovem de si mesmo, numa sucessão de cenas pirotécnicas, perseguições em motocicletas, tiroteios e tudo mais. Logo pensamos: caramba, clonaram o Will. E vemos o nome de Ang Lee na direção. Também aparecem os nomes de Clive Owen e da maravilhosa Mary Elizabeth Winstead no elenco. É o que falta pra marcarmos a data da estreia do longa na nossa agenda mental. Certo? Errado.

 

“Gemini Man” é muito, mas muito ruim. O tom sereno e filosófico que Will confere a seu personagem, o agente Henry Brogan, é irritante desde a primeira cena. Henry é um ex-fuzileiro naval, recrutado para “levar a democracia” para várias partes do mundo. Esteve no Panamá, na Somália, no Kuwait, trucidando e matando “terroristas” e “inimigos da democracia”. Se isso fosse um serviço tão nobre assim, ele não viveria a crise de consciência que o leva a pedir sua aposentadoria. Ele é desses sujeitos capazes de matar um sujeito num trem-bala a dois quilômetros de distância, logo, sua retirada da ativa vai causar, digamos, uma demanda por matadores com tamanha habilidade.

 

Mas Henry é zen, não quer guerra com ninguém (rima involuntária) e pretende passar seus dias nas ilhas próximas à Georgia, pescando e refletindo. Aí ele descobre que não é bem assim. Ele foi enganado e matou uma pessoa que não deveria e tudo se volta contra ele. Com a ajuda da agente Danny Zakarweski, Henry vai atrás dos vilões, reencontrando Clay Verris, um antigo comandante, que dirige uma divisão de “mão de obra terceirizada” para as forças armadas, chamada Gemini.

 

O que Henry não sabe, é que Verris cria um clone seu como se fosse um filho, chamado … Clay Junior. E, sim, é uma versão mais jovem e supostamente aperfeiçoada que vai no encalço do arrependido Henry, que, apesar de seu tom filosófico e sereno, não hesita em voltar a matar por atacado, sempre que possível. No fim das contas, clone e original se entendem, ficam amigos/irmãos e percebem um inimigo em comum, o qual se verá em maus lençóis.

 

“Projeto Gemini” é horroroso, mesmo. O roteiro é um festival de pontas soltas, a atuação de Smith é próxima do constrangedor, o clone – apesar de impressionante – é patético em sua aflição diante do mundo e dá pena ver uma atriz ótima como Mary Elizabeth sendo colocada como um enfeite existencial numa gororoba como esta. Nada se salva.

 

Não dá nem pra achar legal uma briga entre o Will Smith de “Um Maluco no Pedaço” contra o Will Smith de “Eu Sou A Lenda”. O tom dos personagens nos faz até sentir culpa por isso. Não veja, a menos que você tenha duas horas de sobra pra gastar.

 

PS: fique atento/a ao final e testemunhe uma das sequências mais constrangedoras dos últimos tempos.

 

Gemini Man, EUA. 2019
De Ang Lee.
Com Will Smith, Mary Elizabeth Winstead, Clive Owen.

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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