Neil Young – Homegrown

 

 

Gênero: Folk, rock

Duração: 35 min.
Faixas: 12
Produção: Neil Young, Elliot Mazer, Ben Keith, Tim Mulligan
Gravadora: Silver Bow/Reprise

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

 

Que tipo de artista grava um álbum como “Homegrown” e … não lança? Eu vos respondo: Neil Young em sua borbulhante, ainda que dolorida, primeira metade de década de 1970. Agora, 45 anos depois, o disco vem se posicionar na narrativa youngiana da época, encontrando seu espaço em meio às narrativas sobre as perdas que Neil experimentou então, especialmente, seu amigo de Crazy Horse, Danny Whitten – morto por overdose – e sua esposa Carrie Snodgrass, cujo relacionamento com ele se deteriorava à luz do dia, sendo, portanto, o tema principal das canções que compõem o disco. Só para você ter uma ideia, ao não lançá-lo na época, entre “On The Beach” e “Zuma”, Young optou por soltar “Tonight’s The Night”, que ele compusera e gravara um ano e meio antes. Ou seja, em cerca de dois anos, o cara tinha estes quatro álbuns clássicos. Pois é.

 

Neil decidiu soltar “Homegrown” agora, como parte de sua “Archives Series”, que vem fazendo a delícia de seus fãs de longa data. Sendo assim, podemos apreciar este feixe de canções com olhos já amadurecidos pelo tempo, o que, sinceramente, não compromete em nada as audições e entendimento das faixas. É um trabalho em que Young abre seu peito para o ouvinte, tornando-o quase cúmplice da falência de sua relação com Snodgrass, algo que ele faz sem culpa e com a consciência limpa. É como se os 35 minutos das doze faixas funcionassem como uma sessão de terapia, na qual pedíssemos para ele falar tudo o que estivesse apertando seu coração e, como alguém interessado em melhorar, ele, simplesmente, falasse.

 

Outra sensação que permeia o disco é a noção de que Young estava fazendo exatamente o que queria/precisava, sem preocupação com algum detalhe comercial ou algo no gênero. São doze canções em que ele transita pelo folk, pelo rock e pelo blues sem muita preocupação em dar algum acabamento state of the art. Pelo contrário, a impressão que temos é de que ele está relaxando, se divertindo – ou se aliviando – enquanto exorciza os sofrimentos que o afligem. A justaposição entre, por exemplo, “Florida” e “We Don’t Smoke It No More” é emblemática. A primeira tem a “letra” murmurada por Young em meio a um instrumental aleatório, como se ele nem soubesse que estava sendo gravado. A segunda é um blues que mais parece um ensaio, com grande destaque para a guitarra e para o piano, numa levada relaxada, mas nunca indigente.

 

Mas há momentos de entrega absoluta de emoções. “White Line”, por exemplo, é uma lindeza impressionante, que começa com o verso “I came to you when I needed a rest”, iniciando uma das matadoras canções folk’n’gaita que Young sempre fez tão lindamente. Detalhe: sua gravação mais conhecida do público é de “Ragged Glory”, de 1990. “Separate Ways”, que abre o álbum, é outro momento de peito aberto, no qual ele fala sobre a possibilidade do amor diante de uma nova tentativa mútua, mas admite que é difícil e que pode não acontecer. A resignação é comovente e desconcertante. “Try” também é uma canção que vai por este mesmo caminho, de uma outra forma. E temos a raiva contida de “Vacancy” e as belezas já conhecidas de “Little Wing” e “Star Of Bethlehen”, outras duas faixas já registradas por Neil em outros álbuns.

 

“Homegrown” é lindo e árido, exala sinceridade e, sobretudo, vulnerabilidade, numa carreira tão complexa e vitoriosa como a de Neil Young. É audição obrigatória para fãs e um convite comovente para não-iniciados entenderem como se costumava colocar o coração na ponta do lápis na hora de compor canções. A tal ponto que, às vezes, você precisa de 45 anos pra adquirir coragem e lançá-las. Bravo, Neil.

 

Ouça primeiro: “White Line”

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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