Os burristas, os motociclistas e a CNN Brasil

 

 

Ontem o Rio de Janeiro mostrou sua mais recente vocação – a de cidade-berço do bolsonarismo. Numa demonstração inequívoca de desprezo pela pandemia da covid-19 e seus efeitos – desde os 450 mil mortos pela doença e pela CPI que investiga as ações e omissões do governo federal nas questões referentes à vacinação, implementação de medidas sanitárias e de afastamento/isolamento social, o ocupante da presidência fez um passeio de moto ao lado de uns 10 mil apoiadores. O trajeto dele partiu da Barra da Tijuca, perto do Parque Olímpico e percorreu ruas e avenidas até o Aterro do Flamengo. Quem conhece o Rio de Janeiro sabe que este itinerário privilegia a região mais elitizada da cidade, tristemente coalhada de apoiadores do atual governo.

 

Como se não bastasse a brincadeira – bolsonaro andando de moto, cirundado e seguido por uma turba de motociclistas burristas, o general eduardo pazuello, que prestou depoimento à CPI do Senado na semana passada, na condição de testemunha e de ex-ministro da saúde, compareceu ao evento, subiu num palanque e, ao lado da fauna burrista presente, abraçou o ocupante da presidência e, em retribuição ao seu apoio, foi chamado de “meu gordinho”, pelo chefe da nação.

 

Enquanto isso, no chão do Aterro, a turba burrista mantinha seu comportamento padrão, bradando contra o comunismo internacional, ofendendo a imprensa e destilando ódio em várias direções. Até que eles notaram a equipe da CNN Brasil, liderada pelo repórter Pedro Duran, que cobria a ocasião. Partiram pra cima dos profissionais com fúria, ofendendo-os e à emissora, com palavras como “lixo” e “CNN lixo”. Não fosse a intervenção da Polícia Militar, que despachou mais de mil agentes para fazer a segurança do evento, Pedro Duran talvez fosse vítima de uma tragédia. Ele precisou ser escoltado até um carro da PM e retirado do local.

 

É triste ver a imprensa brasileira nessa posição. Mas não é totalmente lamentável, se esperarmos que algum executivo nos altos escalões dessas empresas perceba que a restrição à liberdade de atuação de um profissional do jornalismo é a restrição à própria atuação da emissora. Como criticar o burrismo se a CNN dá espaço para pessoas como alexandre garcia, caio coppola e tomé abduch, defensores/passadores de pano do bolsonarismo mais rasteiro? Como defender a CNN se estes “profissionais” aparecem frequentemente em sua programação defendendo todos os absurdos do governo federal, relativizando as posturas, passando pano para o tratamento com ivermectina e cloroquina da covid-19 e fazendo vista grossa para o desprezo do ocupante da presidência para com qualquer coisa que ele discorde?

 

A CNN e qualquer veículo de imprensa que relativiza o que vivemos no Brasil desde 2018 – para não falar desde o golpe que tirou Dilma do poder – está, ao mesmo tempo, sendo expulso da manifestação de ontem e entrando para a história como fiador deste governo. Depois não adianta voltar em horário nobre, décadas depois, pedindo desculpas. Não adianta porque vários terão perdido a vida, a casa, o emprego, o futuro.

 

A imprensa brasileira é fiadora do que vemos hoje. Foi fiadora da eleição de 2018, não apurou os eventos que constituíram a fraude jurídica e eleitoral da lava-jato. Se ela – a imprensa – puder, ainda é capaz de escrever uma carta de amor bandido a sergio moro. E, quanto a bolsonaro, ela foi OMISSA.

 

Agora, tempos depois, burrismo instaurado, 450 mil mortos, ladeira abaixo em todos os indicativos civilizatórios e econômicos, o Brasil vive esses momentos.

 

Solidariedade a Pedro Duran.

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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