Gal Costa – A Pele do Futuro Ao Vivo

 

Gênero: MPB
Duração: 99 minutos
Faixas: 21
Produção: Pupilo
Gravadora: Biscoito Fino

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

Gal Costa, assim como Caetano Veloso, encontrou uma fórmula muito bem pensada para seus discos ao vivo. Após cada álbum de inéditas, percorre o país com uma turnê na qual apresenta algumas canções pinçadas e as incorpora a um repertório que encapsula um pouco/muito da história musical do Brasil. Geralmente este movimento compensa eventuais falhas nos discos de estúdio e serviu como uma luva para Caetano em discos como “Zii e Ziê” ou “Abraçaço”, que eram ok em suas versões de estúdio mas que se tornaram espetáculos superlativos. Com Gal a lógica seria esta, se “A Pele do Futuro”, disco dela de 2018 não fosse um dos melhores trabalhos de sua carreira desde, sei lá, o início dos anos 1980. E o show, como queríamos demonstrar, é um arrasa-quarteirão.

 

Gravado em duas noite de março na Casa Natura Musical, “A Pele do Futuro ao Vivo” é um acerto do início ao fim. Lançado também em DVD, o show cobre 50 anos de carreira de Gal. Pense bem, é meio século. O Brasil em 1969 tinha menos da metade da população que tem hoje. É um registro histórico mesmo, sem aliviar nas responsabilidades e implicações. Gal sabe muito bem e traz uma banda capaz de atualizar as composições e, ao mesmo tempo, mantê-las com algum verniz temporal intacto. No meio do percurso – 21 faixas no CD – ela revisita muitas fases de sua carreira e muitos brasis. Tem a terrível virada de anos 1960/70, em plena ditadura civil-militar, com maravilhas que vão de “London London” a “Sua Estupidez”, passando por “Dê Um Rolê”, de Caetano Veloso, Roberto Carlos e Novos Baianos, respectivamente.

 

Só com esta trinca já é possível ver o brilho das credenciais de Gal. Mas ela tem muito mais para oferecer. Tem “Mamãe Coragem”, dos tempos da Tropicalia, tem “Vaca Profana”, de um Caetano encantado com Barcelona, tem Jorge Ben e sua intocável “Que Pena” e um iluminado Teago Oliveira, com sua impressionante “Motor”, num arranjo psicodélico clássico, que a torna uma igual entre tantos clássicos. Em meio a tantas interpretações poderosas, mas conhecidas, ainda há espaço para algo inédito: Gal colocando voz em “As Curvas da Estrada de Santos”, de Roberto Carlos em sua “fase soul”.

 

A Gal fã de pop music nacional dá as caras também. Seja na interpretação de “O Que É Que Há”, sucesso novelesco de Fábio Jr, seja na recente e dançante “Sublime”, sua faixa “disco music” do último álbum. “Azul”, de Djavan, também dá as caras, assim como “Chuva de Prata”, cujo original, de 1984, tinha o Roupa Nova como banda de estúdio. Também tem espaço para a reverência em “Minha Mãe”, emendada com “Oração da Mãe Menininha do Gantois” e a celebração junina/baiana de “Bloco do Prazer”, “Balancê” e “Massa Real”, todas unidas num pot-pourri invencível.

 

Se você está se perguntando sobre a voz de Gal, ela está lá, devidamente adaptada para a realidade de sua idade. Não paira sobre as músicas como se fosse uma entidade divina, mas é capaz de preencher espaços e achar novas nuances para canções imortais. “A Pele do Futuro ao Vivo” é uma sucessão de belezuras imperdíveis.

 

Ouça primeiro: “As Curvas da Estrada de Santos”

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

Um comentário em “Gal Costa – A Pele do Futuro Ao Vivo

  • 19 de setembro de 2019 em 09:07
    Permalink

    parei em – “se “A Pele do Futuro”, disco dela de 2018 não fosse um dos melhores trabalhos de sua carreira desde, sei lá, o início dos anos 1980”

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