O Luã, a Anna e o Jonathan Topper
Quando comecei a listar autores e autoras pra ler durante meu período de férias, tentando, principalmente, me atualizar sobre a produção de literatura pop na última década, bati de frente com dois que conhecia bem: David Nicholls e Jonathan Tropper. O primeiro me deu calafrios. Olha só, eu gostei de “Um Dia”, o livro, e gostei um pouco menos de “Um Dia”, o filme – principalmente porque fico mal vendo a Anne Hathaway sofrer, o que significa que também tenho meus problemas com aquele episódio da primeira temporada de “Modern Love” com ela, tadinha… — mas já quando chegou “Um Dia”, a série, eu não quis ver mais que metade do primeiro episódio porque meio que chega, sabe? Eu li outros dois livros do Nicholls logo depois de “Um Dia” e a verdade é que ele é chato, formulaico, meio mala, e acertar, acertar mesmo, ele só acertou com “Um Dia”, o livro.
O outro foi o Jonathan Tropper, e se você já conversou comigo sobre livros descompromissados, é muito provável que eu já tenha falado dele, recomendado “Como Falar Com Um Viúvo”, talvez o “Sete Dias Sem Fim”, e comentado até que tem um filme baseado nele com o Jason Bateman no papel principal, mas que a cena do flagra dele com a esposa e o chefe na cama é infinitamente mais engraçada no livro. Engraçada do tipo precisar parar de ler pra me recompor. Pretendo voltar a ele em algum momento nos próximos meses.
Quem me ouviu falar de Tropper não há tanto tempo e eu nem lembrava até vê-lo publicando a respeito foi o Luã. Curiosamente, a indicação veio não por um livro, mas por conta do piloto da série “Seus Amigos e Vizinhos”, que eu acabei nem continuando a assistir, mas que tem Tropper como showrunner. Pra falar da série, citei o trabalho do autor, plantei ali uma semente e nem me liguei mais até o dia em que o Luã veio me contar que tanto ele quanto a Anna, sua esposa, tinham lido tanto o “Viúvo” quanto “Sete Dias”, e se divertido com as leituras.
Fico feliz que o casal tenha aceitado a minha sugestão até porque adoro os dois.
No último aniversário da minha companheira, Anna e eu tentávamos lembrar desde quando nos conhecemos, e a conclusão foi que é mais ou menos desde a chegada dela na minha cidade natal, nos primeiros anos de sua adolescência, quando eu acabava de entrar na vida adulta. Ligada nos 220, a Anna é tipo aquele esquilo do filme “Sem Floresta” logo depois de beber café — algo que, inclusive, ela faz bastante; mais ou menos uns 80% das nossas interações são trocando memes sobre o consumo exagerado e questionável de cafeína. Não consigo me lembrar em nenhuma ocasião perto dela de algum silêncio que tenha durado mais que poucos segundos.
O Luã eu nem mesmo lembro quando conheci. Era meio como se ele sempre estivesse por ali. O que lembro mesmo é da primeira vez que trocamos ideia durante o aniversário da Manoela, uma amiga em comum, quando uma das convidadas contava sobre precisar ser amarrada à maca quando vai ao dentista como se isso fosse uma coisa normal que vivesse acontecendo por aí, afinal quem é que nunca precisou de metros de fita crepe prendendo seus punhos a uma cadeira de dentista enquanto se faz uma limpeza, não é mesmo?
Nessas coisas de cidade pequena, um dia a Anna e o Luã viraram um casal. Hoje, moram num bairro vizinho e por Deus que eles são duas do total de umas 10 pessoas que eu convidaria para o meu casamento.
Cinco seriam da minha família.
Lembrando de como Luã e eu rimos dessa história do dentista, de como é alta a risada da Anna, e somando a isso a presença de duas crianças pequenas na casa do casal, consigo ter uma vaga noção do barulho que deve ter ficado aquela casa durante essa maratona de leitura.
O terreno dos personagens de Tropper é essencialmente o de famílias disfuncionais e homens em crise, tudo pontuado com toques de autodepreciação, diálogos rápidos, arcos de redenção de onde os personagens não saem lá tão redimidos assim, e muito humor de constrangimento, daqueles que te fazem rir de nervoso, de tensão, tipo colocar um idoso com demência se confundindo com os medicamentos e ficando excitado durante os rituais de velório da família vizinha enquanto todos tentam lidar com a situação de maneira prática. Um verdadeiro elefante na sala.
Um elefante de pau duro na sala.
Não sei se você já assistiu uma série chamada “Casual”, mas saca só: a irmã recém-divorciada morando com sua filha na casa do irmão rico e solteirão, mas com dificuldades de entrar em relacionamentos. Pois bem, puro Jonathan Tropper.
Os filhos tentando lidar com o pai idoso em processo de transição em “Transparent”? A “Fleabag” se declarando para um padre e ouvindo “vai passar” como resposta? Bem Jonathan Tropper.
O que me deixa particularmente orgulhoso da recomendação acertada que eu sequer lembrava de ter feito é que, embora espere que Luã e Anna não precisem lidar com situações do tipo vizinhos idosos em um episódio agudo de priapismo, eu facilmente consigo imaginá-los como personagens secundários de um texto do autor em questão.
A personagem principal provavelmente seria a garota com os punhos atados por fita crepe na cadeira do dentista.

Natural de Paracambi, nascido em 1984, Jorge Wagner é jornalista e trabalha com comunicação na área pública desde 2015. Produziu os tributos Jeito Felindie (2012) e Ainda Somos os Mesmos (2014). Em 2023, lançou o álbum Toda Forma de Adeus.
