ColunasDestacãoO CEL é o limite

Shakira e O Globo pelo feminismo e o Rio

 

 

 

Bacana o texto da Shakira-Shakira no globo. Sim, ela assinou um artigo sobre o empoderamento das mulheres latinas, falando de sua experiência pessoal e fazendo declarações de amor ao Brasil, ao Rio, ao povo daqui e tudo mais.

 

Tento, mas não consigo evitar as reflexões. Shakira é uma mulher latina, sim, mas uma das pouquíssimas que têm um privilégio material enorme. Isso não a desmerece, claro, mas certamente atenua muitas dores e situações cotidianas que a maioria esmagadora das mulheres latinas (e de muitas outras partes do mundo) vivenciam. Se ela fosse uma pessoa pobre, com nenhuma visibilidade, teriam publicado um texto como esse?

 

Shakira fala sobre o Rio, sobre a “música brotando em cada esquina”, sobre “a natureza da cidade”, sobre vários elementos, sobre o povo daqui “ter entendido há muito tempo que é preciso dançar”. Me pergunto se ela tem alguma ideia do que acontece na periferia da cidade, na Baixada, no constante descaso das autoridades e dos políticos escrotos que são eleitos. Se ela os criticasse, teriam publicado seu texto?

 

Por fim fico pensando se o globo publicaria texto de algum artista que oferecesse realmente perigo ou mudança substancial para a sociedade. Alguma atitude mais engajada, além das instâncias da ONU ou similares. Sim, porque uma coisa é a globo encampar lutas como feminismo e combate aos preconceitos, outra é fazê-lo como forma de atenuar suas propostas e exigências.

 

E mais – se as organizações globo não fossem transmitir o show de Shakira na Praia de Copacabana, com o apoio do Itaú e da prefeitura do grupo político de Eduardo Paes, com lucro projetado de 800 milhões de reais, ele publicaria algo assim?

 

Acho que Shakira é uma artista bem-intencionada. Usa sua obra para entreter e, na medida do possível, conscientizar. Já vale alguma coisa essa atitude.  Talvez o mal da gente seja refletir. Se não o fizéssemos, seríamos mais felizes. Mas eu sigo não abrindo mão disso.

 

Shakira que apresenta na Praia de Copacabana no dia 02 de maio.

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é mestre em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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