O patinho feio de “Star Wars”

 

Acho que ninguém vai lembrar do vigésimo aniversário da grande unanimidade negativa de “Star Wars”. Você, mesmo não sendo um fã da saga de George Lucas, deve saber do que estou falando. Sim, às vésperas do lançamento do último longa da série, “A Ascensão Skywalker”, o ano de 2019 também marca uma data para se recordar: os vinte anos de “A Ameaça Fantasma”, também conhecido como “Episódio I”, o filme que foi lançando em maio de 1999, teve a duríssima missão de retomar a história dos Jedis e dos Sith, tendo a família Skywalker como fio condutor. E, bem, sabemos todos que ele falhou miseravelmente em suas intenções.

 

Talvez os fãs mais ferrenhos encontrem algum valor em “Ameaça”. Aliás, eu, que já fui muito mais fã da série do que hoje, também encontro algo que se salve no filme. Mas está longe de ser um trabalho fácil. A curiosidade na época era enorme, dado o crescimento dos três primeiros longas da saga na cultura pop. Caso vocês não saibam, no início dos anos 1990 as pessoas pouco falavam na trilogia original, pelo menos, não do mesmo jeito que passaram a falar ao longo daquela década. Parecia que tudo se encerrara em “O Retorno de Jedi”, de 1983, e ponto final. Darth Vader/Anakin Skywalker fora salvo, o Império havia sido destroçado e tudo apontava para um final feliz. Apesar disso, “Star Wars” havia se desenvolvido como um poderoso referencial de literatura, com um universo próprio, amamentado nos subterrâneos, ao longo dos anos. Aos poucos, dadas as mudanças que a indústria do entretenimento viveu após o fim dos anos 1980, aos poucos o Cinema foi abraçando e naturalizando as sagas e sequências, como um meio pouco arriscado de faturas mais e mais.

 

A nostalgia foi batendo forte, os três primeiros filmes voltaram aos cinemas em versões remasterizadas feitas para o mercado de DVD, formato que relançou a trilogia original. Com o anúncio de que o próprio George Lucas estava dirigindo o novo longa e que, melhor ainda, a história se passaria antes do eixo cronológico dos primeiros longas, a ansiedade foi a níveis altíssimos. E em maio de 1999, “A Ameaça Fantasma” estreou em cinemas do mundo todo. Eu fui ver numa pré-estreia que ocorreu no Leblon, com vários sujeitos vestidos de Jedis encenando duelos com sabres de luz na frente das primeiras poltronas. Quando a tela se iluminou e os cármicos dizeres “Há muito tempo atrás, numa galáxia muito, muito distante” e, logo após, o inconfundível tema de John Williams invadiu a sala escura, uma sensação de reencontro comigo mesmo teve lugar. Era essa a meta da indústria: nos fazer consumir a mesma coisa, para nos lembrarmos de quem somos, através das obras veiculadas. Ok, não pensei em nada disso na hora, só tive que segurar o aperto na garganta. Afinal de contas, a última vez em que havia entrado num cinema para ver um filme de “Star Wars” fora dezesseis anos antes daquilo, num mundo que já acabara.

 

Só que, como você sabe, “A Ameaça Fantasma” é uma bomba nuclear. O filme é frouxamente dirigido, os diálogos beiram o patético e os novos personagens eram lamentáveis, liderados pelo imperdoável Jar-Jar Binks, um ser anfíbio, da espécie Gungan, que habita os mares do planeta Naboo, até então, nunca mencionado nos filmes originais. Ele é o ponto de partida desta segunda trilogia, situada cronologicamente antes da lançada entre 1977/1983. Basicamente o roteiro diz o seguinte: são os anos da República em que o sistema de governo foi corrompido pela corrupção e pela burocracia. Existe a Federação de Comércio, que impõe um bloqueio ao planeta Naboo, governado pela Rainha Padme Amidala, interpretada pela sempre ótima Natalie Portman, talvez o maior acerto do longa. Para descobrir o que acontece, o governo envia dois cavaleiros Jedi – Qui-Gonn-Jin e Obi-Wan Kenobi (vividos por Liam Neeson e Ewan McGregor). Lembro de ler uma crítica de jornal dizendo que a atuação de Neeson fora “hortifrutigrangeira” e, apesar de não conseguir explicar, concordei exatamente com isso.

 

Os Jedis começam a investigar e percebem que há um complô contra a República sendo armado. A partir daí, reviravoltas mil levarão os heróis a encontrarem um moleque chamado Anakin Skywalker, vivendo no meio da areia do planeta Tatooine. Além de gente boa e simpaticão, Anakin tem uma facilidade enorme em usar e dominar a Força, que é a energia que une todos os seres vivos, a alma mater dos Jedis, o que leva Qui-Gonn e Obi-Wan a cogitarem o treinamento do menino. Daí ficamos sabendo que o complô é maior do que se pensava, que ele pode envolver figuras da própria República e prepara o clima para o filme que o sucederia: “O Ataque dos Clones”, lançado em 2005, não sem antes proporcionar uma sequência belíssima de combate com sabres de luz, no qual os Jedis enfrentam uma figura sinistríssima: Darth Maul, o aprendiz do grande, imenso vilão oculto que paira sobre o filme. Detalhe: todo mundo sabe que este vilão é o futuro Imperador Palpatine, menos os personagens da trama.

 

“A Ameaça Fantasma” fez mais de um bilhão de dólares nas bilheterias mas o tempo não lhe caiu bem. Zoado pelos detratores da saga e tolerado por seus fãs, ele fica como o patinho feio das produções com o carimbo “Star Wars”, que seriam melhor representadas pelas sequências imediatas, o já citado “Ataque dos Clones” e “A Guerra dos Clones”, este, de 2008.

 

No saldo positivo temos:

 

– Natalie Portman, como Amidala, um papel correto e talvez uma das primeiras mulheres empoderadas desta nova/novíssima geração de filmes pós-milênio, fazendo jus à Princesa Leia.

 

– Ewan McGregor, como Obi-Wan, teve a duríssima missão de emular o mesmo sotaque de Sir Alec Guiness e se saiu bem, levando a imaturidade dos primeiros anos do personagem para o lado do convencimento total e abrindo espaço para um amadurecimento convincente.

 

– A corrida de pods em Tatooine, vencida por Anakin, derrotando um monte de concorrentes trapaceiros, lembrando os melhores episódios do clássico desenho “A Corrida Maluca”

 

– Darth Maul, um personagem sinistro e estranho, que quase não fala, mas tem uma aparência marcante e um sabre de luz duplo, algo que foi uma das maiores sensações na época.

 

– Os interiores do palácio de Naboo, que lembravam uma construção muito antiga, com detalhes verdes. Boa.

 

– Os caças da força aérea de Naboo, amarelos e, segundo o documentário que vem com a versão DVD do filme, com inspiração em carros dos anos 1950, para mostrar que a trama existe num passado em relação aos fatos da trilogia original.

 

– O ponto mais positivo: a impressionante “Duel Of The Fates”, peça sinfônica composta por John Williams, que percorre o filme quase totalmente, ganhando ênfase na corrida de pods e no duelo final. Com letra em gaélico e andamento sensacional, ela é totalmente nova em relação à música composta previamente por Williams para os filmes originais.

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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