O mundo em Copacabana

 

Morei 37 dos meus quase 50 anos em Copacabana. De lá saí pra morar em Macaé e voltei, menos de um ano depois. Para Copacabana. E passei uns seis meses na Tijuca. E só. O tempo restante – onze anos – vivo em Niterói, lugar que amei à primeira vista e no qual me sinto bem. Mas Copacabana, bem, ela é minha terra natal. Eu a conheço muito bem, quase sinto seus modos, seu clima. Ela me lembra de um monte de pessoas, lugares, sabores, cheiros, sensações que não mais existem. É como um parque de diversões fantasma, o qual, de uns anos pra cá, tenho evitado. Hoje, no entanto, por conta de um compromisso da minha mulher, precisei passar por lá. A sensação é sempre a mesma: a minha Copacabana não existe mais. Ou existe, de um jeito que eu não quero aceitar.

 

Minha mãe nasceu, viveu e adoeceu em Copacabana. As lojas de disco que eu amava visitar ficavam em Copacabana. As linhas de ônibus que me traziam de vários destinos que não visito mais, desembocavam em Copacabana. Lembro de ler um texto do Arthur Dapieve – ele também um copacabanense – falando sobre a sensação ruim de visitar o bairro e notar que as lojas haviam mudado. Onde antes havia uma loja de discos, passou a ter uma loja de roupas. Onde antes era uma sorveteria, agora é uma farmácia. E por aí vai. Dapieve, sempre ótimo com as ideias e as palavras, comparou a sensação de ver os fantasmas das lojas à do motorista de ambulância de Nicolas Cage em “Vivendo no Limite”, que vê os fantasmas dos pacientes que não conseguiu socorrer ao longo do tempo, enquanto vara a noite novaiorquina em busca de redenção. É mais ou menos isso: Copacabana é um parque de diversões fantasma.

 

Como tal, deveria ficar por lá mesmo. E todo o cuidado que os ex-copacabanenses têm de evitá-la se justifica quando, por necessidade, adentramos seus domínios. As ruas estão mais sujas, com mais gente morando nelas. Muitos turistas, muitos idosos, muitas empregadas domésticas. Muita gente indo e vindo. Muito carro. Quando vemos uma loja que resistiu ao tempo, topamos com o seguinte diálogo:

 

– Eu morava aqui na Constante Ramos e depois na Barata Ribeiro – digo eu.

 

– É mesmo? – O dono da Bomboniére Bolonha exclama com relativa sinceridade.

 

– Sim – eu respondo – mas agora moro em Niterói. Devo ter vindo aqui pela última vez há uns 20 anos.

Ele me olha com espanto. E desfere o golpe:

 

– Agora está muito pior, viu? Tá cheio de mendigo, pedinte, por tudo que é lado a gente tropeça neles.

E uma senhora, dessas copacabanenses convictas, que brotam do chão, arremata:

 

– Não é mendigo, não. É cracudo mesmo. Tudo cracudo – diz com raiva.

 

Em outros tempos – ou outros lugares – eu defenderia os necessitados e justificaria a miséria por conta da desigualdade social, proporcionada/aumentada por políticos eleitos pela senhora e pelo dono da loja, mas me dei o direito de apenas comprar dois Lollos – um pra mim e outro pra Maria, minha mulher, como se estivesse vinte anos mais jovem, num outro mundo.

 

Saí dali e, pouco mais de cem metros, topei com o prédio no qual morei entre 1991 e 2000, e depois, de 2005 a 2008. Pude ver, do outro lado da rua, que o porteiro – Aury – ainda estava lá. Maria, que me conheceu quando eu morava lá, insistiu para eu atravessar a rua. Relutei, sabendo bem que não se deve cutucar memórias copacabanenses tão sentimentais e sérias, mas cedi, afinal de contas, era mesmo inevitável.

 

Não transcrevo o diálogo que houve, mas apenas constatei ali que, não só ele se lembrava de mim, como perguntou por minha mãe, e ficou sinceramente triste quando soube que ela falecera há nove anos. Ali foi uma perda momentânea de sentido no tempo, afinal de contas, eu estava vinte anos mais jovem até então e, por questão de um segundo, todo o peso destes anos vieram de uma só vez ao meu encontro. E ao dele, talvez. Saí com a garganta apertada e sinceramente triste.

 

Copacabana é o meu bairro de origem. Lá andei de bicicleta, fui ao cinema sozinho pela primeira vez. Comprei aviões de montar nas Lojas Brasileiras, que não existem mais. Vivi uma vida de classe média sem qualquer vestígio das preocupações e responsabilidades que tenho hoje. Mas a experiência de voltar lá não é apenas um surto de nostalgia genérico. Ou a constatação da passagem inexorável do tempo. É como se lá, de alguma forma misteriosa, eu habitasse uma realidade que não avança no tempo. A Copacabana de então x a Copacabana de hoje é um cruzamento impossível de duas linhas paralelas e equidistantes do tempo. Sou eu x fui eu, de um jeito que não posso habitar as duas vertentes simultaneamente, a não ser quando estou em distância segura. Hoje, sempre que vou lá, essas duas linhas, essas duas margens se aproximam muito. A ponto de se confundirem e o final é sempre com a constatação irremediável de que o tempo passou, Copacabana mudou e eu também e a vida é assim mesmo.

 

Lá, eu bravateio contra o tempo, estão todas as pessoas, os cheiros, sensações, felicidades e doces tristezas de estimação. Guardadas, seguras e que devem continuar assim.

 

Um beijo, Copa. Fique bem, onde quer que você esteja.

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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