Guilherme Boulos em outro patamar

 

 

A esta altura do campeonato, você que lê a Célula Pop já sabe que somos um site com pensamento progressista e que não tem medo de se posicionar politicamente. Achamos sinceramente que esta postura é algo que devemos cultivar e que, na mesma medida que influencia a arte produzida, também irá influenciar o jornalismo que nós fazemos. Sendo assim, não poderíamos nos abster de falar alguma coisa sobre as eleições municipais deste ano, cujo segundo turno encerrou-se ontem, em 57 cidades do país.

 

Uma olhada no mapa eleitoral e na felicidade saltitante da mídia hegemônica irá apontar o que qualquer um vê: uma vitória acachapante da direita pragmática brasileira. Este termo, aparentemente cunhado pela jornalista Natuza Nery, da Globo News, significa algo como “direita civilizada”, uma variante que costumava existir por aqui até a chegada da mutação bolsonarista, que deu origem a esta horda que governa o país em âmbito federal.

 

Pois bem: esta mesma olhada no mapa irá mostrar que os bolsonaristas perderam na maioria dos lugares do país. Que a tal direita walking dead que eles representam, tende a se diluir nos partidos da direita pragmática, em que essa gente continuará defendendo suas posturas conservadoras e neoliberais, porém sem a espatacularização da burrice e da agressividade. Bem, isso é uma tendência a ser constatada. Se houve algo ensinado pelas eleições de 2018 no país é que qualquer coisa pode acontecer.

 

Sendo assim, para a mídia hegemônica e, tristemente, para o resultado das urnas, a disputa se deu entre direita pragmática e a direita bolsonarista, com a vitória da primeira. Pode chamar de “centrão”, “centro”, qualquer outro termo. Neste balaio, todos são de direita, o que significa, em termos práticos:

 

– contra medidas de redução da desigualdade social

– contra política externa independente

– contra instâncias públicas de saúde, educação, habitação e demais atuações do estado para fortalecer a cidadania dos mais pobres

– contra medidas de inclusão social

 

Estas instâncias identificam todos os integrantes da direita, seja ela de que escopo for. E, falando deste jeito, todos saíram mais ou menos vencedores no dia de ontem.

 

Se houvesse a vitória de candidaturas de esquerda em cidades como Recife, Porto Alegre e São Paulo, a felicidade contida dos jornalistas estaria ameaçada. O máximo que se conseguiu foi vitória de alguns candidatos do PDT em Fortaleza e Aracaju, além da grande exceção: o triunfo do PSOL na capital paraense. De resto, apenas o mar de partidos de direita.

 

Mas algo aconteceu de diferente ontem e seu nome é Guilherme Boulos.

 

Com mais de dois milhões de votos, o candidato do PSOL à prefeitura de São Paulo, tornou-se uma das grandes lideranças da esquerda brasileira. Penso até que sua derrota para Bruno Covas, um quase dublê de prefeito pré-fabricado pela linha de montagem do PSDB paulista, foi maior que uma eventual vitória. Sim, porque, ser um líder da esquerda é algo muito maior que um cargo público. Basta ver o tanto de tempo que Lula precisou para ser eleito presidente. Ainda que outros líderes, como Miguel Arraes e Brizola tenham sido eleitos governadores de Pernambuco e Rio, respectivamente, acredito que o protagonismo de Boulos se dá pela liberdade de atuação. E ele é jovem: tem apenas 38 anos.

 

Boulos tinha uma plataforma de governo avançadíssima, que investia em cooperativas, dava voz a conselhos populares e investia pesado em alimentação orgânica. Também falou muito sobre a necessidade de contratar médicos e professores, dando protagonismo aos concursos públicos em vez das péssimas e quase sempre corruptas parcerias público-privadas. Se ele fosse eleito, colocaria São Paulo numa vanguarda criativa e participativa que a cidade talvez nunca tenha tido. E não terá.

 

Boulos sai imenso. Covas segue como um peão no tabuleiro do xadrez partidário.

 

A esquerda tem líderes, tem força, mas precisa lidar com algumas questões.

 

– conquistar evangélicos

– enfrentar o crime organizado

– conquistar empresários que acreditem no Brasil

– dialogar com pobres e miseráveis, trazendo-os para o campo progressista.

 

E, acima de tudo, onde quer que esteja como poder constituído, a esquerda não pode abrir mão de investir o máximo possível em educação para que, nem que seja a longuíssimo prazo, o povo mais humilde possa entender em quem está votando. Do contrário, sem educação, seremos sempre mais fracos e vulneráveis.

+3

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

One thought on “Guilherme Boulos em outro patamar

  • 6 de dezembro de 2020 em 09:43
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    Excelente diagnóstico. Eu só acrescentaria um fator, aos quatro que você relacionou como problemas que a esquerda precisa lidar: unir-se. O que acontecu aí no Rio na eleição para prefeito é uma amostra do quanto os movimentos progressistas precisam se conciliar e formar uma linha de pensamento única. Acho que não podemos nos dar ao luxo, em hipótese alguma, de voltar a cometer esse mesmo erro em 2022.

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