Sepultura – Quadra

 

 

Gênero: Heavy metal

Duração:  51 minutos
Faixas: 12
Produção:  Jens Bogren
Gravadora: BMG

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

Eu presumo que às vezes deva ser um saco ser Andreas Kisser. Mesmo com uma carreira consolidada e não tendo mais nada o que provar, ter que aturar, há mais de duas décadas, fãs que parecem se recusar a crescer, reclamando dos rumos que o Sepultura tomou, deve acabar com a paciência de qualquer um. A despeito disso, a banda segue em frente sem dar ouvidos aos fãs xiitas e aos críticos mais xaropes, fazendo sua música sem jamais se acomodar e/ou cair numa zona de conforto. Ao contrário, cada novo álbum da fase Derrick Green tem apresentado uma nítida evolução e agora com “Quadra”, seu décimo quinto trabalho, a banda mostra de forma clara que atingiu seu auge, tanto criativa quanto tecnicamente.

 

Baseado no livro “Quadrivium” de John Martineau, que discorre sobre as quatro artes liberais (a saber: Cosmologia, geometria, matemática e música), “Quadra” foi concebido para ser um álbum conceitual com 4 segmentos bem definidos, como um vinil duplo: abre com as três primeiras músicas mais pesadas e violentas, seguido por outras que priorizam elementos percussivos e o groove dos tempos de “Roots”, outras com características mais épicas e progressivas e por fim as três últimas canções mais melódicas e cadenciadas. O início trash é uma verdadeira porrada na cara: “Isolation” remete aos bons tempos de bandas como o Kreator e tem uma letra extremamente atual, sobre como o sistema prisional americano precisa ser repensado pois não recupera ninguém (“Construíram uma cela cheia de raiva / Suicídio é seu único amigo / Na cela você permanecerá / Trancado pelo resto da vida / Com seus direitos humanos violados”). Logo em seguida, emenda com “Means to an End”, com seus riffs poderosos e uma quebrada na dinâmica no meio da música que cria uma atmosfera soturna e densa e “Last Time”, talvez a mais violenta do disco.

 

Na parte groove, brilha a estrela do baterista Eloy Casagrande, um verdadeiro monstro que esbanja técnica e criatividade. Graças a ele o Sepultura vem, desde sua estreia no bom “The Mediator Between Head And Hands Must Be The Heart”, de 2013, se distanciado cada vez mais do som que os caracterizava e se arriscando em novos caminhos e é quem se sobressai em faixas como “Capital Enslavement”, a que mais lembra a fase Max, com sua percussão que remete a ritmos regionais brasileiros e “Ali”, com sua batida insana que acompanha o riff da guitarra do Andreas. O destaque da terceira parte é a experimental e épica “Guardians of the Earth”, com seus violões e corais e, por fim, no trecho final, impressiona ver o desempenho vocal de Derrick Green em “Agony of Defeat” e na faixa que encerra o disco “Fear, Agony, Chaos, Suffering”, levada em dueto com Emily Barreto, vocalista do Far From Alaska. Derrick abre mão dos seus tradicionais guturais e canta de modo surpreendentemente limpo, mostrando que é muito mais versátil do que a maioria imagina.

 

Tentei de todo modo evitar comparações com a fase Max Cavalera, mas vai lá: “Quadra” é disparado o melhor trabalho da banda em muito tempo e por mais que a galera das antigas fique de choradeira, a verdade é que ele não faz feio numa eventual comparação com álbuns clássicos como “Arise”, “Chaos AD” e “Roots”. Andreas mostrou mais uma vez que é um dos melhores, mais criativos e ousados guitarristas da atualidade e que a banda ainda tem muito gás para queimar. Por mais que você viúva do Max ainda torça o nariz, fica minha sugestão: saia da caixinha e permita-se explorar além, como aliás é exatamente a ideia central do álbum. Vale a pena! Discaço!

 

Ouça primeiro: Isolation

 

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Luciano Milhouse

Luciano Milhouse é flamenguista, pensa que sabe escrever, tem 6 cachorros e aceita doações de CDs, DVDs, videogames e carrinhos (para desespero de sua esposa)!

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