O mais belo álbum de soul music de 2023?

 

 

 

 

Jalen Ngonda – Come Around and Love Me
33′, 11 faixas
(Daptone)

4.5 out of 5 stars (4,5 / 5)

 

 

 

 

Eu sou meio exigente quando o assunto é soul music. Apesar de achar bonito e interessante, não tenho muita paciência para o que se convencionou chamar de “retro soul” ou “vintage soul”, ou seja, artistas de hoje fazendo álbuns nos quais revisitam tiques e taques sonoros das produções da primeira metade dos anos 1960. São exercícios de estilo, bem feitos e belos, mas apenas isso. Mesmo preferindo trabalhos mais originais, não dá pra negar que Sharon Jones e Charles Bradley foram dois grandes nomes do estilo, ambos lançados pela gravadora americana Daptone e ambos tristemente já falecidos. Suas carreiras tardias serviram para corrigir a injustiça que o tempo lhes impingiu e o legado que deixaram – imenso em significado, não tão grande em extensão – ajudou a equilibrar os caprichos do tempo e da vida. Sendo assim, surge um outro nome com tanto potencial quanto os dois mestres – o americano, radicado em Londres, Jalen Ngonda. Dá pra dizer que, junto a Durand Jones, Ngonda é o grande nome do soul da atualidade. Digo, do soul realmente relevante e celestial, como deve ser.

 

 

Ele lança, pela mesma Daptone, o seu primeiro álbum, “Come Around And Love Me”, algo como “venha me amar”. É um disco impressionante sob vários aspectos. A voz de Ngonda é algo fora do comum, capaz de um falsete gritado, que lembra muito Eddie Kendricks, o vocalista de voz fina da fase mais reluzente dos Temptations. Ele compõe, toca guitarra, tem a manha da coisa toda e é um romântico incurável. Suas canções são lindas, com arranjos luxuriantes, melodias celestiais e letras apaixonadas, através das quais não tem qualquer receio de soar vulnerável e frágil quando o amor não acontece ou acaba. E jubilante, extático, quando o sentimento mais nobre se instala. Algo que parece fora de lugar para um sujeito com 28 anos nos tempos atuais. Começou aos onze anos, fuçando a coleção de discos do pai, aos dezoito foi para Liverpool após ter ganho uma bolsa para estudar Artes. Baseou-se na Inglaterra e vinha realizando singles e EPs até a Daptone captar seu talento e contratá-lo.

 

 

Ainda que o álbum seja um trabalho totalmente voltado para o tal retro soul, há muitos méritos nele. O foco temporal que Jalen escolheu para situar sua obra não é a primeira metade dos anos 1960, mas a virada daquela década para a seguinte, quando nascia um estilo de soul maravilhoso e revolucionário – o Philly Soul. Com a produção a cargo de dois músicos da banda de Charles Bradley, Mike Buckley e Vincent Chiarito, ele conseguiu uma sonoridade que não economiza em citações, referências e influências. A faixa-título, por exemplo, ainda que fale abertamente sobre amor, tem um arranjo que lembra algumas passagens instrumentais de Marvin Gaye em “Mercy Mercy Me” (1971), algo que funciona muito mais como uma homenagem declarada do que falta de originalidade. Aliás, essas passagens e citações abertas são uma característica desta variante de soul music. Dito isso, a canção é lindíssima e marcada muito mais pela voz de Ngonda.

 

 

Vários momentos lindos se espalham pelo álbum. “Lost” lembra algo que poderia ser do grupo The Persuaders, especialmente seu maior sucesso, “Thin Line Between Love And Hate” (1972), mas, por conta do talento vocal de Jalen, novamente a impressão dura alguns segundos e serve de referência sutil. “What A Difference She Made” é mais uma baladinha que poderia – elogio supremo – pertencer a Smokey Robinson, enquanto “Give Me Another Day” já leva as coisas para o início dos anos 1970, talvez com influência de Jerry Butler ou algum outro soulman clássico da época. Na letra, Jalen pede apenas mais um dia para poder provar o amor por sua musa. Em “Rapture”, uma canção mais vigorosa e linda, o arranjo tem sutilezas que poderiam ser dos Temptations mais próximos do que viria a ser o funk setentista. “So Glad I Found You” é a clássica “lentinha” das programações de rádio dos anos 1970, daquelas que Fulano, de Vila Isabel, dedica para Beltrana, de Icaraí. É uma lindeza linda.

 

 

Jalen Ngonda é voz do presente a serviço de uma tradição atemporal, com compromisso narrativo em expor as emoções do amor, da elevação espiritual, da consciência e do envolvimento comunal. Esta carga de significados e sentidos se aninha naturalmente em suas costas. O cara veio para ficar.

 

 

Ouça primeiro: “Come Around And Love Me”, “Lost”, “Rapture”, “Give Me Another Day”, “What A Difference You Made”

 

 

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *