Entrevista – Biquini Cavadão 

Pouca gente parece notar, mas o Biquini Cavadão permanece na ativa. Quer dizer, pouca gente, exceto seu grande número de fãs pelo Brasil afora. A banda carioca, que mantém quase intacta sua formação vitoriosa dos anos 1980, tem bem menos reconhecimento e admiração do que parece justo, especialmente se levarmos em conta a admiração irrestrita que formações da mesma época – Capital Inicial à frente – desfrutam.

O grupo vive um período especialmente fértil e se prepara para entrar em turnê nacional divulgando o novo disco que gravaram, “Ilustre Guerreiro (Uma Homenagem A Herbert Vianna”, que, como o nome já diz, faz tributo a composições do paralama-mór, figura diretamente ligada à trajetória do Biquini desde o início.

Conversei com Bruno Gouveia, vocalista do grupo, sobre a importância de seguir fiel aos princípios artísticos, longevidade, política e planos para o futuro, que envolvem o lançamento de uma autobiografia.

 

 

– O novo trabalho de vocês é uma homenagem ao Herbert Vianna e aos Paralamas do Sucesso. Como surgiu a ideia de regravar canções dele e qual foi o critério de escolha?

Corrigindo, é uma homenagem ao Herbert Vianna, cantor dos Paralamas e compositor de sucessos de muitos outros artistas, Daí termos incluído canções fora da lavra do grupo dele, como “Seu Eu Não Te Amasse Tanto Assim” e “Só Pra Te Mostrar”. A ideia já existia há muitos anos, desde 2007, mas somente em 2017 passamos a considerar como um trabalho a ser lançado.

 

– O Biquini Cavadão soube se manter vivo e atual por mais de 30 anos, qual o segredo de vocês?

Somos sinceros, temos a banda bem resolvida entre nós quatro e nos preocupamos em lançar músicas que possam ser passadas de pai pra filho…ou vice-versa.

 

– Como vocês vêem o rock brasileiro hoje? Que bandas e artistas vocês ouvem?

Gostei do Lestics, Mafalda Morfina, Los Porongas, e sempre me surpreendo com alguma banda nova. O rock vai muito bem, mas levará um tempo até que consiga superar o modismo vigente. O que não é nenhum problema. Na contracapa do disco “Que País É Este” está escrito 1978-1987. Foi preciso 7 anos para que a Legião Urbana finalmente lançasse o seu primeiro disco. Sete anos que maturaram o repertório e o transformou em um grupo idolatrado até hoje. Não tenhamos pressa. Vem coisa boa aí, com certeza.

(Nota do Editor: o primeiro disco da Legião Urbana, homônimo, é de 1984. “Que País…”, terceiro disco, é de 1987  e trazia algumas canções que a banda ainda não tinha gravado, mas que haviam sido compostas desde o início da banda, daí o intervalo de tempo).

 

– Ao longo da carreira vocês brincaram bastante com música eletrônica, remixes, internet, enfim, com a tecnologia. Como é a relação de vocês com isso hoje em dia? Por exemplo, o que vocês acham do streaming?

Para quem viu a música digital surgir, o streaming é hoje a evolução de tudo que queríamos. Música que pode ser baixada gratuitamente, mas que gera direitos autorais, royalties artísticos, orienta fãs, oferece qualidade sonora e tudo isso ainda é pouco para nós. Estamos trabalhando duro para que todo material fonográfico do Biquini Cavadão venha a ser disponibilizado. Temos pelo menos umas 50 faixas que poderiam fazer parte das plataformas digitais, entre remixes, demos, sobras de estúdio e até inéditas.

 

– Do início do milênio em diante, o Biquini entrou numa fase em que os shows ao vivo e participações em festivais e eventos fora do eixo RJ-SP se tornaram constantes. Vocês perceberam que isso seria um dos grandes diferenciais de vocês?

Nunca foi uma meta. Fomos onde nos chamavam. E percebemos que sempre que tocávamos para grandes platéias em festivais, os resultados vinham mais rápido. A ficha caía em todos que ali assistiam só que ao mesmo tempo. Começou em Belo Horizonte, no Pop Rock mas foi ao Nordeste no Ceará Music e até Norte, com o Fest Music de Belém. Não houve uma estratégia. Continuamos a querer fazer shows e festivais em qualquer lugar do país.

 

– Vocês também regravaram quase todos os sucessos da banda neste período da década de 2000, sempre com criatividade e novas sacadas. Vocês são interessados em como a passagem do tempo pode transformar as canções e impressões?

O objetivo de regravarmos nossas próprias músicas foi ter a chance de sermos donos de nosso próprio repertório. Levou dez anos para que a Universal lançasse uma caixa contendo nossos primeiros quatro albums. Ao gravarmos o disco 1985/2007 vol.1 e 2 conseguimos administrar melhor nosso trabalho. Tanto que no Spotify, entre as músicas mais tocadas, boa parte é desta lavra do século XXI.

 

– O novo disco é produzido pelo Liminha. Vocês só foram trabalhar juntos em “As Voltas Que O Mundo Dá”, de 2017. Por que demoraram tanto?

Porque a vida é feita de desencontros. Liminha era uma lacuna na nossa história, mas foi algo que finalmente aconteceu e gravamos direto dois discos com ele.

 

– Vocês têm canções politizadas na carreira: “Zé Ninguém”, “Janaína”, “Cai Água, Cai Barranco”…Como estão vendo a situação política do país atualmente? E como isso influencia vocês na composição?

Temos ainda “Livre”, “Coragem”, “Amanhã é Outro Dia”, “Alguma Verdade”, “Só Quem Sonha Acordado Vê O Sol Nascer”…. nossa crítica continua a se fazer presente nos álbuns. Mas hoje em dia, isso não gera reflexão. Digo, não abre-se o campo para o diálogo. A situação política há muitos anos me incomoda pois não é de hoje que vivemos uma guerra extremista, onde quem mente mais se torna o dono da verdade. Nenhum dos dois candidatos me representou na última eleição. Que saibamos aplaudir o que de bom for feito e criticar com veemência o que for estúpido. Só assim, com educação, discernimento e respeito poderemos crescer como nação.

 

– Vocês são um caso raro de artista que tem equilíbrio entre independência e contratos com gravadora. Como vocês perceberam as mudanças no negócio e como escolhem o tipo de contrato para os discos?

Esta foi uma das grandes conquistas que tivemos nos últimos anos. Desde 2007, temos controle geral de nossos fonogramas. As vezes, temos parceiros, temporários ou não, mas sempre visando contratos que possam ser revistos e avaliados ao longo do tempo. Temos também nossa própria editora. A série Perfil do Biquini Cavadão, que saiu pela Som Livre, foi inteiramente feita com fonogramas nossos, por exemplo.

 

– Qual o disco preferido da carreira? Ou tem aquela máxima de “filho a gente não escolhe”?

Gosto de todos, até daqueles que chamo de Patinho Feio, seja por serem esquisitos ou por terem sido injustiçados na época de seus lançamentos. Mas pra não ficar em cima do muro, meu top 3 autoral do Biquini Cavadão fica com Escuta Aqui (2000), As Voltas Que O Mundo Dá (2017) e Descivilização (1991)…por enquanto.

 

– Você vai lançar uma autobiografia chamada “É Impossível Esquecer O Que Vivi” daqui a uns meses. Fale um pouco de como surgiu a ideia de escrever e o tanto que a banda vai ocupar espaço nessa narrativa.

Queria escrever notas para uma possível biografia a ser feita sobre a banda. Comecei com isto. Depois de 2011, minha vida virou do avesso e reescrever meus passos foi algo que quis me dar de presente de 50 anos. Sai neste ano, com certeza. Minha vida desde os 18 anos foi com a banda. Por isso, é natural que ela norteie a narrativa.

 

– O que você nota como evolução na musicalidade da banda? Vocês têm preocupação com aprimoramento técnico, algo no gênero?

Continuo estudando canto, fazendo sessões de fonoaudiologia. Acho que isto visa meu aprimoramento cada vez mais no meu instrumento. Os outros também fazem aulas até hoje. Se reinventam assim e trazem novidades para cada gravação.

 

 

– Se vocês pudessem escolher um artista em especial para gravar um dueto, qual seria e que música?

Vamos gravar em breve com muitos artistas inusitados. Serão singles curiosos com os convidados cantando músicas do Biquini. A resposta para esta pergunta deve chegar em breve.

 

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CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

2 thoughts on “Entrevista – Biquini Cavadão 

  • 31 de março de 2019 em 11:27
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    Lendo esta entrevista e o comentário do Vagner Souza. Me vem uma grande satisfação em admirar a banda. Sou fã de carteirinha, as musicas fazem parte do meu dia a dia.
    Não os conheço pessoalmente por enquanto, não tive a oportunidade mas sei que logo terei. E como ser fã de quem vc nunca falou pessoalmente ?
    Simples de responder:, observando o respeito, e carinho que eles têm pelos fãs, a responsabilidade e cuidado a cada faixa que é apresentada.
    O Bruno é o que mais fala nas entrevistas ele está ali representando a banda na maioria das vezes, este é seu papel que faz com maestria.
    Falo da banda para todos que conheço sempre que tenho uma oportunidade.
    E o grande dia de conhecer esta banda pessoalmente está chegando, isso me deixa muito ansiosa e feliz.
    Parabéns Biquine Cavadão por proporcionar muitas coisas boas Brasil a fora.

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  • 30 de março de 2019 em 23:03
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    Tenho menos idade que a banda. Conheci o Biquíni Cavadão da melhor forma. Num Show. Que o que de melhor um artista deveria apresentar. Um show. Uma energia imensurável de causar admiração a primeira vista. Coisa que poucos artistas conseguem. Muitas pessoas gostam de artistas pelo que “mainstream” está empurrando guela abaixo. 12 shows depois, vejo que a energia é a mesma de sempre mas vejo a evolução tanto sonora quanto visual, seja nas roupas ou até msm na organização tática dos artistas no palco. Tipo um time de futebol mesmo. Já assisti dezenas de artistas nacionais. Seja rock seja MPB e digo. O show do biquíni é top 3 sem dúvidas. As produções dos discos também acompanham toda essa evolução. Nem vou entrar no mérito da atenção e respeito aos fãs porque já seria vantagens demais. Vagner Souza. São João da Barra. RJ.

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