Jorge Mautner e Tono – Não Há Abismo Em Que O Brasil Caiba

Gênero: MPB
Duração: 43 min
Faixas: 14
Produção: Bem Gil
Gravadora: Deck

4 out of 5 stars (4 / 5)

Primeiro foi Jards Macalé a ressurgir em 2019 com um álbum sensacional de canções autorais e inéditas, “Besta Fera”. Agora, sintomaticamente, Jorge Mautner vem com um trabalho nos mesmos moldes, este ótimo “Não Há Abismo Em Que O Brasil Caiba”, seu primeiro lançamento em 13 anos. A ideia de Mautner é ampla mas tem foco: analisar e observar o Brasil desses tempos impensáveis e violentos, não só de agressão física, mas de subversão de valores, de ataque à arte, à livre expressão, a tudo o que simboliza sua música e sua própria postura como artista. Se ele , no passado, foi chamado – junto com Macalé – de “artista maldito” da MPB, nada mais apropriado hoje. Talvez mais do que antes.

A parte musical do álbum fica a cargo do Tono, grupo formado por Bem Gil, Rafael Rocha, Bruno Di Lullo e Ana Lomelino, que já acompanha Mautner desde 2013 e fornece a Jorge a identidade/sonoridade atual necessária para que o disco assuma sua forma. Assim como Macalé, que se cercou de artistas como Kiko Dinucci e Rômulo Froes, Mautner também entende que a presença de gente jovem reunida confere ao seu trabalho a urgência necessária, algo que sempre existiu, mas que parece assumir uma nova forma e ganhar uma dimensão mais ampla na presença desta galera.

Sendo assim, o pais surge como tema central. O caminho que Mautner escolhe é que um contador de histórias tomaria. Ele vai falando de religião – em vários planos e dogmas -, de família (numa beleza de louvação à esposa em “Ruth Rainha Cigana”, de amor, de união mas evita gloriosamente a neutralidade em canções como “Bang Bang”, na qual enfileira assuntos como desigualdade social, a revolução iminente diante das injustiças do cotidiano, naturalizadas e assimiladas pela cultura do espetáculo, em versos como “a bala perdida lá do bang bang abre uma ferida por onde escorre o sangue”. O arranjo é um samba-bossa inocente e avança impávido até o fim da canção. Em seguida vem “Marielle Franco”, em que Mautner crava: “Uma força furiosa me impede a ficar com os nervos à flor da pele, é preciso exterminar a doença mental, física e assassina, do racismo, do antifeminismo e do neonazismo. E e preciso arrancar da medula, dos ossos, dos nervos ate a epiderme da pele, este medonho cancro que matou Anderson Gomes e que matou Marielle Franco”.

Neste Brasil que Mautner mostra também cabe a história de Dona Catulina, professora do interior do Nordeste, que ensina as crianças a ler e escrever. Também tem espaço para “Veneno”, canção agreste em que ele assume a responsabilidade tomar “todos os venenos de toda espécie e origem”, além de “Destino”, “O Diabo” e “O Passado”, sempre mostrando esse misto de cantador, contador de histórias e narrador de fatos que vão chegando ao conhecimento das pessoas à medida em que esta caravana imaginária e musical vai andando pelos caminhos do país. A imagem é de um profeta de um apocalipse que está perigosamente próximo, já se estabelecendo, como se fosse um último fiapo de chance de resistência e reação a ele. A única canção não inédita é “Yeshua Ben Joseph”, ode a “Jesus filho de José”, gravada por ele nos anos 80 com seu grande parceiro Nelson Jacobina, para quem esse novo álbum é dedicado.

“Não Há Abismo Em Que O Brasil Caiba” é quase um disco de cordel contemporâneo. As verdades são colocadas, ora explícitas, ora figuradas, por alguém que está entre nós há muito tempo, já viveu muito, sabe os caminhos e os atalhos e pode dizer, com certeza, o que está dizendo. Mautner vem se juntar a esta fileira de artistas que se levantam para manifestar-se sobre o absurdo diário, nossa passividade e nossa reação, mais que necessária.

Ouça primeiro: “Marielle Franco”

+2

CEL

Carlos Eduardo Lima (CEL) é doutorando em História Social, jornalista especializado em cultura pop e editor-chefe da Célula Pop. Como crítico musical há mais de 20 anos, já trabalhou para o site Monkeybuzz e as revistas Rolling Stone Brasil e Rock Press. Acha que o mundo acabou no início dos anos 90, mas agora sabe que poucos e bons notaram. Ainda acredita que cacetadas da vida são essenciais para a produção da arte.

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